Angela Weiss e Win McNamee via AFP
Angela Weiss e Win McNamee via AFP

Ganhando ou perdendo, Partido Democrata e Republicano vão mergulhar em incertezas

Partidos fizeram da campanha de 2020 um referendo sobre Trump e parecem destinados a um deserto ideológico à medida que cada um tenta definir suas identidades e prioridades

Lisa Lerer, The New York Times, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2020 | 12h06

PLANO, TEXAS - Lutando por sobrevivência política em campanha na semana passada, o senador John Cornyn alertava uma pequena multidão de apoiadores que o domínio de longa data de seu partido no Texas, historicamente um Estado republicano, estava em risco. Mas se o republicano de três mandatos demonizou os democratas, não perdeu muito tempo falando sobre a alternativa: o presidente Donald Trump, o homem no topo de sua chapa na terça.

Questionado sobre se Trump, o homem que redefiniu o republicanismo, era um trunfo para ajudá-lo na reeleição, o senador de repente ficou sem palavras. "Absolutamente", afirmou ele, com o rosto impassível. O gentil distanciamento de Cornyn de Trump prenuncia uma batalha muito menos refinada por vir.

A eleição deste ano mergulhará republicanos e democratas em um período de desordem, não importa quem ganhe. Com moderados e progressistas preparados para lutar uns contra os outros à esquerda e uma série de forças procurando traçar um futuro pós-Trump à direita (seja em 2021 ou em 2025), ambos os partidos parecem destinados a um deserto ideológico à medida que cada um tenta definir suas identidades e prioridades.

Questões sem solução

As questões são amplas e permanecem sem solução, apesar de mais de um ano de uma campanha presidencial tumultuada. Depois que os democratas lançaram seus olhos para trás várias gerações em busca de um candidato mais moderado, uma ala liberal em ascensão representa o futuro?

E o que acontece com um Partido Republicano redefinido pela abordagem populista do presidente, e políticos como Cornyn, que estiveram à sombra de Trump por quatro anos? Normalmente, as eleições presidenciais fornecem clareza sobre como um partido vê seu futuro político.

Quando Barack Obama ganhou a Casa Branca em 2008, ele revigorou uma imagem pública progressista de seu partido cada vez mais diversificado. Oito anos antes, George W. Bush refez o republicanismo com uma mensagem de "conservadorismo compassivo".

Hoje, com os dois candidatos presidenciais contentes em fazer da corrida um referendo sobre Trump, as questões sobre ele obscureceram os debates em curso dentro de ambos os partidos sobre como governar um país em meio a uma crise nacional.

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“Os lados se contentaram em fazer esta eleição sobre uma personalidade”, disse Brad Todd, estrategista republicano e autor de um livro sobre a coalizão populista conservadora que alimentou a vitória de Trump em 2016. “Portanto, não tivemos muito de luz sobre o realinhamento ideológico ocorrido no país”.

Se Biden vencer, os democratas progressistas estão se preparando para romper sua trégua na temporada de eleições, fazendo planos para pressionar os liberais em cargos importantes do governo, incluindo a senadora Elizabeth Warren, de Massachusetts, como secretária do Tesouro. Se perder, os progressistas argumentarão que ele falhou em abraçar uma plataforma liberal o suficiente.

Republicanos ambiciosos, como a ex-embaixadora das Nações Unidas Nikki R. Haley, o secretário de Estado Mike Pompeo e o senador Tom Cotton, de Arkansas, começaram a aparecer em eventos que dizem ser em nome dos candidatos do partido ao Senado, mas têm tons de campanha.

“O partido está caminhando para um acerto de contas, aconteça o que acontecer em novembro, porque você ainda tem grandes segmentos do establishment do partido que não estão de forma alguma reconciliados com a vitória do presidente em 2016”, disse o senador Josh Hawley, republicano de Montana, freqüentemente mencionado como um possível candidato a 2024. “Essas pessoas ainda são muito poderosas no Partido Republicano e teremos uma verdadeira luta pelo futuro.”

O ex-senador Jeff Flake, republicano do Arizona, disse esperar que Trump perca e quer que a derrota redirecione o partido da “raiva e ressentimento” para uma mensagem inclusiva que poderia vencer em um país diverso. “Nada concentra mais a mente do que uma grande derrota eleitoral”, disse Flake, um dos muitos republicanos que se aposentaram em 2018 e que endossou Biden para presidente. “O trumpismo é um beco sem saída demográfico”.

Sara Fagen, que era a diretora política da Casa Branca para Bush, concordou: "O trumpismo está cimentado. A base do partido mudou. Suas prioridades são diferentes de onde os Romneys e Bushes teriam levado o país", afirmou. “Se o partido quer ter futuro, tem que se tornar o partido dos trabalhadores. 

 

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