WANA (West Asia News Agency) via REUTERS
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Garotas afegãs enfrentam dura realidade nas escolas sob o Taleban

Novo governo deixou claro que pretende limitar muito as liberdades de acesso ao ensino que muitas mulheres e garotas desfrutaram nos 20 anos mais recentes

Victor J. Blue and David Zucchino / NYT, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2021 | 15h00

CABUL — A diretora de uma escola feminina em Cabul está desesperada para conhecer mais detalhes do plano do Taleban para o ensino das meninas. Mas não pode participar das reuniões semanais da comissão designada pelo Taleban para o ensino. Elas são exclusivamente para homens.

“Eles dizem, ‘Envie um representante masculino’”, disse a diretora, Aqila, dentro da escola de ensino médio Sayed Ul-Shuhada, atacada em maio com bombas terroristas que deixaram muitas meninas mortas.

Mas Aqila e outros educadores afegãos não precisam de reuniões para compreender a dura nova realidade do ensino sob o controle do Taleban. O novo governo deixou claro que pretende limitar muito as liberdades de acesso ao ensino que muitas mulheres e garotas desfrutaram nos 20 anos mais recentes.

A única questão é o quão draconiano será o novo sistema, e qual será o tipo de educação islâmica impostas a meninos e meninas. Assim como fizeram na época em que governaram a maior parte do Afeganistão no fim dos anos 1990, o Taleban parece ter em mente um regime não apenas por decreto, mas implementado também pela inferência e intimidação.

Quando as escolas reabriram no sábado, para estudantes do sétimo ano do fundamental até o último ano no ensino médio, somente os alunos foram chamados de volta ao estudo. O Taleban nada disse a respeito das alunas desses anos, que por isso ficaram em casa, com as famílias, ansiosas em meio à incerteza do seu futuro. Meninos e meninas do primeiro ao sexto ano do fundamental já estão em aula, com os alunos separados por gênero a partir do quarto ano.

Quando o Taleban governou, de 1996 a 2001, o grupo vetou mulheres e meninas nas escolas. Depois que uma invasão com os Estados Unidos à frente derrubou o Taleban no fim de 2001, as estudantes começaram a frequentar escolas e universidades conforme a oportunidade de fazê-lo surgiu. As mulheres puderam estudar para trabalhar com negócios e administração, ocupando cargos na medicina e no direito.

Já em 2018, a alfabetização entre as mulheres no Afeganistão chegou a 30%, de acordo com novo relatório da Unesco.

Mas o Taleban retomou Cabul e assumiu o poder no dia 15 de agosto e, desde então, seus membros dizem que será imposta uma rigorosa interpretação da lei islâmica (shariah).

O novo governo disse que alguma forma de ensino para garotas e mulheres será permitida, mas esses parâmetros ainda não foram definidos com clareza pelas autoridades do Taleban.

Restrições ameaçam sistema de ensino

O Taleban também indicou que homens não poderão mais dar aulas para meninas ou mulheres, exacerbando uma já acentuadíssima escassez de professoras. Somado às barreiras ao pagamento dos salários dos professores e a interrupção no auxílio internacional, isso pode ter resultados “imediatos e graves” para o ensino no Afeganistão, alertou o relatório da Unesco.

As estudantes serão obrigadas a usar um “hijab islâmico", cuja definição está aberta a interpretação. Em uma reunião de mulheres pró-Taleban na semana passada, a maioria vestia niqabs, peça que cobre o cabelo, nariz e boca da mulher, deixando expostos apenas os olhos.

“Estamos trabalhando em um mecanismo para oferecer transporte e outros recursos necessários para um ambiente educacional mais seguro e melhor", disse na segunda feira Zabihullah Mujahid, porta-voz do Taleban e vice-ministro interino da Informação e da Cultura, acrescentando que as aulas para meninas a partir do sétimo ano do fundamental seriam retomadas em breve.

“Há países na região que se comprometeram a nos ajudar com o setor do ensino", disse ele. “Isso vai nos ajudar a oferecer escolas melhores para todos.”

Ainda que muitas mulheres e garotas em Cabul tenham adotado padrões ocidentais para os direitos das mulheres, o Afeganistão ainda é uma sociedade profundamente conservadora. No interior, ainda que nem todas as mulheres recebam de braços abertos o governo do Taleban, muitas estão habituadas a costumes que as mantiveram em casa para cozinhar, faxinar e criar as crianças antes mesmo do Taleban assumir o controle nos anos 1990.

O ministro interino do ensino superior disse na semana passada que as mulheres seguiriam cursando universidades e programas de pós-graduação, desde que em turmas separadas por gênero, mas, na sexta feira, o governo mandou um sinal negativo de suas reais intenções. O Ministério de Assuntos Femininos foi convertido no escritório da polícia da moral religiosa, que sustentava a brutal interpretação da lei islâmica dos militantes duas décadas atrás. O edifício abriga agora o Ministério do Convite, Orientação e Promoção das Virtudes e Prevenção do Vício.

Mulheres se preparam para censura

Professoras, administradoras e alunas vêm se preparando para novas e austeras restrições. Muitas dizem ter começado a usar niqabs e a preparar as salas de aula para receber turmas separas por gênero (muitas escolas também recebiam turmas apenas de meninos e apenas de meninas sob o governo sustentado pelos EUA).

“Comecei a usar o niqab no primeiro dia do governo do Taleban", disse Parisa, que trabalha em uma escola de Cabul. Ela disse que não queria dar ao Taleban um pretexto para fechar a escola.

“Podemos até usar véus, mas não queremos parar de lecionar", disse Parisa. As entrevistadas são identificadas apenas pelo primeiro nome ou apelido para a proteção de suas identidades.

Para as estudantes, o súbito fim de suas liberdades acadêmicas foi ao mesmo tempo traumatizante e paralisante. Muitas dizem que a alegria e empolgação que sentiam ao entrar na sala de aula se perderam, substituídas pelo medo e uma sensação irresistível de futilidade.

Sonhos despedaçados

Zayba, 17 anos, sobreviveu a um devastador atentado a bomba contra sua escola em maio, pelo qual nenhum grupo assumiu responsabilidade, ainda que ataques semelhantes tenham sido atribuídos a um grupo afiliado ao Estado Islâmico operando no Afeganistão.

Zayba parou de ir à escola depois que o Taleban assumiu o controle, dizendo que isso a desmotivou completamente. “Gosto de estudar em casa", disse ela. “Tento estudar, mas não consigo, porque não vejo para mim nenhum futuro sob esse governo.”

Um a colega de Zayba, Sanam, 16 anos, passou por duas operações para tratar de ferimentos causados por estilhaços que a atingiram no dia do atentado. No dia 15 de agosto, ela estava fazendo prova; quer ser dentista. Quando voltou para casa, ficou sabendo que o Taleban tinha assumido o poder político. “Pensei na explosão, e imaginei que eles viriam matar cada estudante", disse Sanam.

Ela ainda está em estado de choque. “Não consigo me concentrar nos estudos", disse. “Quando pensamos no futuro, não conseguimos vislumbrar nada.”

Mohammad Tariq, administrador de uma escola particular de Cabul, disse que representantes do Taleban para o ensino lhe disseram em reuniões que o novo currículo incluiria “matérias especiais” obrigatórias. As alunas terão aula com professoras, e os alunos, com professores, disse ele.

“A mudança virá no material didático islâmico", disse Mohammad Tariq. “Certas matérias serão eliminadas para as garotas: engenharia, administração pública, culinária, treinamento vocacional. As matérias principais seguirão no programa.”

Mujahid, porta-voz do Taleban, negou que matérias específicas seriam excluídas do currículo escolar. Para muitas garotas, o fim da liberdade de acesso ao ensino significa também o fim de seus sonhos. Zayba, aluna do último ano do fundamental, disse que planeja desde a infância tornar-se cirurgiã. Mas ela disse que, no mês passado, seu futuro pareceu evaporar.

“No dia em que o Taleban assumiu o poder, eu pensava: é o fim da vida para as mulheres", disse ela./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL


 

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