Gás russo e o grande jogo político

Rússia quer usar recurso energético para inverter a ordem pós-soviética que se instaurou na Europa depois de 1990

Joschka Fischer, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2010 | 00h00

PROJECT SYNDICATE

Do ponto de vista geopolítico, a Rússia e a União Europeia são vizinhas. É de importância crucial para ambas que suas relações sejam de boa vizinhança. A não ser que modernize economia e sociedade, a Rússia poderá esquecer sua aspiração ao status de potência mundial no século 21, pois continuará atrasada em relação às antigas e novas potências emergentes.

Além disso, para modernizar-se, a Rússia precisa de parceiros, pois sua população e seu potencial econômico são muito reduzidos para que ela possa desempenhar um importante papel na nova ordem mundial emergente. Mas para onde a Rússia poderia se voltar? Agora, ela só pode se voltar para o Ocidente, e para a Europa em particular.

Para a Europa, o papel da Rússia é de importância estratégica. Uma revisão da ordem pós-soviética visando um aumento da influência russa sobre os países ou satélites da antiga União Soviética mudaria drasticamente a estratégia e a política de segurança da UE.

Ambas as partes dizem querer melhorar as relações bilaterais, mas é duvidoso que russos e europeus pensem de fato suas relações nos mesmos termos. Olhando por trás da retórica cordial, perceberemos profundas diferenças.

Quando o ex-presidente da Rússia e atual premiê, Vladimir Putin, declarou há vários anos que o maior desastre do século 20 foi o fim da União Soviética, ele não falava apenas por si, mas pela maioria da elite política russa. Mas a esmagadora maioria dos europeus provavelmente considera o colapso da URSS um motivo de comemoração. Na realidade, a Rússia de hoje procura inverter a ordem pós-soviética que se instaurou na Europa depois de 1989-1990, pelo menos em alguns de seus vizinhos, enquanto os europeus e o Ocidente querem preservá-la a todo custo. Enquanto Moscou não compreender estas diferenças fundamentais e não tirar as conclusões corretas delas, os europeus não considerarão a abertura da Rússia para o Ocidente como uma oportunidade, e ela se deparará sempre com a profunda desconfiança da Europa. Mas isto não impede a cooperação prática e pragmática em numerosas áreas.

Hoje, a Rússia mantém sua força apenas como fornecedora de energia e de outros recursos naturais. Portanto, não surpreende que Putin tenha procurado usar esta alavanca para restaurar o poder da Rússia e rever a ordem pós-soviética.

Com os gasodutos Nordstream no Báltico e South Stream no Mar Negro, a Rússia não está apenas procurando estabelecer uma ligação direta entre a Rússia e a UE que passe ao largo da Ucrânia e comprometa o gasoduto ucraniano Nabucco. O objetivo principal é pressionar a Ucrânia, assim como o Azerbaijão e o Turcomenistão, que querem abastecer a Europa com gás independentemente da Rússia. Assim que esses objetivos forem alcançados e/ou o Nabucco for em frente, o South Stream será engavetado porque não tem sentido do ponto de vista econômico.

Na Europa e nos EUA este desafio foi compreendido. Agora é necessário apoiar os que na Ucrânia veem um futuro europeu para seu país, abrir o corredor sul por meio do Nabucco, e acelerar o desenvolvimento de um mercado energético europeu comum. Uma política europeia decisiva só melhorará, em vez de prejudicar, as relações com a Rússia, porque favorecerá uma maior clareza e possibilidade de previsão. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É EX-MINISTRO DE RELAÇÕES EXTERIORES E EX-VICE-CHANCELER DA ALEMANHA

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