Futuro estado é um desafio logístico

RAMALLAH, CISJORDÂNIA

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2011 | 00h00

Na varanda de sua casa no bairro de classe média alta de Al-Tireh, em Ramallah, o empresário Abed al-Salam Abu Askar colocou uma placa que diz: "Gaza 82 km." É a distância em linha reta - medida pelo Google Earth - entre as capitais da Cisjordânia e da Faixa de Gaza (pelas estradas, são 100 km). A distância equivale à de São Paulo a Campinas, mas Abu Askar não pode voltar a sua cidade desde que a deixou, em maio de 2006, depois de ser detido brevemente pelo Hamas, por sua antiga militância no Fatah e amizade com o principal líder da facção em Gaza, Mohamed Dahlan.

Com o acordo entre as duas facções, Abu Askar pode ter o salvo-conduto do Hamas para voltar, mas a autorização de Israel, não. Dono de duas produtoras de TV e uma gráfica, Askar perdeu seus clientes em Jerusalém por causa da dificuldade de conseguir permissão de Israel para sair de Ramallah. Entrar na Faixa de Gaza é impossível. Há moradores de Ramallah que não conseguem permissão para visitar suas famílias em Gaza há 20 anos.

Sua situação sintetiza o paradoxo do Estado que os palestinos pretendem proclamar durante a Assembleia-Geral das Nações Unidas, em setembro. Mesmo com a reconciliação entre o Hamas, que controla a Faixa de Gaza, e o Fatah, que governa a Cisjordânia, os dois territórios que compõem o futuro Estado estão separados por Israel, com uma largura que varia de 80 a 100 km.

Há uma solução de engenharia para o problema: o projeto de construção de uma estrada abaixo do nível da superfície - um túnel ficaria caro demais -, que permitiria o trânsito israelense por cima. O problema não é de engenharia, mas construir uma arquitetura política que possibilite a aceitação do novo Estado, com o Hamas - que aprova o terrorismo e a luta armada como formas de resistência a Israel - entre suas principais forças políticas.

Governo. "Israel e a comunidade internacional não precisam aceitar o Hamas", argumenta Ghassan Khatib, porta-voz da Autoridade Palestina (AP), dirigida pelo Fatah. "Quem tem de ter posições aceitáveis para a comunidade internacional é o governo, não o Hamas." Khatib lembra que o Likud, o partido do ex-primeiro ministro israelense Ariel Sharon e do atual, Binyamin Netanyahu, votou contra e até hoje não aceita os Acordos de Oslo, que possibilitaram a implementação da AP nos territórios. "Mas quando Sharon se tornou primeiro-ministro não mudou a política do governo."

Os palestinos decidiram seguir adiante com a criação de seu Estado, prevista para dentro de dez anos nos Acordos de Oslo, firmados em 1993. Dedicam-se a construir os alicerces da soberania, entre eles uma moeda própria, que se chamará "libra palestina", o nome que tinha sob a administração britânica, até a criação de Israel, em 1948. O governador da Autoridade Monetária Palestina (embrião do futuro Banco Central), Jihad al-Wazir, diz que a economia dos territórios sofre muito com a falta da moeda própria, por não poder executar políticas de juros e de câmbio de acordo com sua realidade de inflação e de comércio exterior. Além disso, os palestinos pagam para Israel US$ 200 milhões de senhoriagem, a receita líquida proveniente da emissão de moeda.

"Não encaramos a moeda só como uma questão de imprimir dinheiro", diz Al-Wazir. Ele enumera uma série de medidas tomadas nos últimos três anos para garantir a estabilidade econômica, incluindo o aumento da arrecadação de impostos, que foi de 50% só no ano passado. As reservas internacionais acumulam hoje US$ 1,2 bilhão.

A economia palestina vive um boom. Nos últimos cinco anos, o rendimento médio das ações na Bolsa de Valores de Nablus foi de 6%, distribuindo US$ 600 milhões em dividendos. Mesmo na crise de 2009, o índice Al-Quds ("A Sagrada", nome árabe de Jerusalém) subiu 1,62%. "Nós nascemos no meio de crises, guerras, toques de recolher", explica Fida Musleh Azar, gerente da Bolsa. Investidores estrangeiros detêm 42% do valor das ações. As 44 principais empresas somam US$ 3 bilhões em ações.

O boom é impulsionado pela ajuda anual de US$ 500 milhões da União Europeia, US$ 500 milhões de países europeus, individualmente, e outros US$ 500 milhões dos Estados Unidos. Somadas, essas doações representam 26% do PIB palestino, de US$ 5,72 bilhões.

"Há atividade econômica, não desenvolvimento", diz o consultor Sam Bahour. "Para termos um Estado economicamente sustentável, precisamos de água, movimento, terra, acesso, fronteira e livre comércio exterior."

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