Garota se reconhece em foto histórica

Personagem de imagem que se tornou ícone do fim da guerra entra em contato com fotógrafo

ROLAND DE COURSON / AFP, O Estado de S.Paulo

29 Maio 2013 | 02h02

Era 14 de junho de 1999. Após anos de choques sangrentos entre guerrilheiros albaneses e o Exército sérvio e dois meses de pesados bombardeios da Otan, a guerra em Kosovo terminava. Tropas da coalizão internacional entraram na província separatista e havia festa nas ruas da capital, Pristina. O fotógrafo da AFP Jean-Philippe Ksiazek registrou o momento em que um albanês de Kosovo ergueu a filhinha e a colocou em cima de um tanque britânico.

Quatorze anos se passaram. O fotógrafo, que cobriu conflitos por todo o globo, tinha quase esquecido a imagem. Um dia, porém, chega em sua caixa de e-mail uma mensagem de uma certa Egzona Jashanica.

"Prezado sr. Ksiazek", escreveu a jovem de Pristina. "Quando tirou esta foto minha, eu tinha apenas 7 anos, mas me lembro do momento como se fosse hoje."

"No dia da foto, eu tinha acabado de chegar a Pristina com os soldados britânicos", recorda Ksiazek. "Precisamos de três dias para alcançar a capital saindo da fronteira da Macedônia, pois todas as estradas estavam minadas. Albaneses forravam as ruas para saudar as tropas. Ao chegarmos à capital, paramos no começo da tarde numa pracinha onde a multidão começou a subir nos tanques."

"Não me lembro do momento exato da foto e não falei com a menininha. Nossas vidas só se tocaram naquele momento fugaz. Os problemas de Kosovo ainda estavam longe de terminar. Mais tarde, houve muitos acertos e a descobertas de sepulturas coletivas. Mas aquele dia foi de uma grande alegria em Pristina."

Hoje, Egzona estuda Economia e Administração na Universidade Americana de Kosovo. "Durante meses, eu não tinha permissão de sair da casa porque meus pais estava preocupados com soldados sérvios e bombardeios. Nós vivíamos escondidos no campo, com parentes. Em Pristina, pudemos andar por toda parte sem medo. Com meu pai, minha irmã mais velha e meu tio, fomos saudar os soldados nas ruas. Meu pai me pegou nos braços, me ergueu e me colocou em cima do tanque. Foi realmente o dia mais feliz da minha infância." "Vi fotógrafos registrando a cena e sabia que alguém havia captado aquele momento", diz ela. "Por muito tempo, fiz o que pude para descobrir aquela imagem, mas não consegui. Vasculhei jornais e revistas da época, sem sorte. Aí, algumas semanas atrás, olhando fotos da guerra de Kosovo que alguém tinha postado no Facebook, tropecei no que estava procurando. O nome do fotógrafo não era mencionado, mas eu o descobri com uma busca no Google Image.

"Quando vi a foto pela primeira vez, caí no choro", diz Egzona. "Chamei minha irmã que, antes de ver a foto, não conseguia compreender por que eu estava naquele estado. Foi uma sensação incrível."

Não foi a primeira vez que alguém fotografado pela AFP se reconhece anos depois numa foto. No final de 2012, um bósnio fotografado quando jovem durante o sítio de Sarajevo, ficou admirado ao se ver numa foto exibida num documentário online sobre o 20.º aniversário do mortífero cerco. Ele depois contatou o fotógrafo Patrick Baz.

"É uma sensação estranha", diz Ksiazek. "Em nossa linha de trabalho, conhecemos pessoas em todo lugar onde vamos, todos os dias. Elas nos proporcionam lembranças incríveis, mas a roda do tempo continua girando. Receber um e-mail como o de Egzona é um pouco como se a roda tivesse parado e, por um momento, girado para trás." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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