Franklin Oliveira
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Garçom escalado para atender Bolsonaro em Miami chama Lula de 'crush'

Franklin Oliveira disse que o importante é tratar a todos com respeito, apesar de sua “ideologia não ser a mesma”

Beatriz Bulla, enviada especial, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2020 | 17h32

MIAMI - Franklin Oliveira soube há duas semanas que a churrascaria onde trabalha como garçom em Miami receberia uma “festa” para 40 pessoas, mas só hoje foi informado sobre quem seria a estrela do encontro: o presidente Jair Bolsonaro. No segundo andar do Brazilian Steak House, Oliveira se viu frente a frente ao político por quem fez campanha contrária nas eleições de 2018. “Fiz campanha nas redes sociais pelo Ciro Gomes. No segundo turno, pelo Fernando Haddad. "Mas da porta para dentro sou o CNPJ e da porta para fora, o Social Security Number (número de identificação pessoal nos EUA semelhante a CPF)”, contou o carioca a um grupo de jornalistas.

A gerência do restaurante sabe de sua preferência política, mas o escolheu para receber o presidente por sua eloquência — todas as informações segundo o próprio garçom. Coube a Oliveira fazer a recepção inicial dos convidados, coordenar bebidas e sobremesas e, ao final, aproveitou para fazer uma foto com o presidente. 

Os espetos de carne não chegavam a Bolsonaro pelas mãos de Oliveira, no entanto. A chefia preferiu designar dois funcionários com admiração declarada pelo presidente para a função. Já uma colega quem o garçom define como de ideologia de “extrema esquerda” chorou ao saber que Bolsonaro era o convidado do dia e pediu para não atender a mesa do presidente. A gerência da Casa liberou a funcionária.

Ao falar sobre o tratamento dispensado a Bolsonaro, Franklin Oliveira disse que o importante é tratar a todos com respeito, apesar de sua “ideologia não ser a mesma”. “Posso atender Trump ou Dilma ou Lula, que vou atender da mesma forma, é aqui que eu ganho meu pão. Todos têm que ser tratados com educação. Temos que tratar o outro com o mesmo respeito que queremos”, afirma.

Após dar as boas-vindas a Bolsonaro e à comitiva presidencial, disse ter ouvido o presidente falar sobre “os mesmos temas de sempre”, que ele resumiu como “falar mal do Leonardo Di Caprio, falar sobre a Amazônia e criticar o comunismo”. Enquanto isso, tirou os pedidos de Coca-Cola para o presidente, água com gás para a primeira dama, Michelle Bolsonaro, e uma taça de vinho tinto Malbec para o general Augusto Heleno - quem sugeriu que poderia pagar à parte a bebida alcoólica, não inclusa no pacote inicial do almoço. 

Em Miami, Franklin Oliveira é minoria: mais de 90% dos brasileiros na cidade votaram em Bolsonaro no segundo turno da eleição de 2018. Oliveira é também escritor e tem 215 mil seguidores na sua página no Facebook, chamada “Romancista Iludido”, mas disse que perdeu parte do público durante a campanha eleitoral. 

No Brasil, ele se formou em pedagogia pela Faculdade Estácio de Sá, uma conquista que computa ao governo Lula pelo apoio do Fies, reformulado na gestão do petista. Ao falar do ex-presidente, ele faz um coração com as mãos e diz que Lula é seu “crush”. “Quando ele foi solto, eu soltei fogos, ele me deu oportunidade de educação. Se estou nos EUA é graças ao Lula”, diz. Após a faculdade, trabalhou como bancário do Itaú até se mudar para Miami, há quatro anos.

Quando foi questionado pelos chefes se aceitaria recepcionar o presidente, Oliveira disse ter respondido: “por mim, tranquilo, atenderia até o FHC, que é a pessoa que eu mais tenho ranço na minha vida”. “E imagina que há cinco meses atendi a Damares”, diz ele, enquanto faz críticas ao governo Bolsonaro.  

O pedagogo, escritor e garçom crítica à polarização no Brasil e disse, por isso, ter preferido Ciro. Na sua casa, viu um ex-petista mudar de voto e apoiar Bolsonaro: “meu irmão brigava na rua pelo Lula e virou ‘bolsominion’ porque virou empresário”, diz o brasileiro. 

O almoço na Brazilian Steak House, uma churrascaria em rua comercial do centro de Miami que tem rodízio de carne por US$ 20 dólares, foi organizado pelo consulado brasileiro na cidade, segundo o garçom. “O cônsul vem sempre aqui”, disse ele. 

Bolsonaro teve que descer do segundo andar para se servir na mesa de saladas. Alguns clientes do restaurante, então, iniciaram os gritos “mito”. “Mas começou e já morreu”, contou o garçom sobre a exaltação ao presidente. 

O presidente foi recebido por lideranças evangélicas, encontrou personalidades como o empresário Emerson Fitippaldi e, na saída, foi saudado por alguns brasileiros que o aguardavam na porta, sem falar com a imprensa que o aguardava do lado de fora do restaurante. 

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