Pablo Martinez Monsivais/AP
Pablo Martinez Monsivais/AP

Gafe revela apelo de Obama a Medvedev

Microfone aberto capta diálogo em que presidente americano pede a colega russo que aguarde sua reeleição para retomar negociações

Reuters,

26 Março 2012 | 21h24

Sem saber que estavam sendo ouvidos por dezenas de jornalistas que cobriam a cúpula de segurança nuclear em Seul, os presidentes dos EUA, Barack Obama, e da Rússia, Dmitri Medvedev, expuseram ontem ao mundo acertos entre potências geralmente restritos aos bastidores da política. Sussurrando, Obama pediu ao colega russo tempo até a eleição (de novembro) antes de retomar as discussões sobre a construção de um escudo antimíssil na Europa.

 

Os dois estavam sentados frente a frente, quando os jornalistas começaram a entrar na sala. Curvado em direção a Medvedev, o presidente americano pediu mais tempo – "especialmente para a questão da defesa antimíssil" – até que esteja em uma posição doméstica mais favorável para dialogar. "Entendo sua mensagem sobre mais espaço", respondeu Medvedev.

 

Obama continuou: "essa é minha última eleição. Depois, terei mais flexibilidade", prometeu, mostrando-se confiante na reeleição, em novembro. "Vou transmitir essa mensagem ao Vladimir", disse o líder do Kremlin, referindo-se ao atual premiê e presidente eleito da Rússia, Vladimir Putin.

 

Os dois líderes reuniram-se a portas fechadas por 90 minutos no domingo, véspera da reunião em Seul. A conversa foi captada por um microfone aberto enquanto fotógrafos entravam na sala. Uma transmissão montada pela Casa Branca para jornalistas americanos e russos também pegou o diálogo, que teve partes inaudíveis.

 

A questão do escudo antimísseis é um dos principais obstáculos ao "reinício" das relações EUA-Rússia, prometido por Obama. Os EUA garantem que o sistema não é direcionado contra Moscou e o presidente americano promete incluir observadores russos no projeto. Entre radares e bases de lançamento, o escudo envolveria a Romênia, Polônia, Turquia e Espanha – todos países-membros da Otan.

 

O Kremlin, entretanto, teme que uma eventual "blindagem" da Europa diante de seu poder de fogo altere radicalmente o equilíbrio de poder em detrimento da Rússia.

 

Pega de surpresa ontem, a Casa Branca reafirmou os compromissos assumidos pelo governo Obama. "Considerando que 2012 é um ano eleitoral em ambos os países, com uma transição na Rússia e uma eleição nos EUA, está claro que neste ano não será alcançado um entendimento", disse o vice-assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, Ben Rhodes. "Por isso, os presidentes Obama e Medvedev concordaram que o melhor é instruir nossos especialistas técnicos e (...) melhor entender nossas posições, dando espaço para que avancem as discussões sobre a defesa antimíssil."

 

Arsenais em debate. Falando aos participantes da cúpula em Seul, Obama anunciou que os EUA continuarão a reduzir o número de ogivas nucleares e pediu à China que siga o mesmo caminho. O presidente americano ainda alertou o Irã e a Coreia do Norte sobre os riscos de seguirem no caminho das armas atômicas.

 

"Podemos dizer com confiança que os EUA têm mais armas nucleares do que precisam", disse Obama em discurso na Universidade Hankuk. Em 2010, Washington e Moscou assinaram em Praga um acordo que previa a redução de 30% do número de armas nucleares dos dois lados. Ainda assim, estima-se que, com o poder nuclear atual das duas potências, o mundo poderia ser destruído centenas de vezes.

 

Obama voltou a dizer que deseja ver um mundo "livre de armas nucleares", como afirmara logo após assumir a presidência, em 2009. O líder americano disse que "aqueles que ironizam nossa visão, que dizem que nossa meta é impossível, que sempre estará fora do alcance" estão enganados. Mas ele não falou como pretende colocar em prática seu ambicioso plano.

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