Shannon Stapleton/Reuters
Shannon Stapleton/Reuters

Garcia atribui crimes a novo governo líbio e pede cautela com Síria

Assessor de Dilma diz que ações da Otan na Líbia justificam hesitação em relação a Damasco

Jamil Chade, enviado especial

05 de outubro de 2011 | 21h23

SÓFIA - Embora tenha votado em favor da admissão do novo governo líbio na ONU, o Brasil não dá por encerrada a crise no país, alerta para as divisões do Conselho Nacional de Transição (CNT) e diz ter informações de que a cúpula do grupo que tomou o poder em Trípoli também ordenou a execução de membros do regime de Muamar Kadafi.

 

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Em declarações ao Estado, o assessor especial do Palácio do Planalto para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, afirmou que o governo brasileiro vê a situação ainda com muita desconfiança. "A situação não está resolvida ainda e pode ser muito perigosa", disse. Garcia lembrou que os combatentes do CNT ainda não tomaram Sirte, reduto de Kadafi, e não há um cenário claro sobre o futuro da Líbia.

 

Para o Brasil, a situação líbia justifica a cautela em relação à atuação da diplomacia no caso da Síria. Na terça-feira, o País absteve-se mais uma vez no Conselho de Segurança da ONU na votação de uma resolução - enfim, vetada por Rússia e China - que condenava Damasco pela brutal repressão a manifestantes de oposição ao líder Bashar Assad.

 

A justificativa oficial de Brasília é a de que a Resolução 1.973, que autorizou a Otan a intervir militarmente para proteger civis da fúria de Kadafi, foi interpretada de forma abusiva pela aliança atlântica, que apoiou com ataques aéreos a insurgência na Líbia. O temor é que o roteiro se repita na Síria. "A situação (sobre a resolução para a Síria) é muito, muito complicada", disse. "Mas já está encerrada. Rússia e China agiram de forma bastante firme. A China havia anos não tomava uma posição de veto."

 

Fontes diplomáticas indicaram ao Estado que a ordem direta da presidente Dilma Rousseff para que a missão brasileira na ONU, em Nova York, não votasse a favor da resolução sobre a Síria chegou a causar mal-estar em alguns setores do Itamaraty. Os diplomatas brasileiros, de acordo com essas fontes, já tinham aceitado votar a favor de um texto que era até mais duro do que a versão final apresentada para votação.

 

Reconhecimento tardio

 

A tomada da capital líbia, Trípoli, pelos então rebeldes, quase um mês atrás, fez a comunidade internacional apressar o reconhecimento do Conselho Nacional de Transição como o governo legítimo do país.

 

Chefes de governo e Estado da Europa viajaram até a cidade para mostrar que Muamar Kadafi já não mais controlava a Líbia e Nicolas Sarkozy, presidente da França, reuniu em Paris governos de todo o mundo para dar por encerrada a crise.

 

O governo brasileiro também ensaiou uma aproximação com o CNT. Mas, segundo Garcia, a posição brasileira é ainda de cautela. Além da indefinição sobre o controle do país, outro tema que preocupa o Palácio do Planalto é a divisão interna do grupo que controla o CNT. "As divisões são importantes", alertou o assessor internacional, que acompanhou a presidente Dilma durante visita à Bulgária.

 

Crimes

 

Garcia acrescenta que o governo brasileiro recebeu informações de que parte da cúpula das forças anti-Kadafi esteve envolvida diretamente em ordens para massacrar pessoas ligadas ao regime do ditador foragido. No auge da guerra, relatórios produzidos na Europa e pelo próprio CNT apontaram crimes cometidos pelas forças leais a Kadafi. O Tribunal Penal Internacional até já indiciou Kadafi, seu filho e um membro da cúpula do governo por ordenar as matanças.

 

Segundo Garcia, porém, as informações que chegaram à diplomacia brasileira são de que os crimes não se limitaram às forças kadafistas. Parte da decisão de assassinar rivais capturados teria sido de integrantes da cúpula do CNT.

 

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