MARTIN BERNETTI / AFP
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Gabriel Boric: quem é e o que pensa o novo presidente do Chile

Líder estudantil pela maior parte da vida, esquerdista deixou o extremo sul do Chile para conquistar os eleitores com bandeiras como o bem-estar social, reforma do sistema de pensões e igualdade social

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2021 | 10h24
Atualizado 20 de dezembro de 2021 | 17h23

Correções: 20/12/2021 | 17h23

Fundada para abrigar uma colônia penal e uma base militar no extremo sul da Patagônia chilena no século XIX, a cidade de Punta Arenas não figura entre as principais cidades do Chile. Com pouco mais de 123 mil habitantes, a área urbana encravada às margens do estreito de Magalhães, contudo, entrou para o anedotário político do país como berço do novo presidente, Gabriel Boric.

Aos 35 anos, o mais jovem presidente da história do Chile completou a jornada da Patagônia ao Palácio de la Moneda em uma velocidade impressionante, em sua primeira tentativa - apoiado em anos de atuação no movimento estudantil e uma breve passagem pelo Congresso chileno.

A trajetória política de Boric começou ainda no extremo sul do país. Aos 15 anos, na virada dos anos 1990 para os 2000, o atual presidente participou da refundação da Federação de Estudantes Secundaristas de Punta Arenas, em seu primeiro contato relevante com o movimento estudantil. Mesmo após a entrada para a universidade - ingressou em Direito na Universidad de Chile - sua participação na militância política não esmoreceu.

Parte de uma geração de poderosos líderes estudantis que comandaram protestos por educação gratuita e de qualidade em 2011, durante o primeiro governo de Sebastián Piñera, Boric conquistou uma posição de protagonismo. Em 2008 foi eleito para o conselho da Federação de Estudantes da Universidad de Chile (Fech). Um ano depois, foi eleito presidente do Centro de Estudantes da instituição. E nos dois anos seguintes, foi senador universitário. 

Não demorou para a carreira como líder estudantil virar uma carreira política. Nas eleições de 2013, ainda como candidato independente, Boric foi eleito deputado pela região de Magalhães e Antártica Chilena, sua terra natal. Durante o mandato, aliou-se a outras lideranças de esquerda para fundar o Movimento Autonomista - que reuniu partidos políticos insatisfeitos com a esquerda tradicional chilena, e posteriormente viria a se tornar o partido Convergência Social, legenda pela qual o presidente foi eleito neste ano.

Reeleito, Boric ganhou projeção nacional em seu segundo mandato durante os protestos sociais que tomaram o país após o aumento do preço da passagem de metrô em Santiago, que forçaram o então presidente Sebastián Piñera a aceitar a elaboração de uma nova Constituição. O então deputado foi um dos signatários do "Acordo pela Paz Social e Nova Constituição", que deu início ao processo Constituinte atualmente em curso no país.

Quando decidiu entrar na disputa presidencial deste ano, liderando uma frente ampla com os partidos mais à esquerda no espectro político chileno, Boric precisou derrotar o pré-candidato do Partido Comunista Chileno, Daniel Jadue, nas primárias realizadas em julho, quando prometeu enterrar o legado socioeconômico neoliberal herdado da ditadura de Augusto Pinochet.

O programa de governo reformador apresentado por Boric no começo da campanha defendia a transição a um estado de bem-estar social, prometendo reduzir a desigualdade e prometendo aumentar os impostos dos ricos para financiar uma expansão substancial da rede de seguridade social, como a criação de um sistema de saúde público de contribuição universal, pensões mais generosas e uma economia mais verde - o que foi apontado por analistas como uma resposta direta aos protestos de 2019.

Em uma campanha eleitoral marcada pela polarização política e pela insatisfação popular com as forças tradicionais à esquerda e à direita, Boric despontou desde o começo como a candidatura mais forte do chamado campo progressista nas pesquisas, rivalizando diretamente com o conservador José Antonio Kast. A apertada disputa - considerada a mais imprevisível durante a redemocratização do país, nos anos 1990 - terminou o 1º turno com Boric na segunda colocação, com  25,83%, 146.313 votos a menos que Kast.

Com a formação de congresso fragmentado ao fim do primeiro turno, sem margem clara de maioria à direita ou à esquerda, e tentando conquistar apoio para a votação decisiva, tanto Boric quanto Kast suavizaram seus planos de governo. O candidato de esquerda suavizou principalmente seu programa econômico, reformando o programa inicial, de 230 páginas, com um texto de 18 páginas, que ampliou o prazo para aumento de carga tributária - o que financiaria parte dos avanços sociais propostos - e reconheceu dificuldades "técnicas e políticas" para realizar a reforma do regime de previdência privada chileno, além de acrescentar a consolidação fiscal como um "compromisso" e indicar que as medidas podem ser reavaliadas, caso o contexto econômico não seja favorável.

Seja pela suavização no plano ou por efeito da própria polarização que envolveu todo o processo, a estratégia de Boric surtiu efeito. Na eleição de domingo, o candidato reverteu a vantagem de Kast e venceu com quase um milhão de votos a mais do que o seu adversário. Apesar de já ser apontado como favorito nas últimas pesquisas, a margem de 11,7 pontos porcentuais sobre o rival surpreendeu em um pleito com abstenção de 45%, mas que ainda assim registrou a maior participação  em números absolutos desde a redemocratização, com 8,3 milhões de votos.

Em seu primeiro discurso após a vitória no domingo, Boric adotou um tom mais moderado do que o visto na campanha. Prometendo ser "o presidente de todos os chilenos e chilenas", fez aceno a adversários e chegou a agradecer José Antonio Kast. "Quero agradecer a Yasna Provoste, Sebastian Sichel, Marco-Enríquez, Franco Parisi, Franco Cortés e Antonio Kast. Sim, também a Antonio Kast", disse, citando os adversários, em meio à reação do público.

O aceno aos adversários já pode ser considerado o primeiro ato de um governo que dependerá de sua capacidade de alcançar acordos para governar, uma vez que, além do Congresso sem maioria definida, o novo governo terá como desafio unificar um país ainda rachado pelos acontecimentos de 2019, e que passa por um processo constituinte que pode alterar profundamente a legislação chilena.

"Espero que tenhamos a maturidade de contar com suas ideias e propostas para começar meu governo. Sei que temos muitas diferenças, em particular com José Antonio Kast, mas saberemos construir pontes para que nossos compatriotas possam viver melhor", completou durante o discurso  de vitória em Santiago./COM W.POST, NYT e EFE

Correções
20/12/2021 | 17h23

Uma versão anterior desta reportagem dizia que o Chile é o país com maior desigualdade de renda da América do Sul. Os dados, referentes a 2021, foram retirados da World Inequality Database. De acordo com o Índice de Gini, do Banco Mundial, indicador mais comumente adotado para medir a desigualdade no mundo, o Chile é o terceiro país mais desigual do continente, atrás de Brasil e Colômbia.

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