Gabinete renuncia e Assad promete mudanças na Síria

Presidente fará pronunciamento e deve decretar fim do Estado de emergência, vigente desde 1963 - uma das exigências da oposição

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / NOVA YORK

Em meio a gigantescas manifestações a favor do regime dias após protestos de opositores, o gabinete ministerial da Síria apresentou sua renúncia ao presidente Bashar Assad. Buscando conter a crise, o líder sírio deve dar mais um passo hoje ao anunciar o fim do estado de emergência em discurso à nação em Damasco.

Segundo autoridades sírias, além de levantar as medidas de exceção, que é uma das principais reivindicações de seus opositores, Assad deve oferecer "significantes concessões políticas".

Especula-se que esse poderá ser um dos mais importantes discursos já realizados no mundo árabe. O analista americano Andrew Tabler, do Washington Institute, acredita ser difícil que Assad faça "concessões que não sejam aceitas pela estrutura do regime". "Ele vive um dilema", afirmou.

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, adota uma posição ambígua sobre a situação na Síria. No domingo, afirmou que "parlamentares dos dois partidos (Republicano e Democrata) consideram Assad um reformista. O líder sírio se encontrou com uma série de autoridades americanas nos últimos meses e desenvolveu uma amizade pessoal com John Kerry, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado. Ao mesmo tempo, Hillary condenou ontem "a repressão brutal aos manifestantes sírios, em particular a violência e a morte de civis nas mãos das forças de segurança".

Na avaliação do governo americano, amparada por analistas, o fim do regime na Síria poderia ter consequências ainda mais graves para o Oriente Médio do que na Líbia. O país, localizado entre Líbano, Iraque e Israel, é dividido em linhas sectárias e étnicas bem mais acentuadas do que no Egito, na Líbia, na Tunísia e no Iêmen.

Em artigo publicado ontem no site da revista Foreign Policy, o historiador americano Patrick Seale, biógrafo de Hafez Assad, pai de Bashar, afirmou que "os EUA deveriam perder menos tempo pensando na Líbia e observando mais a Síria, um país que realmente pode ter implicações para os interesses americanos".

"Se a situação se deteriorar na Síria, devem ocorrer violentas demonstrações sectárias e toda a região poderá ser consumida em uma orgia de violência", escreveu Seale. Bashar Assad, apesar de ser um líder secular, pertence à minoria alauita, que representa 12% da população e teria um poder desproporcional na Síria.

A renúncia do gabinete é considerado um ato simbólico. O mais importante para a população síria seria o fim do estado de emergência vigente desde 1963, quando Assad sequer era nascido. Essa lei permite que o regime prenda opositores, censure a imprensa e proíba manifestações.

Para a oposição, que se organiza aos poucos, a saída dos ministros é inócua, já que o poder nunca foi importante em um Estado centralizado ao redor de Assad e seus familiares. "Não é sobre o governo, mas sobre suas políticas. Os ministros não são os que decidem as coisas. É o presidente. Ele faz as políticas", disse Abdel Majid Manjouni, membro de um partido opositor de Aleppo, segunda maior cidade síria. Uma reportagem do Washington Times indica que Ammar Abdulhamid, considerado um liberal com boas conexões nos EUA, poderá liderar a oposição.

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