Javier Torres/AFP
Javier Torres/AFP

Gabinete de Boric aponta moderação com nomes de centro e acalma setor financeiro

Nomeações como a do ministro da Fazenda e vários outros membros da centro-esquerda mostram a disposição do novo governo em dialogar

Carolina Marins, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2022 | 15h00

O presidente eleito do Chile, Gabriel Boric, anunciou nesta sexta-feira, 21, quem serão os ministros que irão compor o seu gabinete após 11 de março, quando tomará posse. Diversos nomes da esquerda já eram esperados, mas nomeações do centro surpreenderam e acalmaram os setores financeiros do país.

O nome mais aguardado era o do Ministério da Fazenda, já que os setores empresariais temiam uma guinada muito grande à esquerda do governo. O nome indicado foi o do presidente do Banco Central, Mario Marcel, que gerou reações positivas dos mercados. Mas outros nomes também surpreenderam, como o da ministra de Relações Exteriores, Antonia Urrejola, que sinaliza uma mudança com as esquerdas radicais da América Latina.

“É claramente uma aposta pela moderação”, explica Jaime Baeza, professor do Instituto de Asuntos Públicos da Universidad de Chile. “Ele aposta em aderir à coalizão que o elegeu primeiro, mas com uma amplitude que incluiu uma parte importante da centro-esquerda”.

“Boric mostrou um grau de maturidade nas nomeações e nesse sentido a indicação de Mario Marcel como ministro da Fazenda foi fundamental. Não só gerou euforia nos mercados, mas também marca um antes e um depois nas relações com setores empresariais que tinham muito temor de sua chegada ao poder” completa.

Marcel é um independente ligado ao Partido Socialista. Ocupou diversos cargos nos governos de centro-esquerda, entre 1990 e 2008, e foi preferido pelos mercados, que veem em sua nomeação um gesto de moderação nas reformas econômicas que Boric busca implementar.

“Acho que isso mostra um sinal muito bom do presidente eleito Boric em termos de seu compromisso com a responsabilidade fiscal”, disse Isabel Aninat, reitora da faculdade de direito da Universidade Adolfo Ibáñez ao Americas Quarterly. “Ele disse isso em seus discursos nas últimas semanas, mas com Marcel neste ministério, mostra muito claramente que Boric está comprometido com o que afirmou.”

“Marcel demonstrou, principalmente nos últimos anos como presidente do Banco Central, um compromisso muito forte com a responsabilidade fiscal, mas também não tem medo de expressar opiniões mesmo quando são impopulares”, opina. A reação do mercado foi quase instantânea após a nomeação de Marcel. O dólar caiu acentuadamente pela manhã, enquanto o mercado de ações subiu.

“Mario Marcel é muito respeitado. É um dos criadores da regra de disciplina fiscal no Chile, e uma pessoa com muita reputação por sua experiência nos organismos internacionais e econômicos. Durante a pandemia, ele foi bastante estrito como presidente do Banco Central em manter uma política monetária austera”, conta Baeza.

A nomeação de Marcel não animou tanto a base mais à esquerda de Boric. Alguns políticos utilizaram as redes sociais para manifestar indignação. No entanto, segundo Baeza, o grupo não deve dar trabalho para aceitar a indicação.

Uma esquerda diferente

Antonia Urrejola no Ministério de Relações Exteriores também mostra uma guinada mais ao centro do novo governo e terá uma atuação significativa para a esquerda latinoamericana. “A designação da chanceler Urrejola põe um limite muito profundo às relações com as esquerdas latinoamericanas”, afirma Baeza. “Também acho que marca um antes e um depois no sentido de ‘somos uma esquerda diferente”’.

Urrejola é uma advogada e foi vice-presidente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. “A chanceler indicada tem uma vasta experiência com o sistema interamericano e não vem da coalizão direta do presidente eleito”, pontua Baeza. “Ela é mais próxima da coalizão de centro-esquerda que de esquerda.”

Segundo o professor da Universidad de Chile, podemos esperar uma chancelaria que vai se distanciar dos regimes de Nicolás Maduro, na Venezuela, e Daniel Ortega, na Nicarágua. “Provavelmente as relações com Cuba serão muito melhores, mas com Venezuela e Nicarágua serão diretamente ruins. O presidente eleito tem se manifestado muito diretamente contra esses regimes.”

Já com o Brasil, o professor pontua que o início das relações devem ser cautelosas, principalmente por causa das posições do presidente Jair Bolsonaro acerca de Boric. O governo chileno observará as próximas eleições brasileiras e deve direcionar suas relações com base no resultado. 

Se mantiver Bolsonaro, não deverá haver aproximações, mas caso as pesquisas de opinião acertem e a vitória seja de Lula, os dois países devem se aproximar. “Se em outubro ganhar o presidente Lula, provavelmente as relações serão muito estreitas”, aposta o professor. 

Um gabinete diverso

Boric falou de pluralidade política durante o anúncio de seu gabinete, o que foi elogiado por diversos setores. O núcleo mais próximo do presidente será composto principalmente das pessoas que estiveram próximas durante a campanha eleitoral e conhecem Boric desde a militância estudantil. 

Entre esses nomes estão Giorgio Jackson e Camila Vallejo, ex-dirigentes e deputados estudantis, que junto com Boric lideraram os protestos de 2011 em busca de uma educação pública gratuita e de qualidade. A lista também inclui a neta do ex-presidente socialista Salvador Allende, Maya Fernández, que ficará à frente do Ministério da Defesa.

A composição tem vários partidos de esquerda e centro-esquerda, assim como por independentes, é marcada por pessoas jovens e com média abaixo dos 40 anos. O que chamou mais atenção foram as nomeações majoritárias de mulheres. Dos 24 nomes, 14 são mulheres e 10 homens, algo inédito no Chile.

Por um lado, essa pluralidade será importante para a construção de diálogos com o Congresso, onde Boric tem a minoria. Mas também lança um enorme desafio para construir um governo onde as posições políticas não comecem a se chocar.

“Creio que o grande desafio agora é como vão funcionar [os ministros] em termos de equipe”, aponta Baeza. “É uma equipe muito diversa em questão geracional e provavelmente o maior gabinete com gente com menos de 40 anos desde o retorno da democracia. Não só são mais jovens, como há três gerações diferentes e há uma diversidade muito grande de partidos.”

 

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