Victor Moriyama/The New York Times
Victor Moriyama/The New York Times

Gangues ocupam vácuo de poder e espalham terror nas ruas do Haiti

Grupos criminosos ganham espaço e governo é acusado de usar bandidos como ferramenta para ampliar repressão

The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2021 | 05h00

Eles estupraram mulheres, queimaram casas e mataram dezenas de pessoas, incluindo crianças. Esquartejaram os seus corpos com facões e atiraram os restos aos porcos. O massacre de três anos atrás, considerado o pior do Haiti em décadas, foi mais do que gangues rivais lutando por território. Foi organizado por funcionários haitianos do alto escalão, que forneceram armas e veículos para membros de gangues para punir as pessoas de uma área pobre que protestavam contra a corrupção do governo, anunciou o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos no ano passado.

Desde então, os membros de gangues do Haiti se tornaram tão fortes que governam áreas do país. O mais notório deles, um ex-policial chamado Jimmy Cherizier, conhecido como Barbecue, se coloca como um líder político, realizando conferências de imprensa, liderando marchas e, nesta semana, até mesmo desfilou como substituto do primeiro-ministro na violenta capital.

Depois que gangues atiraram em um comboio do governo e fecharam a celebração oficial da morte do presidente fundador do país no domingo, Cherizier decidiu presidir a cerimônia, vestido com uma roupa branca, cercado por câmeras e guardas mascarados com espingardas enquanto ele colocava coroas de flores no local.

"As gangues têm mais autoridade do que nossos líderes", disse Marie Yolène Gilles, chefe de um grupo local de direitos humanos, o Clear Eyes Foundation. "Se eles disserem ‘fique em casa’, você fica em casa. Se eles disserem ‘saia’, você pode sair. É aterrorizante."

O sequestro de 17 pessoas com um grupo missionário americano durante o fim de semana, que acredita-se ter sido realizado por uma gangue rival chamada 400 Mawozo, ressaltou o poder crescente das gangues do Haiti. Segundo algumas estimativas, eles agora controlam mais da metade do país e, em alguns lugares, operam como governos de fato, com seus próprios tribunais, "delegacias de polícia" e taxas residenciais para tudo, desde a eletricidade até as licenças escolares.

Especialistas dizem que as gangues têm mantido influência em muitos bairros pobres, mas começaram a ganhar mais domínio depois que Jovenel Moise foi empossado como presidente em 2017. Esses grupos se aproveitaram da ruptura das instituições democráticas sob o comando do presidente e da implantação de gangues pelo seu governo como ferramenta de opressão.

Mesmo o governo americano e a Organização das Nações Unidas estando cientes da crescente ligação entre as gangues, o governo e a polícia haitiana, eles pouco fizeram para combater o problema, em parte por medo de derrubar a pouca estabilidade que o Haiti tinha, dizem os oficiais atuais e antigos.

Essa aparência de estabilidade desmoronou em julho, quando Moise foi assassinado em seu quarto. O episódio permanece sem solução e expôs ainda mais a fraqueza institucional do país.

"Sua administração enfraqueceu a polícia e o sistema judiciário", disse Pierre Espérence, diretor executivo da Rede Haitiana de Defesa dos Direitos Humanos, sobre o governo de Moise. "Não havia controles no porto, na fronteira, no aeroporto - armas e munições chegam facilmente ao Haiti. E, então, eles usaram as gangues para massacrar as pessoas nas favelas."

Os ataques, segundo o diretor da rede humanitária, foram tentativas de garantir o controle político na corrida às eleições na região da capital, que representa 40% do eleitorado do país - grande parte em favelas lotadas.

A organização de Espérence documentou mais de uma dúzia de ataques armados por gangues desde 2018, levando à morte ou desaparecimento de mais de 600 pessoas. Em muitos casos, esses relatórios citam o papel de policiais nos assassinatos, incluindo o envolvimento de oficiais ativos e o uso de equipamentos como carros blindados ou gás lacrimogêneo.

Em pelo menos dois casos, a organização destacou o envolvimento de membros do governo de Moise. Nenhum deles resultou em prisões ou investigações robustas por parte da polícia, de acordo com Rosy Auguste Ducéna, diretora do programa da rede. Nenhum policial foi penalizado por alegações de envolvimento. "É por isso que dizemos que a violência estabelecida no Haiti hoje é uma violência de Estado", disse ela.

Um funcionário do alto escalão do governo do primeiro-ministro Ariel Henry, o qual estava sob escuta de Moise e assumiu a nação em julho, disse que Henry não tinha ligação com os abusos que a administração anterior é acusada de facilitar. Pelo contrário, o funcionário, que não foi autorizado a falar publicamente, disse que o Henry, um médico, foi trazido para “limpar a bagunça” no Haiti, e prometeu fazer justiça em relação aos massacres passados e se esforçar para eliminar as gangues.

No centro das alegações está Cherizier e a aliança de nove gangues que ele lidera, conhecida como a coalizão G9 em Família e Aliados. Mas o "arquiteto intelectual" do massacre em 2018 foi Joseph Pierre Richard Duplan, um membro eleito do partido do presidente que forneceu armas para membros de gangues, segundo afirmou o Departamento do Tesouro em dezembro.

Um relatório das Nações Unidas aponta que testemunhas descreveram ter visto Duplan repreendendo membros de gangues durante o ataque, dizendo "Você matou muitas pessoas. Essa não era a sua missão."

O chefe do ministério do interior do governo, Fednel Monchéry, também estava intimamente envolvido, disse o Departamento do Tesouro. Ambos os funcionários perderam suas posições quase um ano depois, mas nenhum deles enfrentou acusações. A polícia parou Monchéry em fevereiro por causa de um problema na placa de seu veículo, informou o jornal haitiano Le Nouvelliste, mas o liberou logo depois.  "Quando a polícia nos diz que eles estão investigando ativamente, podemos dizer que isso é obviamente falso", disse Ducéna.

No ano passado, o Departamento do Tesouro impôs sanções aos funcionários sob a Lei Magnitsky de Responsabilidade Global dos Direitos Humanos, chamando-os de "autores de graves violações dos direitos humanos''.

Mas a ação americana veio depois de anos de apoio público a Moise, apesar de advertências acaloradas dos legisladores americanos sobre suas regras cada vez mais autocráticas. Tanto o governo americano quanto a ONU, cujo apoio é considerado essencial para qualquer presidente haitiano, foram acusados de fechar os olhos a relatos repetidos de infiltração de gangues em seu governo.

Um dos primeiros assassinatos em massa de civis sob a presidência de Moise começou como um ataque anti-gangue no bairro pobre de Grand Ravine. Em novembro de 2017, policiais haitianos - incluindo Cherizier, que, na epóca, ainda estava na polícia - invadiram um campus escolar. No final, oito civis foram mortos, incluindo um professor, um guarda de segurança e um potencial aluno "executado a sangue frio", de acordo com um inquérito interno conduzido pelo governo haitiano. Policiais da Missão das Nações Unidas para o Apoio à Justiça no Haiti, que ajudaram a planejar a invasão, estavam de guarda do lado de fora.

Alguns meses depois, Susan D. Page, a então chefe da missão da ONU no Haiti, divulgou uma declaração contundente pedindo às autoridades haitianas para investigar "alegações de violações dos direitos humanos por unidades da Polícia Nacional do Haiti", incluindo a operação fracassada.

Em protesto, o governo de Moise chamou o seu embaixador para a ONU. Já enfrentando críticas no Haiti por desencadear um surto de cólera devastador no país em 2010, a ONU rapidamente removeu Page de seu posto. "Eu estava à frente de uma missão de apoio à justiça,", Page disse em uma entrevista. "Eu não deveria lutar por justiça?"

Farhan Aziz Haq, porta-voz da ONU, disse em nota que a missão de apoio à justiça não havia autorizado a "busca de alto risco" conduzida pela polícia haitiana. Um inquérito interno descobriu que nenhum oficial da ONU havia "se dirigido ao local onde os supostos assassinatos ocorreram" ou disparado suas armas.

A ONU retirou sua força de paz em 2017, com um legado danificado que incluiu “soldados da paz” introduzindo a cólera no país e abusando sexualmente e engravidando meninas de apenas 11 anos. A partida deixou uma força muito menor para apoiar a polícia, que também se retirou em 2019. Na sua ausência, o vácuo de segurança cresceu, particularmente nas partes pobres da capital.

Depois de vários massacres envolvendo membros de gangues e policiais haitianos, incluindo Cherizier, mais de uma centena de membros do Congresso dos Estados Unidos escreveu para a administração Trump em 2019 para exigir uma investigação sobre assassinatos extrajudiciais pelas autoridades. “Nada aconteceu”, disse Andy Levin, representante de Michigan e co-presidente da Câmara de Representantes do Haiti. "Eu realmente esperava que houvesse uma mudança nesse sentido quando o presidente Biden assumiu o cargo", ele disse. "Eu ainda estou esperando."

Na capital, os haitianos vivem em constante medo. O número de sequestros explodiu, superando a alta do ano passado, que havia aumentado significativamente a partir do ano anterior, de acordo com a ONU. "Hoje estamos falando disso porque missionários americanos foram sequestrados", disse Ducéna. "Essa é a nossa realidade, é a nossa vida diária. Todos os dias, saímos de casa sem saber se vamos voltar."

Na maltratada economia haitiana, o sequestro também tornou-se uma fonte primária de renda para as gangues. A gangue que sequestrou os 16 americanos e 1 canadense com os Ministérios de Ajuda Cristã exigiu um resgate de US$17 milhões - US$ 1 milhão para cada pessoa sequestrada.

Cherizier, que lidera uma coleção rival de gangues, negou qualquer ligação com o governo. Em vez disso, se apresenta como um revolucionário, lutando contra a pobreza nas favelas. No domingo, um dia após o sequestro dos missionários, tiros em direção à cavalaria do governo haitiano fizeram com que ela fugisse antes que o primeiro-ministro pudesse comparecer à cerimônia em homenagem ao "pai'' fundador da nação.

Com o governo sendo perseguido, Cherizier, então, liderou a procissão, apreciando o espetáculo, como se fosse o verdadeiro líder da nação. Gilles especula que ele poderia concorrer ao cargo na próxima eleição. "Tudo pode acontecer neste país", disse ela, listando políticos que foram eleitos apesar de enfrentarem sérias alegações criminais. "Não seria a primeira vez que pessoas com problemas com a lei são eleitas."

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