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Ganhos e perdas da visita de Bolsonaro aos Estados Unidos

A visita de Bolsonaro rendeu decisões importantes, mas nunca um presidente tentou tanto agradar à Casa Branca

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2019 | 05h00

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Nem a versão de que nunca antes neste País uma viagem do presidente brasileiro aos Estados Unidos teve tantos resultados maravilhosos, nem a crítica de que a primeira visita bilateral do presidente Jair Bolsonaro foi um fiasco marcado por um entreguismo humilhante.

Objetivamente, a visita a Donald Trump rendeu decisões importantes no médio e longo prazos e o que chocou foi o excesso de ideologia e o esforço inédito do presidente brasileiro em agradar ao americano, afinando o discurso em praticamente todas as áreas. 

Bolsonaro levou anúncios e apoios concretos, mas trouxe de volta alguns acordos fechados e acenos a serem materializados.

Ele dispensou americanos (além de canadenses, australianos e japoneses) de vistos, sem contrapartida, e apoiou o muro entre os EUA e o México, que equivale a um muro entre a potência EUA e uma América Latina incômoda. De que lado desse muro o Brasil está? Não é mais latino-americano?

Também na linha de agradar a Donald Trump, Bolsonaro foi para cima dos imigrantes ilegais brasileiros nos EUA. A maioria deles, acusou, “tem más intenções”. Pegou tão mal que Bolsonaro teve de pedir desculpas em público e o Planalto mandou retirar e depois “editar” a entrevista no site oficial.

O pior, porém, foi Bolsonaro apoiar a reeleição de Trump em 2020. Nada poderia ser tão antidiplomático, tão surpreendente. E se Trump não disputar? E se sofrer impeachment? E se perder para os democratas? A posição do presidente brasileiro configura ingerência em assuntos internos e pode custar caro ao Brasil mais adiante.

Curioso fazer o cruzamento entre as manifestações do presidente e do seu filho, deputado Eduardo Bolsonaro. Foi ele, Eduardo, quem primeiro meteu na cabeça um boné com a inscrição “Trump 2020” e disse que os pobres imigrantes brasileiros – que, aliás, votaram em massa em Bolsonaro – são “uma vergonha”. E também foi Eduardo quem declarou que “o Brasil” apoia a decisão (ou obsessão) de Trump de construir um muro entre o seu país e o México. Que “Brasil”, cara pálida? 

Se Eduardo Bolsonaro brilhou, ofuscou o chanceler Ernesto Araújo e deixou o Itamaraty de lado, a filha e o genro de Trump, Ivanka e Jared Kushner, assim como o secretário de Estado, Mike Pompeo, não deram o ar da presença. Se a visita de Bolsonaro era tão importante, como eles sumiram e o secretário de Estado viajou?

A ausência de Pompeo foi pretexto para excluir Araújo da reunião de Trump e Bolsonaro no Salão Oval, da qual só Eduardo participou. Nesse tipo de reunião, participam pelo menos chanceleres, ministros da Economia, embaixador em Washington, subsecretário para o Hemisfério Ocidental, tomadores de notas. Virou um tête-à-tête, com Eduardo de quebra.

Bolsonaro também ajustou o tom brasileiro sobre a Venezuela ao gosto de Trump. Enquanto generais e diplomatas brasileiros são veementes ao dizer “não” para uma ação militar, Bolsonaro foi vago, falou que discussões secretas não são reveladas e, mais tarde, acrescentou: “diplomacia em primeiro lugar, até as últimas consequências”. Ficou claro que a possibilidade, por mais absurda, está “on the table”.

Bolsonaro tem de enfrentar uma negociação duríssima para obter o maior troféu da viagem: o aval dos EUA para entrar na OCDE. Trump condicionou o apoio à decisão do Brasil de abrir mão dos privilégios que a OMC concede a países emergentes. Ou seja: o Brasil vai ter de renunciar à condição de emergente e se arvorar desenvolvido.

A única coisa que não pode acontecer é o Brasil abdicar já da condição preferencial da OMC e ficar esperando dois ou três anos para entrar, se entrar, na OCDE. As duas medidas têm de ser, no mínimo, simultâneas. Quanto ao reconhecimento do Brasil como aliado extra-Otan dos EUA, é basicamente um título honorífico. A Argentina já o ostenta desde 1998. E daí?

Bem, o acordo de salvaguardas para o uso comercial da Base de Alcântara (MA), negociado por 20 anos, é um bom negócio para ambos. Uma enorme economia para eles, como admitiu Trump. Uma janela de oportunidades para nós, como todos reconhecem. E houve acordos importantes nas áreas de energia, defesa e segurança, além de promessas de abertura comercial e conversas sobre agricultura.

Logo, foi bom, como sempre foi bom. FHC trouxe US$ 40 bilhões do FMI para enfrentar a crise do Brasil do início dos anos 2000. Lula acertou uma grande reestruturação das relações bilaterais, com impacto muito positivo para o Brasil. A diferença é que nunca antes neste País o presidente se esforçou tanto para dizer amém a tudo que Washington quer.

A viagem seguinte do presidente foi ao Chile, onde os países da América do Sul descartaram a Unasul e começaram a construir o Prosul. A Unasul foi uma ideia megalomaníaca do venezuelano Hugo Chávez, até com banco e agência de notícias comuns, na era do “bolivarianismo”. Chávez morreu, a Venezuela afundou e houve a forte guinada da esquerda para a direita na região. O Prosul reflete isso. Trata-se de um fórum de debates e de desenvolvimento com nítido carimbo liberal.

A próxima parada de Bolsonaro é Israel, um dos focos da política externa brasileira na “nova era”. Há um problema de oportunidade, já que o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, aliado de Bolsonaro, foi indiciado por corrupção. Mas, antes mesmo da viagem, o Brasil já revê sua posição histórica na ONU e votou ontem, em Genebra, contra uma resolução que pede o fim da ocupação israelense nas Colinas do Golan, a libertação de sírios presos em complexos israelenses e condena violações de direitos humanos. O Brasil, portanto, votou do jeitinho que Trump gosta.

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