Khaled Elfiqi/Efe
Khaled Elfiqi/Efe

Gandhi me inspirou, diz antagonista de Mubarak

Wael Ghonim, ativista egípcio que impulsionou protestos, pede transição rápida para democracia

Adriana Carranca, especial para o Estado

06 de fevereiro de 2012 | 12h30

LONDRES - O ativista egípcio Wael Ghonim não tem a figura de um revolucionário. Franzino, ombros levemente curvados pela timidez, óculos de grau, ele atravessa quase sem tirar os olhos do chão o auditório onde uma centena de pessoas espera para ouvir a voz do jovem que se tornou a face da revolução no Egito. De passagem por Londres para o lançamento do livro Revolução 2.0 (em tradução livre), revela: "Minha inspiração foi Gandhi".

 

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Em entrevista ao Estado, um ano após a queda do regime, Ghonim diz que a nascente democracia no Egito será uma guerra. Ele se refere aos diferentes grupos políticos e ideológicos que agora disputam o controle do país. "Mas essa é a natureza da revolução. Nunca houve um comando central, ou estaríamos substituindo uma ditadura por outra", explica.

 

Para Ghonim, a prioridade agora é completar a transição do poder, ainda nas mãos da junta militar. "As eleições têm de ser antecipadas e a Constituição só pode ser escrita pelo novo governo, com participação civil", argumenta o executivo, que se afastou do Google para escrever o livro e acompanhar os acontecimentos no Egito.

 

O ativista se sente algumas vezes deprimido com o a pós-revolução. Apesar disso, reconhece que o país passa por uma mudança e, em sua opinião, isso requer tempo, paciência, paixão e otimismo. "Nós conquistamos muitas coisas. Se alguém me dissesse há um ano que tudo isso aconteceria, eu diria: ‘você está louco’", diz.

 

Despertar

 

Era 10 de junho de 2010 e Ghonim estava em seu escritório quando recebeu no Facebook a foto de um jovem espancado até a morte pelas forças de segurança de Mubarak. Seu rosto estava marcado pela tortura. As imagens eram tão horríveis que, de início, as tomou por falsas. Quando um amigo ativista lhe confirmou a autenticidade das fotos, caiu no choro. Não era o primeiro caso de violência da polícia de Mubarak. O executivo então decidiu agir e tornar o caso público, usando sua intimidade com as redes sociais.

 

Assim, Ghonim criou a página na Facebook chamada Kullena Khaled Said (Somos todos Khaled Said, em árabe). Em dois minutos, já tinha 300 seguidores. Em três dias, eram mais de 100 mil. As pessoas buscavam informações sobre o caso no Google e achavam a página. "Essa é a beleza da internet. A história conecta as pessoas", diz. "Vimos que não estávamos sozinhos".

 

Em comum, esses ativistas tinham a frustração. Trocavam desabafos, histórias e ideias sobre o que fazer. Ghonim, no entanto, era contra levar o movimento para o mundo real. Temia colocar em risco a vida das pessoas.

 

O estopim

 

Veio então a Revolução de Jasmin, na Tunísia, que levaria à queda do ditador Zine Abedine Ben Ali. "A Tunísia mudou tudo. São os tunisianos que devem levar o crédito pela revolução no Egito", reconhece.

 

No dia 13 de janeiro, pressionado, Ben Ali foi à TV pedir desculpas à nação. Ghonim estava agitado. Viu o discurso várias vezes. Os seguidores de sua página entraram no Facebook para comentar o que estava acontecendo. Queriam fazer o mesmo.

 

Pretendiam obrigar Mubarak a se desculpar. No dia seguinte, Ben Ali renunciou e fugiu para a Arábia Saudita. "Sentimos muita inveja", admite. "Os tunisianos estavam fazendo uma revolução e nós, egípcios, sentados diante do computador ou numa mesa de bar fumando shisha."

 

Ghonim reagiu. Convocou a marcha para o 25 de janeiro. "Tínhamos dez dias para nos organizar. Como a página não tinha dono, grupo ou ideologia, todo mundo se divulgou o ato e aquilo se espalhou" recorda-se.

 

O executivo desembarcou no Cairo no dia 23 de janeiro. Antes de viajar, fez um seguro de vida em nome da mulher e do filho, que ficaram em Dubai. Pensava que poderia morrer. No dia 25 de janeiro, os protestos se espalharam por todo o Egito.

 

Era o começo da Primavera Árabe no país. A partir daquela primeira manifestação, diz ele, o movimento já não tinha mais nada a ver com internet. Tudo era decidido na Praça Tahrir.

 

Dois dias depois, Ghonim foi capturado por três homens das forças de segurança de Mubarak. Levou chutes e socos e passou onze dias sendo interrogado, durante os quais foi colocado sozinho em uma cela escura e sem banheiro, com as mãos amarradas e olhos vendados.

 

Sentia-se apavorado, foi acusado de fazer parte de uma conspiração da CIA e da Mossad (agências de inteligência dos EUA e Israel) para desestabilizar o governo. Os capangas de Mubarak acharam que aquilo era muito grande para ter sido provocado por um bando de jovens no Facebook. E esse, defende o ativista, foi o maior erro do regime.

 

Em 7 de fevereiro, foi libertado após passar 11 dias preso. Ao participar de um famoso talk show da TV egípcia, soube das proporções violentas que os protestos tomaram. No ar, ao ver fotos dos jovens mortos durante os dias em que esteve preso, desmoronou. "Quero dizer, com toda a sinceridade, a cada mãe e cada pai daqueles que morreram que eu sinto muito", disse. "Eu juro por Deus que a culpa é dos que estão no comando do país".

 

A mensagem de Ghonim deu uma injeção de ânimo nos manifestantes e novos protestos se espalharam. Três dias depois, Mubarak renunciou. 

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