Garotas afegãs voltam à escola

Pode chamá-la de nova garota afegã ? algo tímida, corajosa, excitada com o futuro e também um pouco nervosa. Aroosa, 16 anos, está de volta à escola depois de cinco anos, começando de onde parou quando o Taleban entrou em Cabul: na sexta série. Alta, esbelta e bonita, ela não se incomoda com o fato de que todas as suas colegas de turma são mais novas, algumas com 11 anos. Sente apenas a felicidade de estar fora das sombras novamente. ?Sem problemas. Eu era como uma criança em casa por cinco anos?, ela diz. ?Perdi a educação e a infância?. Aroosa chegou para o primeiro dia de aula usando aquele que é seu orgulho e sua alegria: uma calça jeans usada que ela decorou com contas de prata delicadamente bordadas na bainha. Suas amigas formaram uma pequena multidão a seu redor para ver melhor, rindo quando Aroosa explicou que o jeans e as contas foi o presente que ela se deu para celebrar o último 13 de novembro, que marcou o fim da lei Taleban que impedia que garotas freqüentassem escolas. ?Eu saí e comprei essa calça para comemorar?, ela disse no domingo, mostrando, com timidez, os adereços de prata na bainha. Nas salas de aula pequenas e mal iluminadas da escola para meninas Maru Cheera, alunas ansiosas se agacharam no chão, equilibrando cadernos em seus joelhos. Duas amigas dividiram uma das poucas cadeiras. Em um quadro negro quebrado e pequeno, a professora escreveu o alfabeto inglês e suas alunas, todas elas garotas acima de 12 anos, repetiram cada letra. A luz entrava através de uma abertura no alto da parede. O frio penetrava pelo chão de cimento, que não tinha revestimento. Não havia qualquer proteção contra a fria manhã de inverno. Mas as crianças pareciam não se importar, já que se reuniam em grupos de 25 ou até 30 em cada sala. As meninas menores apostaram corrida pelos corredores de pedra da escola para chegar primeiro nas salas de aula. Deba, de oito anos, brincava com seu cachecol marrom de crochê e ponderou alguns minutos antes de decidir o que ela quer ser quando deixar a escola. ?Acho que vou ser engenheira?, ela disse, fazendo uma escolha incomum entre garotas afegãs, que quase sempre escolhem ser professoras ou médicas. Deba explicou que ela seguiria os passos de seu tio. ?Acho que sendo engenheira eu posso fazer novos prédio e renovar meu país?. Shabna tinha 10 anos quando o Taleban tomou Cabul. ?Eu me lembro que a minha professora me falou: ?Talvez amanhã seja seu último dia na escola? e eu fiquei triste porque todos os outros países estavam andando para frente e o meu ia para trás?, disse. Devastado por 23 anos de guerra, o Afeganistão perdeu perto de duas gerações para ininterruptas guerras. Adolescentes defilam pelas ruas de Cabul carregando, sem nenhum cuidado, rifles Kalashnikov. Alguns montam guarda com lança-foguetes maiores do que ele. Quando perguntados sobre sua educação, revelam que poucos estiveram na escola por mais de quatro anos, e são orgulhosos desse pouco que tiveram. Mas apenas raramente algum deles manifesta desejo ou necessidade de voltar a estudar. Para as garotas de Maru Cheera, escola era um sonho nos últimos cinco anos, quando eram proibidas de ir à escola as meninas acima de oito anos. O Taleban sustentava que o Alcorão era o único livro que as meninas precisavam ler. Em Maru Cheera, escondidas atrás de uma fila de casas e empoleiradas num declive suave, as garotas discordavam. Quando as novas inscrições se abriram, cerca de 600 meninas se candidataram, informou a diretora Fatima Rizai. Quando a escola abriu as portas no Sábado, perto de 800 apareceram. Mães arrastaram filhas de cinco anos para a sala da diretora para fazer a matrícula. No pátio, garotas davam as mãos, sussurravam e riam timidamente. Sob as regras do Taleban, muitos pais mantiveram escolas em casa, em que as garotas podiam aprender o básico em segredo. Elas iam às aulas furtivamente, escondendo os livros embaixo da burqa. Shaima Pavez, formada em engenharia elétrica, dava aulas para 30 meninas de idades entre oito e 12 anos. ?Eu as dizia para esconder os livros e cadernos na burqa e se o Taleban as parasse e não perguntasse nada, que não contassem onde iam. ?Digam apenas que vocês vão estudar o Alcorão??, ela lembra do que instruía suas alunas a dizer.

Agencia Estado,

01 Janeiro 2002 | 19h00

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