Ganhadores e perdedores da revolução egípcia

Os vencedores evidentes são os milhares de egípcios que saíram às ruas contra Mubarak, o perdedor; mas muitos outros também se beneficiaram com o levante popular no Egito

STEPHEN M. WALT, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

Quando perguntaram a Zhu En-lai nos anos 70 sobre o significado histórico da Revolução Francesa, ele famosamente respondeu que ainda "era cedo demais para dizer". Com esse sábio conselho em mente, seria certamente imprudente de minha parte tentar definir os vencedores e perdedores da sublevação cujas implicações finais continuam incertas.

Mas, sob o risco de parecer tolo daqui a alguns dias (ou semanas, ou meses, ou anos), vou ignorar as armadilhas óbvias e seguir em frente.

Eis a minha lista atual de vencedores e perdedores, mais uma terceira categoria: aqueles dos quais não tenho a menor ideia.

Os vencedores:

1. Os manifestantes

Os vencedores evidentes são os milhares de egípcios comuns que ganharam as ruas para pedir a saída de Hosni Mubarak e insistir na perspectiva crível de reformas genuínas. Por essa razão, o vice designado por Mubarak, Omar Suleiman, teve de sair também. Algumas atividades dos manifestantes foram planejadas e coordenadas (e provavelmente saberemos muito mais sobre elas com o tempo), mas muitas foram a expressão espontânea de uma frustração que há muito cozinhava em fogo brando. Ao se apoiar em métodos não violentos, manter o moral e a disciplina, e insistir que Mubarak tinha de sair, o levante contra o governo foi bem-sucedido onde campanhas de protesto anteriores fracassaram. "Poder popular" com face árabe. Ah, sim: o Google fez um bom merchandising, também.

2. Al-Jazira

Com a cobertura 24 horas de causar vergonha a boa parte da mídia ocidental, a Al-Jazira sai com sua reputação fortalecida. Sua capacidade de transmitir aquelas imagens por todo o mundo árabe pode ter dado aos acontecimentos na Tunísia e no Egito uma ressonância regional muito maior. Se a Rádio Cairo foi a grande amplificadora revolucionária da era Nasser, a Al-Jazira pode ter se destacado como uma força revolucionária ainda mais potente, como um meio de comunicação que é compartilhado por públicos árabes e acessível a outros públicos de fora também. E eu aposto que isso é o que Mubarak pensa agora.

3. Reformadores democráticos de outras partes do Oriente Médio

As duas últimas semanas também viram governos autoritários de vários outros países tomarem medidas concretas para tentar desarmar revoltas potenciais e acomodar algumas reivindicações reformistas.

Ainda é cedo, claro, mas os reformadores democráticos de toda a região estão com o vento a favor. O que mostra que aqueles que apoiaram esforços não militares para encorajar formas de governo mais participativas estavam certos (e os que tentaram espalhar a democracia com a ponta do fuzil, não).

4. Os militares egípcios

Paradoxalmente, as Forças Armadas egípcias saíram da crise com seu poder político aumentado ainda mais. Os Estados Unidos agora estão apostando numa transição pacífica supervisionada pelo Exército, e as primeiras declarações das autoridades militares são tranquilizadoras. A grande questão: os militares se comprometerão com uma reforma genuína, ou tentarão salvaguardar suas próprias prerrogativas e privilégios no Egito pós-Mubarak?

5. China

Por que Pequim é um vencedor aqui? Simples. Aconteça o que acontecer posteriormente no Egito, o governo americano vai gastar um bocado de tempo e atenção tentando lidar com seu impacto local e regional. Isso é uma boa nova para China porque significa que Washington terá menos tempo para gastar tanto em suas relações com Pequim quanto em suas outras parcerias estratégicas na Ásia. Suspeito que as autoridades chinesas gostariam imensamente que os EUA permanecessem preocupados com os acontecimentos no Oriente Médio, e o levante no Egito torna isso muito mais provável. Mas essa vantagem tem um lado negativo evidente: dada suas próprias preocupações com legitimidade doméstica e estabilidade interna, a liderança do Partido Comunista Chinês não deve ficar muito feliz de ver um líder autoritário varrido do poder por uma sublevação popular, mesmo que o país em questão esteja muito distante e seja muito diferente.

Os perdedores:

1. A família Mubarak

Bem, sabichão. Não só Hosni Mubarak provavelmente não terá o tipo de legado que ele certamente achava que merecia, como seu filho Gamal está precisando urgentemente de um consultor de carreira. E existe uma possibilidade crescente de que os novos líderes do Egito possam começar a rastrear a fortuna da família Mubarak, que é estimada em algo entre US$ 2 bilhões e US$ 3 bilhões. Não vou chorar por nenhum deles, mas não pode haver dúvida de que eles são os "maiores perdedores" dos acontecimentos das três últimas semanas.

2. Al-Qaeda

Um dos pratos de resistência da Al-Qaeda é sua insistência em que a violência terrorista é a única maneira de trazer mudanças para o mundo árabe. Ela também gosta de vociferar contra o apoio americano a regimes autoritários no mundo islâmico. Ao tirar Mubarak do poder com manifestações em grande parte pacíficas, o povo egípcio demoliu a primeira alegação. E, apesar de alguns tropeços ocasionais, o governo de Barack Obama finalmente aportou no lado dos manifestantes. Ao ajudar a depor Mubarak do poder e declarar seu apoio geral ao movimento reformista, o governo Obama solapou também a segunda linha do argumento da Al-Qaeda. E, na melhor hipótese - um movimento de reforma genuinamente democrático que lidere melhorias significativas na sociedade egípcia - o apelo da Al-Qaeda será ainda mais reduzido. Tudo por tudo, esse não foi um bom mês para Osama bin Laden, onde quer que ele esteja.

3. A "Pax Americana"

no Oriente Médio

A resposta comedida do governo Obama a esses acontecimentos não pode disfarçar o fato de que um dos principais pilares das quatro últimas décadas da política de Washington para o Oriente Médio desmoronou. Apesar de alguns sinais iniciais encorajadores, ainda não está claro como um governo pós-Mubarak lidará com Israel, o cerco à Faixa de Gaza, a transferência irregular e secreta de prisioneiros para ser torturados em outros países, etc. É virtualmente garantido que um governo egípcio mais representativo será menos subserviente que o velho regime, o que significa que a diplomacia americana ante o Egito e a região terá de ser mais flexível e matizada do que vem sendo há muito tempo. Mais do que nunca, os EUA desejarão colocar a formulação de políticas para o Oriente Médio nas mãos de pessoas imaginativas, éticas, imparciais, profundamente informadas sobre as sociedades árabes, e dispostas a repensar as políticas falhas do passado. Se eu acho que o farão? Não.

4. A Irmandade Muçulmana

A despeito de toda a atenção que a Irmandade Muçulmana recebeu recentemente, acho mais provável que a saída de Mubarak acabe enfraquecendo sua posição no Egito. Ela obteve 20% dos votos nas eleições de 2005, mas esse total foi inflado pelo fato de ela ser a única alternativa real ao partido de Mubarak. Quando outros partidos políticos puderem se formar e competir por popularidade, o apoio eleitoral à Irmandade provavelmente declinará, a menos que ela possa se recondicionar para se tornar atrativa à juventude egípcia.

Ironicamente, tanto Mubarak quanto a Irmandade podem ser mais uma parte do passado do Egito que uma parte influente do seu futuro.

5. Os palestinos

No curto prazo, o levante egípcio é uma má notícia para os palestinos. Por quê? Porque outros países darão menos atenção a seu sofrimento do que geralmente dão. Israel estará ainda menos interessado no tipo de concessões que poriam fim ao conflito - embora se possa fazer um bom caso de que ele deveria agarrar a oportunidade de mapear um novo curso - e os EUA estarão ainda menos propensos a exercer uma pressão real sobre ele para que o faça.

Mas, no longo prazo, a saída de Mubarak pode ser benéfica, em especial se o novo governo adotar uma posição mais ativa contra a ocupação. E se a Autoridade Palestina usar o exemplo egípcio como uma ocasião para se reconciliar com o Hamas e realizar novas eleições, poderíamos até ver surgir um movimento nacional palestino mais legítimo. Mas não se entusiasmem demais.

Cedo demais para dizer:

1. Autoritários árabes

Se eu fosse um monarca ou ditador árabe como Bashar Assad da Síria, eu certamente não estaria contente com o que andei vendo no Cairo. No curto prazo, porém, seus futuros dependem tanto de como as coisas vão evoluir no Egito quanto da maneira como os autoritários restantes responderão aos exemplos tunisiano e egípcio. Se as condições no Egito se deteriorarem ou se a revolução ficar refém de forças extremistas incompetentes, corruptas ou extremistas, então outras populações árabes poderão ficar menos inclinadas a seguir o mesmo caminho. E o resto depende da habilidade dos atuais governantes para aplacar, defletir ou se adaptar a um novo ambiente. Não se pode chamá-los de vencedores, é claro, mas ainda não está certo quanto eles podem ter perdido.

2. Israel

Não surpreende que muitos israelenses estejam alarmados com a saída de Mubarak, porque este colaborou com eles em algumas questões e nunca fez mais do que resmungar verbalmente sobre a questão palestina. Mas, como observei na semana passada, sua deposição também poderia ser um toque de despertar: lembrando israelenses de que o ambiente regional está sutilmente se virando contra eles, que a superioridade militar não é garantia contra a agitação civil e a vergonha global, e um acordo justo com os palestinos é a melhor maneira de assegurar seu futuro no longo prazo. E como observa Kai Bird aqui, pode ser mesmo uma genuína oportunidade. Em suma, se Israel vai ganhar ou perder com esse episódio vai depender em parte de como resolverá reagir a ele.

3. O presidente Barack Obama

O governo americano andou na corda bamba nas últimas duas semanas - nem sempre com muita perícia - tentando um resultado nem "quente demais" (violência generalizada, extremistas no poder, etc.), nem "fria demais" (estabilidade sem reforma). Como observei anteriormente, se esses extremos forem evitados, Obama e sua equipe merecerão (e provavelmente receberão) respeito dos observadores imparciais, e sua atitude de política externa "sem drama" receberá um muito necessário reconhecimento. Mas se esse resultado "apenas correto" não se sustentar, ele enfrentará uma barragem de críticas seja por "perder o Egito", seja por fazer ouvidos surdos aos apelos por justiça e democracia. Essas acusações não serão inteiramente justas, na medida em que nenhum presidente pode controlar os fatos num país distante de 85 milhões de habitantes. Mas quem disse que o discurso político nos EUA é justo?

Esta é, portanto, a minha lista. Mas aí vai o reparo óbvio: estamos nos primeiros estágios desse processo e os assuntos internacionais gostam de produzir inversões súbitas e inesperadas da sorte. Alguns dos vencedores de hoje poderão parecer perdedores amanhã, e vice-versa. E isso vale para blogueiros também. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É PROFESSOR DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS NA ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA JOHN F. KENNEDY DA UNIVERSIDADE HARVARD E EDITOR ASSISTENTE DE FOREIGN POLICY. ELE É O AUTOR DE "TAMING AMERICAN POWER: THE GLOBAL RESPONSE TO U. S. PRIMACY" E COAUTOR COM JOHN J. MEARSHEIMER, DE "THE ISRAEL LOBBY". ELE MANTÉM O BLOG WALT.FOREIGNPOLICY.COM.

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