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Futuro da Síria ainda é sombrio

Após 9 meses de crise e mais de 5 mil civis mortos, analistas temem que propagação da violência

Gustavo Chacra, correspondente

16 de dezembro de 2011 | 22h00

NOVA YORK - O futuro da Síria deve ser ainda mais sombrio e violento do que o atual momento de repressão sanguinária das forças de Bashar Assad contra uma oposição dividida entre manifestantes pacíficos e armados em Homs e algumas outras cidades da Síria, um país que por décadas se vangloriou de sua estabilidade ao lado de vizinhos mergulhados em guerras civis como Líbano e Iraque.

 

Com uma crise que completa nove meses e soma mais de 5 mil civis mortos, analistas não descartam a possibilidade de que a violência em Homs deixe de ser a exceção para se transformar na regra, propagando-se em outras partes da Síria.

 

Isolado e enfraquecido, Assad e seu partido Baath conseguem se sustentar no poder por meio do apoio das minorias alauitas e cristãs (juntas, cerca de 20% da população), que estão nos postos mais altos das Forças Armadas, de uma aliança com as elites econômicas sunitas. No campo externo, eles contam com a proteção da Rússia e, em menor escala, do Irã e do Iraque. Contra o regime, estão figuras democráticas civis dentro e fora do país, desertores do Exército e milícias salafistas armadas por grupos estrangeiros.

 

Segundo um diplomata de um dos países ocidentais do Conselho de Segurança, é urgente que os pilares que sustentam Assad sejam quebrados, facilitando uma transição pacífica na Síria. Esta alternativa é defendida por EUA, seus aliados europeus, Turquia e Liga Árabe.

 

"As revoltas militares crescerão. Três quartos da população síria é sunita. Como o serviço militar é obrigatório, há uma representação similar no Exército. Por isso, parece ser lógico que mais sunitas nas forças de segurança se voltem contra Assad.

 

Mais pessoas também devem concluir que o líder sírio esteja perdendo e pulem para o provável lado vencedor", diz Elliott Abrams, do Council on Foreign Relations. Mas, na avaliação dele, se este cenário não for acelerado, as divisões sectárias se agravarão e "juntar os pedaços na era pós-Assad será mais difícil". "Por este motivo, quanto antes o líder sírio deixar o poder, melhor", afirma.

 

Descartando a possibilidade de uma intervenção militar no médio prazo diante das dificuldades geopolíticas e logísticas para uma operação similar à realizada na Líbia, os EUA, com os árabes, os europeus e a Turquia, têm adotado sanções que estão estrangulando a economia síria.

 

"As sanções devem enfraquecer o apoio a Assad em Damasco e Alepo", explica Ayham Kamel, da consultoria de risco político Eurasia. Mas, segundo o analista, "não há ainda risco de queda de queda do regime no curto prazo. Assad mantém poder considerável. As deserções são limitadas. Além disso, a maioria silenciosa também teme uma mudança violenta de poder e prefere cautela".

 

George Friedman, diretor da consultoria de risco político Stratford diz que "Assad deve continuar forte por um tempo, pois os alauitas controlam postos-chave das forças de segurança" - esta vertente do islamismo, considerada menos religiosa, é a mesmo do líder sírio.

 

O cenário de ódio e assassinatos religiosos tornou-se comum em Homs. Uma das mais sectárias cidades da Síria, esta metrópole conhecida pelo elevado número de emigrantes que partiram para o Brasil, hoje se divide entre sunitas de um lado, e cristãos e alauitas do outro.

 

A atriz alauita Fadwa Soliman, uma das maiores estrelas da Síria, decidiu combater a narrativa do regime e assumiu o comando dos protestos em Homs. "Não há sectarismo na Síria. Quero acabar com esta mentira de que os protestos são de grupos armados, agentes estrangeiros ou radicais islâmicos", disse em entrevista à rede de TV Al-Jazira.

 

Apesar deste discurso, cristãos e alauitas dentro e fora da Síria temem um futuro sombrio no país similar ao que vem ocorrendo com os coptas no Egito. Cada vez mais, os sírios sentem-se com uma identidade sectária prevalecendo sobre a nacional.

 

GUSTAVO CHACRA, CORRESPONDENTE EM NOVA YORK, ESTEVE NA SÍRIA PARA COBRIR A CRISE ENTRE SETEMBRO E OUTUBRO. EM 2010, ENTREVISTOU BASHAR ASSAD. 

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