Jim Huylebroek/The New York Times
Jim Huylebroek/The New York Times

Fuzileiro dos EUA e taleban se reencontram, 11 anos depois de tentarem se matar

Batalha ocorreu em 2010, quando grupo fundamentalista islâmico mais uma vez se tornava força militar poderosa

Thomas Gibbons-Neff, The New York Times

31 de dezembro de 2021 | 14h00
Atualizado 31 de dezembro de 2021 | 14h48

MARJAH, AFEGANISTÃO - O chá estava quente. A sala, opressiva e empoeirada. E o comandante taleban à frente do qual eu estava sentado, num prédio marcado por tiros no sul do Afeganistão, tinha tentado me matar há pouco mais de dez anos. Assim como eu havia tentado matá-lo.

Nós dois nos lembrávamos bem daquela manhã: 13 de fevereiro de 2010, no distrito de Marjah, província de Helmand. Tínhamos quase a mesma idade: 22. Fazia muito frio. 

O mulá Abdul Rahim Gulab fazia parte de um grupo de combatentes taleban que tentavam defender o bairro dos milhares de soldados americanos, da coalizão e do Afeganistão enviados para tomar o que na época era um importante enclave taleban. 

Ele não sabia disso quando nos encontramos recentemente, mas eu era um cabo numa companhia de fuzileiros navais que seus combatentes atacaram naquela manhã de inverno tantos anos atrás.

Com a vitória dos insurgentes naquela guerra de 20 anos, alcançada neste verão, Gulab, hoje um comandante de alta patente, estava sentado comigo na sede do governo de Marjah, um prédio confuso que os americanos reformaram anos atrás.

Eu era seu convidado, juntamente com dois colegas meus do The New York Times. Eu lhe disse que a luta por Marjah tinha sido importante aos olhos dos Estados Unidos, mas que a maioria das pessoas só tinha escutado uma versão da história da batalha. Não a perspectiva do Taleban.

Era 2010, e o Taleban estava mais uma vez se tornando uma força militar poderosa, ameaçando quase todas as partes do Afeganistão. Em Marjah, os rebeldes estavam cobrando impostos dos moradores, administrando uma justiça cruel e sumária e obtendo uma receita significativa da colheita de papoula.

A Operação Moshtarak, como os EUA chamaram a missão de 2010 para tomar o distrito, foi a primeira batalha planejada da tropa de contrainsurgência do presidente Barack Obama, que falhou.

Onze anos depois, Gulab e eu ainda nos lembramos do chamado à oração naquela manhã de fevereiro na aldeia de Koru Chareh, um povoado no meio de campos de papoula quase inundados, não longe do centro de Marjah. As árvores ao redor, desfolhadas, pareciam mãos de mortos estendidas.

"O céu sobre Marjah estava cheio de helicópteros, que despejaram soldados americanos em diversas áreas", disse Gulab.

Eu tinha acabado de me deslocar com minha equipe de mais sete fuzileiros para uma pequena casa de tijolos de barro, tendo pousado com mais de 250 soldados algumas horas antes. Quando o sol raiou, Gulab reuniu seu bando de combatentes taleban de uma aldeia próxima.

Pouco depois, o mulá, em voz alta e irritada, foi ao alto-falante da mesquita. Gulab e seus combatentes taleban rezaram.

Então começou o tiroteio. "Foi uma luta muito dura", disse Gulab.

Ele não estava errado. No fim do dia, um engenheiro dos fuzileiros estava morto e vários outros, feridos. Os insurgentes sofreram suas baixas.

Com o fim da guerra, em agosto passado, os locais onde lutei podem ser visitados novamente —trechos de terreno onde meus amigos morreram e eu vi os fracassos militares de meu país se desdobrarem. Hoje, como jornalista do The New York Times, eu quis voltar para reportar sobre o que mudou —e o que não mudou— nesses antigos campos de batalha.

Em novembro, minha viagem de volta ao distrito, hoje controlado pelo Taleban, foi muito fácil. As estradas estavam movimentadas com motos e caminhonetes carregadas de algodão. O pavimento estava marcado por crateras das bombas que os insurgentes haviam plantado por baixo. Postos militares e policiais abandonados marcavam a estrada, como Stonehenges esporádicos.

Marjah estava como eu me lembrava, mas as coisas tinham mudado. Havia uma estrada asfaltada. Os canais estavam secos.

E a guerra tinha terminado.

A colheita de algodão do outono estava em curso, o som dos motores de tratores e as conversas dos catadores era audível na ausência do ruído de fundo dos tiros, embora uma seca dura esteja ameaçando a vida financeira de muitos agricultores. A recessão econômica do país afetou a todos.

O prédio de dois andares que antes ocupávamos como centro de comando, onde meus amigos Matt Tooker e Matt Bostrom foram alvo de tiros naquele dia em fevereiro, agora é uma maternidade.

Nesta viagem de volta a Marjah, os homens não tiveram permissão para entrar. Mas através da porta rachada vi os degraus onde meus amigos feridos ficaram sentados, com bandagens, analgésicos e sorrindo antes que o helicóptero de evacuação chegasse.

Mais ou menos na mesma época em que um atirador taleban disparou uma rajada em meus colegas, Gulab perdeu um de seus homens —como se o pêndulo da violência que ocorreu naquele dia estivesse tentando se equilibrar.

Gulab entrou para o Taleban em 2005, um ano antes de eu me alistar nos fuzileiros navais. Ele havia perdido dois irmãos na luta, ambos talebans.

Eu cresci no subúrbio de Connecticut. Gulab cresceu numa parte montanhosa e isolada da província de Helmand.

"Quando eu era criança, ia à madraça, e nosso mulá nos dizia: 'Os estrangeiros querem ocupar nosso país, e vocês devem se preparar para vencê-los'", explicou Gulab. "Eu queria entrar para os mujahidin."

Quando cheguei a Marjah, Gulab era um combatente tarimbado que tinha sobrevivido a ataques aéreos dos EUA quando o fluxo constante de tropas americanas e da Otan invadiu o sul do Afeganistão. Ele era encarregado de cerca de 60 combatentes e entendia como navegar as regras de engajamento que impediam que soldados estrangeiros matassem taleban desarmados que jogassem suas armas na vala mais próxima.

Gulab disse que seus homens usavam crianças para avistar patrulhas e chamar os homens assim que os americanos deixassem seus postos. Ele mencionou isso como um detalhe, mas uma década atrás, quando começamos a saber que meninos de 8 anos estavam pondo em risco a vida de nossos amigos, nos perguntamos —e discutimos— até onde estávamos dispostos a ir para garantir que nenhum de nós morresse numa guerra que já sabíamos que estava perdida.

Enquanto Gulab narrava suas lembranças de todos os meios como seus amigos mataram meus amigos, e vice-versa, eu olhava para o rifle dele junto do meu braço direito. Ele o havia apoiado numa cadeira ao meu lado antes de eu me sentar. Era uma carabina americana M4, parecida com a que eu usava em 2010.

Por um breve momento, estive num tempo intermediário, entre o início e o fim da minha guerra.

O rifle era um instrumento conhecido, que já fora uma extensão de mim mesmo, sempre ao alcance da mão. Mas agora que não era mais necessário era pouco mais que uma massa de plástico e aço, e não interferia em como eu interagia com Marjah e Gulab. Ele não era mais um inimigo, mas um homem sentado no chão, pensando em sua próxima frase. Ele não estava lutando numa guerra que parecia não ter fim. Nem eu.

Ele tinha vencido sua guerra. Eu perdi a minha.

Voltei para casa do Afeganistão em julho de 2010. Cinco anos depois, o distrito de Marjah caiu sob o Taleban, exceto por alguns postos avançados. Então neste verão, aproximadamente duas semanas antes da queda de Cabul, o Taleban o dominou completamente.

"Estou muito feliz porque os estrangeiros deixaram o país e tudo terminou", disse Gulab. "Nós não precisamos matá-los, e eles não estão matando meus amigos."

Durante a entrevista, eu quis dizer a ele que tinha sido um fuzileiro. Que eu havia estado em Marjah em 13 de fevereiro de 2010 e tinha lutado contra ele. Quis dizer que sentia muito por tudo isso: as mortes desnecessárias, as perdas. Seus amigos. Meus amigos.

Mas não disse nada. Levantei-me, apertei a mão dele, sorri.

E fui embora de Marjah.

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