Alex Edelman/AFP
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Ganhando ou perdendo, Trump continuará sendo uma força poderosa e perturbadora

Ele deixou claro que não vai sair de cena, mesmo se for derrotado

Peter Baker e Maggie Haberman, The New York Times

05 de novembro de 2020 | 15h28

WASHINGTON - Se o presidente Donald Trump perder a candidatura à reeleição, como parecia cada vez mais provável nesta quarta-feira, 4, será a primeira derrota de um presidente em exercício nos últimos 28 anos. Mas uma coisa parece certa: ganhando ou perdendo, ele não irá desaparecer assim tão fácil.

Atrás do ex-vice-presidente Joe Biden na apuração, Trump passou o dia tentando desacreditar a eleição com alegações de fraude inventadas, na esperança de manter o poder ou justificar a derrota. Ele ainda tem um caminho estreito para a reeleição nos estados que continuam contando votos, mas já deixou claro que não vai recuar caso perca.

Ele tem, no mínimo, 76 dias restantes no cargo para usar seu poder como julgar necessário e buscar vingança contra aqueles que imagina que são seus adversários. Furioso com a derrota, pode vir a demitir ou afastar uma variedade de altos funcionários que não conseguiram realizar seus desejos, entre eles Christopher Wray, diretor do FBI, e Anthony Fauci, o principal especialista em doenças infecciosas do governo no meio de uma pandemia.

E, se for obrigado a desocupar a Casa Branca em 20 de janeiro, Trump provavelmente se mostrará mais resistente do que o esperado e quase certamente continuará sendo uma força poderosa e perturbadora na vida americana. Ele recebeu pelo menos 68 milhões de votos – 5 milhões a mais do que em 2016 – e levou cerca de 48% do voto popular, o que significa que manteve o apoio de quase metade da população, apesar de quatro anos de escândalo, contratempos, impeachment e um surto brutal de coronavírus que matou mais de 233 mil americanos.

Isto lhe dá uma base de poder para desempenhar um papel que outros presidentes que foram derrotados depois de um único mandato, como Jimmy Carter e George Bush, não desempenharam. Há muito tempo, Trump brinca com a ideia de fundar sua própria rede de televisão para competir com a Fox News e ultimamente ventilou, em particular, a possibilidade de concorrer de novo em 2024, mesmo que então já venha a contar 78 anos de idade. Embora seus dias de candidato tenham acabado, seus 88 milhões de seguidores no Twitter lhe dão um megafone para ser uma voz influente na direita, fazendo dele um potencial criador de reis entre os republicanos em ascensão.

“Se algo ficou claro nos resultados das eleições é que o presidente tem muitos seguidores e não vai descer do palco tão cedo”, disse o ex-senador Jeff Flake, do Arizona, um dos poucos governantes republicanos que rompeu com Trump nos últimos quatro anos.

Trump ainda pode conseguir um segundo mandato e mais quatro anos para tentar reconstruir a economia e remodelar o Partido Republicano à sua imagem. Mas, mesmo fora do cargo, ele poderá pressionar os senadores republicanos que mantiveram a maioria a resistir a cada passo de Biden, forçando-os a escolher entre a conciliação ou a fúria de sua base política.

As pesquisas mostraram que, independentemente de importantes desertores republicanos, como o senador Mitt Romney, de Utah, e os anti-Trump do Lincoln Project, Trump teve forte apoio dentro de seu próprio partido, conquistando 93% dos eleitores republicanos. Ele também se saiu um pouco melhor com os eleitores negros (12%) e hispânicos (32%) do que há quatro anos, apesar de sua retórica racista. E, depois de sua blitz de comícios em estados-pêndulo, os eleitores que decidiram de última hora acabaram pendendo para o seu lado.

Alguns dos argumentos de Trump tiveram um peso considerável entre os membros de seu partido. Apesar da pandemia de coronavírus e do consequente impacto econômico, 41% dos eleitores disseram que estavam vivendo melhor do que no começo de seu mandato, em comparação com apenas 20% que afirmaram estar em situação pior. Concordando com as prioridades do presidente, 35% dos eleitores apontaram a economia como a questão mais importante, o dobro dos que mencionaram a pandemia. E 49% disseram que a economia estava boa ou excelente, e 48% aprovaram o combate do governo ao vírus.

“Se for derrotado, o presidente continuará contando com a lealdade eterna dos eleitores do partido e dos novos eleitores que ele trouxe para o partido”, disse Sam Nunberg, que foi estrategista da campanha de Trump em 2016. “O presidente Trump continuará sendo um herói para o eleitorado republicano. O vencedor das primárias presidenciais republicanas de 2024 será o presidente Trump, ou o candidato que mais se assemelhe com ele”.

Nem todos os republicanos compartilham dessa opinião. Ainda que Trump continue a esbravejar e se impor no palco público, eles disseram que o partido ficará feliz em tentar deixá-lo para trás, caso ele perca. Ele seria lembrado apenas como uma aberração.

“Nunca haverá outro Trump”, disse o ex-deputado Carlos Curbelo, da Flórida. “Os imitadores vão fracassar. Ele vai sumir aos poucos, mas as cicatrizes deste período tumultuado da história americana nunca irão desaparecer”.

Na verdade, Trump fracassou em reproduzir seu sucesso de 2016, quando garantiu a vitória no colégio eleitoral, mesmo perdendo no voto popular para Hillary Clinton. Apesar de todas as ferramentas do cargo, ele não conseguiu tomar um único estado em que não venceu da última vez e, na quarta-feira, havia perdido outros dois ou três, com alguns ainda em suspenso.

Para Trump, que sempre quer “vencer, vencer, vencer” mais do que qualquer coisa, ser tachado de perdedor seria intolerável. No dia da eleição, durante uma visita ao quartel-general de sua campanha, ele fez uma reflexão em voz alta sobre esse tema. “Ganhar é fácil”, disse ele a repórteres e assessores. “Perder nunca é fácil. Para mim não é”.

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Para evitar esse destino, na quarta-feira o presidente tentou convencer os apoiadores de que a eleição estava sendo roubada, simplesmente porque as autoridades estaduais e locais estavam contando os votos postados legalmente. Para ele, o fato de não ser verdade pouco importava, evidentemente. Ele estava montando uma narrativa para justificar as contestações legais que até mesmo os advogados republicanos consideravam infundadas e, caso estas falhassem, para se apresentar como um mártir que não foi repudiado pelos eleitores, mas sim roubado por forças nefastas e invisíveis.

O próprio Trump tem uma longa história do outro lado das alegações de fraude. Sua irmã afirmou que ele contratara outra pessoa para fazer os exames para entrar na universidade. As filhas de um médico do Queens, em Nova York, afirmaram que seu falecido pai dera a Trump um diagnóstico de esporas ósseas para protegê-lo do recrutamento para a Guerra do Vietnã, um favor a Fred Trump, seu pai. E seus negócios frequentemente o enredam em acusações e processos judiciais.

Ele tem sido um símbolo de ambição e riqueza para milhões de pessoas. Foi a estrela de um popular programa de televisão por 14 temporadas, um programa que o apresentou ao país muito antes de ele se candidatar. E, quando se candidatou, seus comícios turbulentos uniram apoiadores de uma maneira que ressaltou o quanto ele é um fenômeno cultural.

Por meses, à medida que suas chances de ser reeleito diminuíam, Trump disse aos conselheiros – às vezes brincando, às vezes não – que, se ele perdesse, iria anunciar de imediato que concorreria mais uma vez em 2024. Dois conselheiros disseram acreditar que ele fará esse anúncio caso suas contestações jurídicas sejam derrubadas, um movimento que pelo menos permitiria que ele levantasse dinheiro para financiar os comícios que o sustentam.

Quando parecia que ele iria perder sua campanha de 2016, ele e alguns membros de sua família conversaram sobre fundar um veículo de mídia, vagamente imaginado como a “Trump TV”. Algumas dessas conversas continuaram neste ano, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto.

“Não há dúvida de que ele é uma das maiores figuras políticas polarizadoras da história moderna”, disse Tony Fabrizio, um dos pesquisadores de Trump. “Seus partidários o adoram e seus oponentes o odeiam. Não há meio-termo com Donald Trump”. / Tradução de Renato Prelorentzou

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