FEDERICO PARRA/AFP
FEDERICO PARRA/AFP

'Garimpeiros' do Rio Guaire vivem do esgoto de Caracas

Grupos de jovens procuram entre a sujeira do rio joias perdidas para vender e comprar comida

O Estado de S.Paulo

13 Março 2018 | 17h44

CARACAS -  O Rio Guaire, destino do esgoto de Caracas, recebe diariamente dezenas de jovens em busca de joias perdidas para vender. Conseguir ouro é o sonho, mas um pedaço de fio de cobre já ajuda a reduzir a fome.

Bryan, de 23 anos, se emociona ao resgatar das águas negras um brinco dourado. 

Grupos de jovens como ele e até mesmo crianças se concentram desde cedo em diferentes pontos do rio sujo que cruza a capital venezuelana, com a esperança de ter um golpe de sorte. 

"Você tenta sobreviver. A situação está difícil", diz Bryan à AFP nas margens do Guaire, mostrando orgulhoso o que espera que seja uma joia.

Mergulhados até a coxa, sem proteção, os "mineiros", como se autodenominam, colocam as mãos na água e esquadrinham até o entardecer entre os resíduos arrastados pelo rio.

Muitos carregam no pescoço um frasco de plástico, onde guardam as peças que pescam.

Um anel de ouro de cinco gramas foi a melhor descoberta de Bryan em seis meses de imersões, mais rentáveis que seus empregos como padeiro e pedreiro.

+ FMI estima contração de 15% da economia venezuelana e inflação de 13.000%

Por uma peça como essa, conta, joalheiros e sucateiros pagam ao menos sete milhões de bolívares, US$ 30 no mercado negro. A renda mínima legal é de cerca de US$ 6,5 por mês nesse câmbio, que marca vários setores da economia.

Mas eles podem passar semanas sem encontrar algo de valor. 

"Às vezes paro de comer para dar comida a minha filha de 3 anos", conta. A alguns metros de distância, urubus se alimentam entre montanhas de lixo flutuante.

"Você se torna imune". A possibilidade de infecções é uma ameaça. Bryan levanta suas mãos sujas e mostra uma pequena ferida no dedo, causada por um prego.

A primeira vez que entrou no rio, ficou doente. "Passei três dias na cama, com febre. Depois você se torna imune ao Guaire", relata.

Ele deixou de trabalhar como padeiro e ajudante de construção ao ver como seu salário evaporava por uma hiperinflação que o FMI projeta em 13.000% para este ano.

Segundo a ONG Cenda, que monitora o custo de vida, são necessários 20 salários mínimos para cobrir a cesta básica, difícil de completar, além disso, pela grave escassez de alimentos básicos e remédios.

A renda mínima (salário mais um vale-alimentação) permite comprar no máximo três quilos de carne de vaca. A pobreza afeta cada vez mais pessoas.

À medida que as condições socioeconômicas se deterioram, os "mineiros" proliferam no Guaire e em outras correntes de águas residuais de Caracas. 

A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) situava em 32,6% a pobreza e em 9,5% a pobreza extrema na Venezuela em 2014. Não cita estatísticas oficiais desde então, mas uma nova queda do PIB de 16,5% em 2017, segundo o FMI, faz temer uma situação pior. 

Segundo um estudo das principais universidades do país, a pobreza extrema escalou para 61,2% em 2017, enquanto o governo a estima em 4,4%.

Antonio, de 19 anos, diz que foi um dos primeiros "mineiros" a se lançar no canal, há três anos, e "cada vez mais há gente" tentando a sorte dessa forma. 

Ele denuncia que com frequência grupos de "mineiros" são detidos por militares da Guarda Nacional, transportados em veículos para controle da ordem pública e liberados horas depois. "Nos extorquem. Avaliam o que levamos e tiram de nós", assegura. 

Quando chegam as chuvas, o rio cresce - chegando a transbordar em alguns casos - e torna a busca impossível. Em uma cheia súbita, "um colega foi levado pelo rio, e não voltamos a vê-lo", conta Antonio. / AFP

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.