Kevin Lamarque/Reuters
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Gafe de Biden revela uma presidência fraca; leia a análise

Muitas vezes, presidente americano é conciliador demais, permitindo que os outros avancem em sua direção

Henry Olsen/ The Washington Post, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2022 | 20h00

Na quarta-feira, Joe Biden mostrou porque sua presidência respira por aparelhos, quando disse que os EUA poderiam tolerar uma “pequena incursão” russa na Ucrânia. A política americana sempre foi a de responder com sanções pesadas a qualquer invasão da Rússia. Repetir isso deveria ter sido fácil. Em vez disso, ele disse uma bobagem para o mundo todo ouvir.

Pouco importa que a secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, tenha retificado depois, afirmando que os EUA considerariam como “invasão” qualquer movimento russo na Ucrânia. Ou que Biden tenha dito, no dia seguinte, que o Kremlin pagaria um “preço alto”. O governo ucraniano ainda parece em estado de choque com o comentário. 

Biden semeou incerteza onde não havia, porque foi incapaz de traçar um limite aos esforços da Rússia para desestabilizar a Ucrânia. Essa incapacidade é um exemplo de por que tantos americanos desconfiam que ele não esteja à altura do cargo. Mas seu erro segue um padrão irritante de fanfarronice. Ele se considera um negociador, mas muitas vezes é conciliador demais, permitindo que os outros avancem sem resistência na sua direção. Se a conciliação falha, ele recorre a uma rispidez que beira a demagogia. 

Por que a Rússia se submeteria ao que Biden diz? Vladimir Putin sabe que muitos aliados europeus são contra as sanções porque dependem da importação de gás natural russo para aquecer casas e locais de trabalho. As sanções interromperiam as importações. Prejudicariam a Rússia, mas também paralisariam a Europa. 

Além disso, Putin tem experiência em ver os EUA recuarem de um limite imposto. Barack Obama fez isso em 2013, quando não atacou forças sírias que usaram armas químicas. Era o que Putin precisava: se Obama não se opôs a isso, não teria estômago para intervir na guerra civil. Em 2015, tropas russas foram enviadas para socorrer Bashar Assad, reforçando o papel de Moscou no Oriente Médio. 

Por isso, a gafe de Biden é consistente com o que vimos até agora. Ele é um presidente fraco, que não é temido nem amado. Para os EUA, isso significará a derrota dos democratas nas eleições legislativas de novembro. Mas, para a Ucrânia, pode significar coisa muito pior.

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