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Gangues da jihad

Os jihadistas descobriram que poderiam usar habilidades dos criminosos em seu favor e passaram a defender a ideia de que os crime são "ideologicamente corretos" se o fim é a jihad contra os "infieis"

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2017 | 05h00

O britânico Adrian Russell Elms, apontado como o motorista que avançou contra pedestres na Ponte de Westminster e esfaqueou um policial do Parlamento, nasceu em Kent no Natal de 1964. Morava na Rua Hagley, em Birmingham, fora da comunidade muçulmana local, da qual era desconhecido. Estudava, jogava futebol e ia a festas com colegas da Huntley School até se envolver com pequenos delitos.

Entre 1983 e 2003, acumulou “uma série de condenações” por assaltos, lesões corporais graves, posse de armas e ofensas à ordem pública, pelas quais chegou a ser preso, segundo a polícia, que na sexta-feira vasculhou casas e prendeu outros suspeitos em Winson Green, o bairro onde vivia, em Birmingham.

Não é a primeira vez que Birmingham é alvo de patrulha das autoridades antiterrorismo. O belga Mohamed Abrini, um dos autores dos atentados em Bruxelas que deixaram 32 mortos e mais de 300 feridos há um ano, foi preso em Birmingham, assim como dois de seus comparsas, o britânico Mohammed Ali Ahmed e o também belga Zakaria Boufassil.

Ex-padeiro conhecido como “brioche”, Abridi confessou também participação nos atentados em Paris, com 130 mortos, meses antes. Ele e Abdelhamid Abaaoud, cérebro dos ataques morto em uma perseguição, eram amigos de infância de Salah Abdeslam, ex-mecânico com envolvimento em múltiplos crimes - ele foi preso com Abaaoud por assalto em 2010 e condenado em outros casos em 2014 e 2015. Com o irmão Ibrahim, um dos suicidas de Paris, ele gerenciou um bar fechado depois por tráfico de drogas, no subúrbio de Molenbeek, conhecido pelas gangues e criminalidade.

Pelo menos a metade dos belgas que se uniram ao Estado Islâmico na Síria tem antecedentes criminais, segundo o Ministério Público da Bélgica. De Mohammed Merah, o atirador que deixou sete mortos em Montauban e numa escola judaica de Toulouse, em 2012, a Lahouaiej-Bouhlel, o tunisiano que avançou sobre a multidão nas ruas de Nice, matando 84 pessoas, todos os envolvidos em ataques na França também tinham passagens por roubos, furtos, tráfico de drogas, contrabando, brigas de rua, violência doméstica e outros crimes. 

A recorrência despertou pesquisadores do centro de estudos sobre radicalização e violência do King’s College, de Londres, para o “nexo crime-terror”. Ao analisar dados de 79 acusados por atentados na Europa, eles descobriram que 60% deles tinham sido presos antes por condenações não ligadas ao terrorismo, criando uma gangue pan-europeia de jihadistas com conexões com o tráfico de armas, drogas e outras áreas do mundo do crime.

Os pesquisadores também descobriram não se tratar de coincidência. Pelo menos 27% tinham sido convertidos, radicalizados e recrutados nas prisões européias (vale assistir From Jail to Jihad, documentário da BBC que já foi tema desta coluna). Um deles é Anis Amri, que avançou com um caminhão contra o mercado de Natal em Berlin, conhecido das autoridades por traficar drogas no Görlitzer Park entre uma ou outra ida à mesquita.

Além de facilidade de acesso a armas e dinheiro sujo, recrutas com passado de crimes estão mais acostumados a viver “sob o radar” das autoridades e a planejar ações com discrição; a familiaridade com a violência reduz seu “limiar (psicológico) para atos terroristas”. 

Em troca, grupos como o EI oferecem uma espécie de “redenção” sem que tenham de mudar. “A narrativa jihadista – como articulada pelo EI – é surpreendentemente alinhada com as necessidades pessoais e os desejos dos criminosos”, diz o estudo.

Os jihadistas descobriram que poderiam usar habilidades dos criminosos em seu favor e passaram a não apenas aceitar a prática de crimes comuns como a defender a ideia de que são “ideologicamente corretos”, se o fim é a “jihad” contra os “infiéis”.

“Às vezes, pessoas com os piores passados criam os melhores futuros”, lê-se na legenda da foto de um jihadista publicada nas redes sociais como propaganda para recrutamento por um grupo de jovens de Londres que luta com o EI na Síria, o Rayat Al-Tawheed (Baner de Deus). 

Segundo os pesquisadores do King’s College, pelo menos 40% dos planos recentes de atentados terroristas na Europa, concretizados ou não, foram ao menos parcialmente financiados com o dinheiro de “crimes comuns”, como tráfico de drogas, furtos, roubos e contrabando. 

São chamados de novos gângsteres da jihad.

 

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