Garotos somalis são recrutados à força

Adolescentes têm só duas opções: incorporar-se ao grupo ou fugir

Stephanie McCrummen, O Estadao de S.Paulo

26 de dezembro de 2008 | 00h00

Na época em que Mohamed Abdi Ibrahim decidiu deixar a Somália, a vida na cidade de Kismaayo tinha se tornado "complicada", de acordo com o eufemismo empregado por ele. Os jovens de lá há muito já traziam rifles AK-47 nos ombros e juntavam-se às milícias dos clãs. Mas quando uma milícia islâmica conhecida como Al-Shabab assumiu o controle local este ano, a cidade tornou-se um lugar onde garotos recebiam US$ 50 para arremessar bombas, os campos de futebol serviam para treinamento de milicianos e os líderes islâmicos entravam nas salas de aula para anotar nomes de recrutas em potencial.Ibrahim e dois amigos fugiram há muitos meses, logo que a Shabab começou a espancar aqueles que não compareciam às orações de sexta-feira e pouco antes de o grupo ter condenado ao apedrejado até a morte uma menina de 13 anos por adultério. Aparentemente, as opções diante de jovens como eles estavam restritas a duas escolhas: juntar-se às milícias ou fugir.Ibrahim, um garoto magro de 22 anos, fugiu para um campo superlotado de refugiados no Quênia. "Se nos juntarmos a um dos lados combatentes, o outro lado vai nos perseguir e nos matar", disse. O cenário que se apresenta agora na Somália é exatamente aquele que a invasão etíope patrocinada pelos EUA há quase dois anos buscou reverter: a tomada do poder por islâmicos radicais.Na época, as forças etíopes depuseram um movimento islâmico que, durante um breve período assumiu o controle da capital, Mogadiscio. No seu lugar foi instalado um governo de transição chefiado por um senhor da guerra que permitiu à ONU lançar operações contra o terrorismo no país.Mas o tiro saiu pela culatra, inspirando uma implacável insurgência das milícias dos clãs e dos combatentes islâmicos que levou à beira do colapso o primeiro governo central da Somália desde 1991. Na noite de domingo, assessores e partidários do presidente Abdullahi Yusuf - acusado de sabotar um possível compromisso político capaz de pôr fim à insurgência - disse que renunciaria ao cargo.REBELDES FORTALECIDOSOs dois anos de insurgência revigoram a facção islâmica mais radical, a Shabab - "juventude" em árabe - , classificada pelos EUA como organização terrorista. Atraindo os jovens com retórica antietíope e promessa de admissão certa no paraíso, o grupo avançou este ano por boa parte do sul da Somália, incluindo Mogadiscio. A analistas esperam que a Shabab estenda seu controle depois que as forças etíopes se retirarem, em algumas semanas.A situação no campo de batalha - e nos campos de refugiados cada vez mais superlotados - sugere que a Shabab está se fortalecendo. "Os jovens estão se juntando à Shabab todos os dias", disse Ibrahim. "Os milicianos dizem a eles que precisam lutar por sua religião, pela sua terra; e ainda lhes oferecem dinheiro. É difícil resistir a eles."Era manhã em Dadaab, e Ibrahim estava com seus dois amigos, Mohamed Shuep, de 25 anos, e Hussein Hassan Adan, de 16, em meio a uma imensa multidão suarenta. O número cada vez maior de refugiados evidencia aquilo em que a Somália se transformou: um lugar de onde todos procuram escapar.Numa população de 9 milhões, mais de 1 milhão de pessoas deixaram suas casas, preferindo regiões do país afetadas pela seca ao fogo cruzado das milícias que disputam o controle de Mogadiscio e outras áreas. Os ataques a funcionários das agências humanitárias - provavelmente pela Shabab, que os vê como sinônimo de interferência estrangeira - tornaram o auxílio à população quase impossível. Outras centenas de milhares de pessoas simplesmente deixaram o país.Ao menos 20 mil tentaram a sorte este ano a bordo de precárias embarcações destinadas aos portos do Iêmen, e muitas mais viajaram a pé ou dentro dos sufocantes caminhões de contrabandistas que trazem a este campo cerca de 5 mil pessoas todo mês.Construído em 1991 para acomodar 90 mil pessoas que fugiam da última guerra civil ocorrida na Somália, Dadaab é agora uma extensão que comporta 220 mil refugiados - um verdadeiro limbo desértico repleto de choupanas redondas feitas de madeira e poços d?água sobrecarregados, o símbolo de mais de uma década de governos fracassados e iniciativas de paz inconclusivas.

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