Futuro de assentamentos deve selar destino de diálogo israelense-palestino

Após quase dois anos afastados da mesa de negociação, israelenses e palestinos se encontrarão a partir de quinta-feira em Washington, novamente em busca de um acordo que encerre 62 anos de crise. Muito do resultado do diálogo, porém, depende da decisão de Israel sobre o futuro dos assentamentos judaicos na Cisjordânia.

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2010 | 00h00

Pior: o iminente impasse já faz vozes nos dois campos falarem em um diálogo "natimorto". Em dezembro, o premiê israelense, Binyamin Bibi Netanyahu, impôs um gelo de dez meses nos projetos de expansão dos assentamentos - que expira dia 26. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, pressiona para que Israel estenda o congelamento de novas construções a Jerusalém Oriental, que os palestinos querem como sua capital.

Pressionado de um lado pelos EUA, que se opõem à expansão, e de outro por sua base aliada, sustentada por colonos, Netanyahu tem duas opções politicamente ruins: renovar o congelamento, pondo em risco sua maioria na Knesset (Parlamento), ou dar sinal verde aos colonos após o dia 26, que o exporia à condenação internacional, no caso do fracasso do diálogo.

Há, porém, uma terceira via, idealizada por Dan Meridor, o vice de Netanyahu e homem forte do governo. O gelo seria mantido em assentamentos que certamente serão devolvidos aos palestinos num eventual acordo. Naqueles próximos à fronteira de 1967 e densamente povoados por judeus, o embargo seria revogado.

Não está claro se o "plano Meridor" tem real apoio de Bibi ou se os palestinos aceitariam discutir nesses termos. A proposta tampouco determina o destino de vários assentamentos, muitos deles densamente povoados, encravados em terra palestina.

Uma dessas comunidades é Efrata, grande assentamento com cara de subúrbio americano, situado no topo de um conjunto de colinas a poucos quilômetros de Belém, quarta maior cidade da Cisjordânia. "Acho que se tentarem retirar as pessoas daqui, haverá violência", afirma Fábio Buniak, colono de 53 anos que tem um armazém no assentamento. Nascido no Chile, ele se mudou para Israel nos anos 70 e decidiu morar em Efrata "por ideologia" durante a segunda intifada. Buniak foi um dos sobreviventes do atentado na pizzaria Sbarro de Jerusalém, de 2001, que matou 15 e feriu 130 civis israelenses. "Vi uma família inteira morrer na minha frente, incluindo um bebê, arremessado contra a parede. Depois disso, fiquei mais religioso e decidi mudar para cá."

Casos como o de Buniak, contudo, são a minoria entre os colonos da Cisjordânia. Segundo Haguit Ofran, do grupo Peace Now, que monitora os assentamentos, mais de 60% dos 300 mil colonos estão ali mais por causa de incentivos públicos do que por ideologia. "Comprar uma casa num assentamento a cinco minutos de Jerusalém é muito mais barato do que na capital por causa de isenção fiscal", explica Haguit. Escorregando o dedo no mapa da Cisjordânia, ela mostra que nos assentamentos próximos à fronteira de 1967 moram os "colonos por acaso". Os mais religiosos estão na região do Vale do Rio Jordão, território palestino adentro, e em lugares sagrados como a cidade de Hebron.

O palestino Mohamed Abd Rauf, que há 52 anos mora em Hebron, duvida que os colonos deixarão a cidade - um dos pontos de maior tensão da Cisjordânia. Rauf tem uma loja de souvenirs diante da Tumba dos Patriarcas e mora literalmente embaixo do assentamento de Avraham Avinu, um bloco de apartamentos ocupado por judeus ultrarreligiosos e sentinelas. "Lembro deles chegando em 1967, vi a cidade mudar radicalmente nesses anos. O Exército protege os colonos, duvido que os tirem daqui, um dos lugares mais sagrados do judaísmo, à força."

Para Akiva Eldar, um dos principais analistas políticos de Israel e colunista do jornal Haaretz, Bibi usa o argumento da fragilidade de seu governo como instrumento de barganha com os EUA e com os palestinos.

A chave do sucesso das negociações desta semana não está em Israel nem na Cisjordânia, afirma Eldar. "Os americanos devem pressionar de fato Bibi para que ele faça as concessões necessárias", afirma.

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