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Futuro político de Netanyahu salvo pelo coronavírus

Para formar governo, Bibi conseguiu trazer para o seu lado o inimigo político Benny Gantz; amigos do premiê dizem que o momento deve ser de atenção de todos para o combate à pandemia

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2020 | 05h00

Binyamin Netanyahu, considerado politicamente morto, ressuscitou graças aos bons serviços do coronavírus. Após um ano caótico que viu os cidadãos israelenses votarem em três turnos nas eleições legislativas, o último havia sido fatal para o inamovível primeiro-ministro Netanyahu, apelidado Bibi. 

É claro que ele foi o mais votado, como sempre, mas com uma maioria estreita que não lhe permitiu formar um governo. Chegou então a hora do seu rival, o general Benny Gantz, ex-chefe de Estado-maior cujas posições são mais moderadas, menos de direita, do que as de Bibi. Mas Gantz também não conseguiu formar um governo. Criara-se um bloqueio.

E então Netanyahu ressurgiu. Aquele que aqui chamam de “mágico” mais uma vez retoma o seu voo, e volta como um bumerangue com uma solução inverossímil. Em todas as suas campanhas, Benny Gantz tinha como slogan “Tudo menos Bibi”. Ocorre que Bibi conseguiu - não se sabe por que poção milagrosa - arrolar o seu pior inimigo em sua equipe, por meio de contorções incríveis saídas do cérebro inesgotável de Bibi. O novo gabinete será apresentado esta semana.

Netanyahu será primeiro-ministro e terá como ministro do Exterior Benny Gantz. Mas, e é ali que a lógica padece, Bibi só será primeiro-ministro por um ano, até setembro de 2021, data na qual assumirá o cargo de chefe de governo. Bibi se retirará então para dedicar-se ao processo que não o deixa dormir, porque está sendo acusado de três casos de corrupção.

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A combinação tramada por Bibi tem um primeiro efeito: ela acarreta uma cisão imediata no seio da formação de Benny Gantz. Dos 120 representantes no Parlamento do Azul e Branco, esta formação conta com 33 delegados. Ocorre que 18 destes romperam com Gantz. A televisão privada 13 denuncia um “suicídio político”. Um jornal o compara ao “coelho” na mágica realizada debaixo dos seus olhos pelo incansável cérebro de Bibi.

E é aqui que o coronavírus entra em cena. Os amigos de Netanyahu aproveitam para afirmar que na situação trágica que o planeta atravessa, é um dever realizar a Sagrada União e concentrar todas as forças do país contra a doença. De fato, assim como a maioria dos países, Israel também foi duramente atingido. Em um mês, o desemprego cresceu cinco vezes e a população está condenada. Será este o momento de prestar atenção a tais questiúnculas partidárias?

Para Bibi, esta saída da crise é de certo modo milagrosa. De fato, há meses ele está sendo ameaçado por este processo de corrupção que deveria ter começado na segunda-feira 30 e que de repente será postergado por um ano, porque um primeiro-ministro não pode ser julgado. 

Esta pirueta política afasta no último momento a pedra que o esmagaria. Um ano de sursis de que ele poderá aproveitar para preparar o processo. E daqui a um ano? Estou convencido de que ele já pôs em marcha todos os mecanismos do seu cérebro complexo para encontrar um novo estratagema e adiar esta questão detestável.  / Tradução de Anna Capovilla

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