Marc Champion*, Bloomberg/O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2014 | 02h04

A London Review of Books publicou uma reportagem explosiva. Não foi o governo sírio que bombardeou com armas químicas um bairro rebelde nos arredores de Damasco, em agosto, mas os próprios rebeldes, aos quais a Turquia, aliada dos EUA, fornecera gás sarin. Considerando o caos em que se encontra o governo turco e a insanidade de alguns combatentes rebeldes na Síria, a hipótese parece plausível.

O que me fez refletir não foi o desmentido do governo americano. A reportagem afirma que a amostra da substância usada em Ghouta nada tem a ver com os estoques sírios. A informação veio de "agentes da inteligência russa". A Rússia tentava desesperadamente impedir uma intervenção militar americana na Síria. Desde quando o agente da inteligência de um país estrangeiro que apresenta evidências para promover os objetivos do seu país pode ser "de total confiança"? Se for, não está fazendo o seu trabalho.

A reportagem afirma que a Turquia treinava rebeldes para produzir sarin na Síria, mas o tempo e as instalações necessários para preparar a quantidade usada são incompatíveis. Tampouco se fala das provas físicas e fotográficas que apareceram depois do ataque, mostrando que as ogivas químicas foram disparadas usando vários foguetes Volcano de grande porte e seus lançadores, de uso exclusivo do Exército sírio. Novamente, é concebível que os rebeldes da Síria tenham se apoderado deste equipamento em meio ao caos da guerra civil, mas a Síria não denunciou estes roubos.

Um trecho fascinante da reportagem descreve uma reunião tensa na Casa Branca entre o premiê turco Recep Tayyip Erdogan e o presidente Barack Obama. Erdogan coloca o dedo no nariz do americano, que interrompe repetidamente o chefe da inteligência turca, Hakan Fidan: "Sabemos o que vocês estão fazendo com os radicais na Síria", diz Obama. A cena, contada pelo ex-assessor Tom Donilon, é consistente, mas não explica a origem das armas. A Turquia vem armando os rebeldes e Erdogan está irritado porque os EUA não agem para derrubar Assad. Daí a mostrar que a Turquia detinha grandes quantidades de gás sarin e o fornecia aos rebeldes que, já dispondo dos foguetes e dos lançadores de uso dos militares sírios, construíram com sucesso, instalaram as ogivas e secretamente as lançaram de posições sírias próximas, o salto é muito grande. Enquanto Washington, Londres e Paris não disserem o que sabem sobre o ataque, continuaremos sem saber o que ocorreu.

*Marc Champion é jornalista.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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