Ernesto Arias/AP
Ernesto Arias/AP

Gabinete moderado indica disposição de Castillo a diálogo com Congresso no Peru

Novo gabinete será comandado pela ambientalista Mirtha Vásquez, em um sinal de moderação do presidente, no cargo há apenas dois meses e de busca de diálogo com partidos de centro no Parlamento

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2021 | 18h28

Em busca de uma solução para a interminável crise política do país e tentando criar condições de governabilidade, o presidente do Peru, Pedro Castillo, deu posse ao seu novo gabinete ministerial nesta quinta-feira, 7, após a renúncia do ex-primeiro-ministro Guido Bellido, que entregou o cargo na noite de quarta-feira, 6. O novo gabinete será comandado pela ambientalista Mirtha Vásquez, em um sinal de moderação do presidente, no cargo há apenas dois meses e de busca de diálogo com partidos de centro no Parlamento.

Para analistas políticos peruanos, as mudanças ainda indicam um afastamento do partido que o elegeu, o Perú Libre - principalmente do secretário-geral da legenda, Vladimir Cerrón, que tinha Bellido como homem de confiança. "Castillo fez um aceno aos setores mais progressistas da esquerda, e também demonstra uma intenção do presidente de ter um gabinete mais profissional em comparação ao anterior, que era muito confrontativo e sempre estava no 'olho da tormenta', provocando rivais", afirmou ao Estadão o analista político peruano Gonzalo Banda.

De acordo com Banda, uma mudança que demonstra a tentativa de reposicionamento do presidente para um caminho moderado foi a nomeação da congressista Betssy Chávez como ministra do Trabalho e Promoção do Emprego, substituindo o ex-ministro Iber Maraví, acusado de ter um histórico de relações com o Sendero Luminoso, guerrilha maoísta que aterrorizou o Peru nos anos 80. "Acredito que a aposta na parlamentar é uma declaração de princípios de Castillo", afirmou.

"A nova primeira-ministra é uma política com bastante experiência, que foi presidente do Congresso durante o governo Sagasti e tem um perfil de esquerda progressista, feminista, abraçando todas as bandeiras da esquerda moderna, mas, ao mesmo tempo, tem um tom mais sereno e dialogado. Não vai haver uma volta à direita no governo, mas vai haver um perfil menos confrontativo e mais moderado", avaliou Banda.

Onze ministros do gabinete anterior permanecem no cargo, entre eles o fiador econômico do governo, Pedro Francke. Uma mudança importante foi o novo ministro das Minas e Energia, Eduardo González Toro, que deve comandar um dos principais setores da economia peruana.

Pressão entre aliados

As mudanças provocaram reação imediata no Congresso. Enquanto a oposição ao governo comemorou a renúncia de Bellido - envolvido em diversas polêmicas nos últimos meses, com adversários políticos e empresários do país -, parlamentares do Perú Libre consideraram a desembarque dele do governo como "traição", com um grupo de deputados indo ao Palácio do Governo para exigir de Castillo que a legenda tivesse representação no Executivo, e rejeitando a presença de "conservadores, 'Caviares' (esquerda abastada) e traidores".

"É hora do Perú Libre exigir sua cota de poder, garantindo sua presença real ou a bancada para tomar posição firme", disse Cerrón por meio de uma mensagem no Twitter.

"Uma parte da bancada do Perú Libre, mais associada a Cerrón, disse que não vai conceder o voto de confiança a esse novo gabinete, mas temos que ver como isso vai se desenvolver. No Peru, presidentes com bancadas minoritárias não acabaram bem", disse Banda.

Mercado reage favoravelmente

Se no campo político as reações foram divergentes, o mercado reagiu ositivamente à mudança ministerial. O sol peruano alcançou seu melhor desempenho em mercados emergentes, enquanto o índice de ações de referência do país subiu para o maior desde junho e o custo para segurar a dívida do país contra inadimplência teve a maior queda desde abril de 2020.

Os investidores estão torcendo por sinais de que Castillo está buscando uma abordagem conciliatória - enquanto sinaliza o desejo de construir um consenso nas negociações com o setor de energia e outras indústrias críticas.

"Esta é outra afirmação de uma abordagem mais pragmática da política", disse Edwin Gutierrez, chefe de dívida soberana de mercados emergentes da Aberdeen Asset Management em Londres, a Bloomberg. Por enquanto, a remodelação do gabinete é um sinal forte o suficiente de que o Peru continuará sendo um lugar seguro para investir na América Latina, acrescentou.

Primeiros compromissos

A primeira agenda do novo gabinete foi uma reunião com Pedro Castillo no Palácio de Governo. De acordo com um comunicado divulgado pelas autoridades peruanas, o encontro tinha por objetivo "executar as primeiras ações intersetoriais do novo gabinete ministerial", após as nomeações da primeira-ministra e dos demais titulares de pastas serem publicadas no diário oficial.

Apesar das nomeações terem sido confirmadas nesta quinta, Vásquez fez o juramento ao cargo ainda na noite de quarta, e garantiu que pretende trabalhar "pelo governo do povo e pelas reformas que o país precisa". A premiê afirmou que cumprirá o mandato "por este país de mulheres e homens que lutam para viver com dignidade, sem discriminação e que promovem as mudanças reais".

Vásquez serviu como chefe do Congresso entre 2020 e 2021. Ela é advogada e defendeu Máxima Acuña, uma agricultora camponesa, em um caso de destaque contra a mina de ouro de Yanacocha da Newmont Mining Corp, que rendeu manchetes em todo o mundo.

 /Com EFE, Bloomberg e REUTERS

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