Rodrigo Garrido/REUTERS
Rodrigo Garrido/REUTERS

Gabriel Boric e o velho problema na nova esquerda; leia análise

Candidato chileno representa uma classe de políticos latino-americanos que aparentam ser mais revolucionários do que realmente são

Robert L. Funk*, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2021 | 05h00

SANTIAGO – No calor do debate eleitoral, é comum escutar opositores do candidato presidencial chileno Gabriel Boric acusá-lo de ser “controlado pelos comunistas”. Alguns dizem que, apesar de gostar de Boric pessoalmente, “o problema é quem está em seu entorno”. Esses comentários ressoam uma antiga antipatia contra o Partido Comunista do Chile, permitindo que oponentes classifiquem Boric como um político de extrema esquerda e definam a eleição como uma batalha entre dois extremos. 

O curioso desta dinâmica é que ela tenta colar em Boric políticas e atitudes que claramente não lhe pertencem. Como representante de uma nova esquerda no Chile,  Boric tem criticado há muito a centro-esquerda que governou o país por grande parte das três últimas décadas, acusando os políticos desse campo de serem tímidos demais e “neoliberais”. Mas ao mesmo tempo Boric também tem se mostrado disposto a questionar a implícita atitude de superioridade moral que emerge de sua geração.  

“Há realmente uma impressão na minha geração”, afirmou ele em 2017, “de que a história começou em 2011. (…) A Frente Ampla deve ter cuidado para manter a política no campo da política, não da moral”. 

Como resultado, Boric tem se oposto com frequência a posições que o Partido Comunista sustenta (ou vice-versa) — como a oposição de Boric aos regimes venezuelano, cubano e nicaraguense ou seu apoio ao pacto multipartidário que colocou em marcha a atual Assembleia Constituinte no Chile.   

A narrativa de dois extremos tem como base a visão de que, enquanto José Antonio Kast é colocado na extrema direita, Boric representa a extrema esquerda. Certamente, parte da retórica e do comportamento de Boric parece sustentar essa alegação — suas origens políticas ocorreram como líder estudantil, na Esquerda Autônoma, que, com base na ideologia de Karl Marx e Antonio Gramsci, desenvolveu uma abordagem voltada à ação política e à organização, que a colocou à esquerda dos tradicionais campos políticos do Chile. Boric deixou esse grupo em 2016, criando a coalizão da Frente Ampla, que busca uma abordagem mais pragmática na obtenção do poder, incluindo a formação de coalizões.

Ainda assim, em julho do ano passado, Boric fez questão de visitar um grupo de manifestantes presos — injustamente, segundo ele — após os protestos de outubro de 2019. Similarmente, em 2018, apesar de insistir que “não podemos aceitar assassinato ou violência contra aqueles que pensam diferente de nós, nem vingança”, durante uma viagem a Paris Boric visitou um dos matadores do senador chileno Jaime Guzmán, assassinado em 1991.

Esses gestos, aliados ao pulso em riste e ao fato dele chamar seus apoiadores de “camaradas”, evidenciam que Boric busca colocar-se firmemente na comunidade epistêmica da esquerda romântica e revolucionária. 

E ainda assim, uma análise da plataforma eleitoral de Boric revela poucos indícios de radicalismo. Certamente, todos os acenos esperados de qualquer agenda progressista encontram-se por lá: ênfase no feminismo, na economia verde, no reconhecimento de grupos LGBT e comunidades indígenas. Mas há também regulação em vez de nacionalização; responsabilidade fiscal em vez de libertinagem; e um comprometimento com a independência do Banco Central. Ele propõe diminuir a jornada de trabalho semanal de 44 horas para 40, padrão adotado por grande parte da Europa Ocidental. Suas propostas mais extravagantes — expandir os sistemas de saúde pública e aposentadoria e a reconstrução da rede ferroviária do país — podem ser impossíveis de realizar no curto prazo, mas não têm nada de revolucionárias. O que sim elas buscam fazer é mudar o modelo de desenvolvimento chileno de neoliberal para social-democrata. Na realidade, “Boric, o revolucionário” tem sido bem direto quanto à sua identificação com a social-democracia.     

Essas contradições ilustram como é difícil atrelar a nova esquerda ao espectro ideológico tradicional. Ainda que no passado possa ter parecido radicalismo infundir todos os aspectos de uma plataforma política com feminismo e ambientalismo, para uma nova geração que se defronta com diferentes ameaças existenciais em relação à de seus pais, essas abordagens soam como senso comum. 

Por outro lado, esse debate é tão antigo quanto o próprio socialismo. Das divisões internas durante a fracassada presidência de Salvador Allende aos debates entre bolcheviques e mencheviques na Rússia pré-revolucionária, à Crítica ao Programa de Gotha, feita por Marx atacando os social-democratas por sua timidez, a questão sobre quão veloz ou extrema é uma posição tem persistido na esquerda.  

Os protestos de 2019 no Chile foram em grande medida resultado de expectativas não atendidas de uma classe média emergente, cujos sacrifícios passados não deram o retorno esperado. Na corrida para o segundo turno, tanto Kast quanto Boric têm tentado falar a uma maioria desiludida. Kast enfatiza ordem e segurança, Boric, justiça social. Ao agir desta maneira, ambos os candidatos tentam atender a esperanças despedaçadas oferecendo ainda mais esperança, uma proposta arriscada, o que pode explicar por que Boric agora opta por enfatizar evoluções graduais. Sua nova abordagem é tanto um reconhecimento da realidade política quanto um eco de debates passados. É também um prenúncio do tipo de tensão que aguarda um eventual governo de Boric.      

* É professor de ciência política da Universidade do Chile e sócio do Andes Risk Group, uma firma de consultoria política.

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