AP Photo/Aaron Favila, File
AP Photo/Aaron Favila, File

Ganhadora do Nobel diz que Facebook ameaça democracia

Jornalista filipina Maria Ressa acusou o gigante da mídia social de falhar em proteger seus usuários contra a disseminação do ódio e a desinformação e de ser 'tendencioso contra os fatos'

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2021 | 19h45
Atualizado 10 de outubro de 2021 | 14h11

Um dia após ganhar o Prêmio Nobel da Paz, a jornalista filipina Maria Ressa acusou o Facebook de ser uma ameaça à democracia. Segundo ela, o gigante da mídia social falha em proteger seus usuários contra a disseminação do ódio e a desinformação, além de ser “tendencioso contra os fatos”.

A chefe do portal de notícias Rappler tem sido alvo de intensa campanha de ódio dos apoiadores do presidente Rodrigo Duterte.

“Estes ataques online nas mídias sociais têm um propósito. Eles são direcionados e usados como uma arma”, disse a ex-jornalista da CNN Filipinas. As apurações do portal Rappler tem exposto a guerra de Duterte contra as drogas, com execuções extrajudiciais, e uma série de reportagens investigativas, sobre o que Ressa diz ser a estratégia de seu governo para “armar” a internet, com blogueiros na folha de pagamento do governo para despertar a raiva entre os apoiadores que ameaçam e desacreditam os críticos de Duterte nas redes.

O Facebook nega qualquer ato ilícito. Procurado para comentar as observações da Ressa, um porta-voz do Facebook disse que a empresa investe na remoção e na redução de visibilidade de conteúdo nocivo.

“Acreditamos na liberdade de imprensa e apoiamos as empresas de notícias e os jornalistas em todo o mundo enquanto eles exercem o seu importante trabalho”, acrescentou o porta-voz.

Duterte não comentou sobre o prêmio da Ressa. Os filipinos estão no topo do mundo no tempo gasto em mídia social, de acordo com estudos de 2021 realizados por empresas de gerenciamento de mídia social.

Os comentários de Ressa somam-se à pressão recente contra o Facebook, utilizado por mais de 3 bilhões de pessoas, após uma ex-funcionária acusar a empresa de colocar o lucro acima da necessidade de refrear o discurso do ódio e a desinformação.

Para Entender

Guia para entender o prêmio Nobel da Paz

Veja como a honraria foi criada e os nomes cotados para este ano

Plataformas como o Facebook tornaram-se campos de batalha políticos e ajudaram a fortalecer a base de apoio de Duterte, tendo sido fundamentais em sua vitória eleitoral em 2016 e utilizadas na estratégia de seus aliados para as eleições do ano passado.

As Filipinas terão uma eleição em maio para escolher um sucessor de Duterte, que, sob a Constituição, não está autorizado a buscar outro mandato. Ele se comprometeu há uma semana a não disputar a reeleição.

Ressa compartilhou o Nobel com o jornalista russo Dmitri Muratov, os quais o comitê chamou ambos de “desafiantes da ira dos líderes das Filipinas e da Rússia ao exporem corrupção de desgoverno, um endosso da liberdade de expressão sob ataque em todo o mundo”.

O Facebook se tornou o maior distribuidor de notícias do mundo e “ainda assim é tendencioso contra os fatos, é tendencioso contra o jornalismo”, disse Ressa.

“Se você não tem fatos, não pode ter verdades, não pode ter confiança. Se você não tem nenhuma delas, você não tem uma democracia”, disse ela. “Além disso, se você não tem fatos, você não tem uma realidade compartilhada, então você não pode resolver problemas como clima ou coronavírus”. / REUTERS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.