Gastos altos com assistencialismo e infraestrutura devem reeleger Correa

A duas semanas do primeiro turno das eleições presidenciais no Equador, o presidente Rafael Correa, no poder desde 2007, é o favorito para a reeleição. O bom momento econômico do país, aliado a investimentos em infraestrutura e programas sociais, um modelo de propaganda estatal implacável e a fragmentação da oposição - acreditam analistas - são as principais razões para a liderança do presidente na corrida eleitoral.

LUIZ RAATZ, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2013 | 02h05

"Rafael Correa é o primeiro presidente estável do Equador em 20 anos. Tem maioria no Congresso, condições econômicas favoráveis e lida com uma oposição fragilizada. Depois da crise institucional (1996-2006), os partidos tradicionais ruíram", diz o professor Pablo Andrade, da Universidade Andina Simón Bolívar. "Além disso, ele conta com uma grande exposição na mídia privada e pública."

A receita de Correa é similar à adotada, em maior ou menor grau, na maioria dos países latino-americanos. No Equador, o principal programa de transferência de renda chama-se Abono de Desenvolvimento Humano (ADH). Criado no governo de Jamil Mahuad, em 1998, com o nome de Abono Solidário, o projeto destina US$ 50 mensais a famílias de baixa renda. No total, 2 milhões, dos 14 milhões de equatorianos, são beneficiados pelo projeto, cujo orçamento é de US$ 484 milhões anuais.

Quando Correa foi eleito, em novembro de 2006, o barril de petróleo valia cerca de US$ 60. Hoje custa US$ 97. Esse aumento no preço da principal commodity da economia equatoriana possibilitou o crescimento dos investimentos públicos, o que contribuiu para reduzir a miséria e aumentar o consumo interno.

Em 2011, a expansão da economia foi de 7,8% e a previsão para o crescimento do PIB do ano passado, segundo o Fundo Monetário Internacional, é de 4%. O desemprego é de 5%. A pobreza, segundo o governo, caiu 9 pontos porcentuais entre 2006 e 2011. Ao menos 930 mil pessoas entraram na classe média, mas cerca de um em cada quatro equatorianos ainda é considerado pobre.

Em números relativos, segundo a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), o Equador é o país com maior gasto público na economia da região. Em 2011, ano do último estudo da instituição, essa taxa foi de 11,1% do PIB. Essa verba foi injetada na expansão da infraestrutura produtiva e em projetos sociais. O orçamento do Ministério dos Transportes e Serviços Públicos é de US$ 800 milhões. Só em estradas, Correa pretende gastar US$ 5,5 bilhões até 2014.

"Correa utiliza a renda proveniente da exportação do petróleo em obras de infraestrutura, no salário do funcionalismo do setor público e em subsídios. A população tem a percepção de que ele é um tocador de obras", diz o economista Walter Spurrier, diretor da publicação online Análise Semanal.

Simón Pachano, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), concorda com essa avaliação. "O ADH, por exemplo, começou com Jamil Muhad, mas ele soube ampliá-lo e universalizá-lo", explica. "Ele investiu muito em infraestrutura e programas sociais, como o ADH favorecido pela alta do preço do petróleo nos mercados internacionais."

Publicidade. A socióloga Natalia Sierra, da Pontifícia Universidade Católica de Quito, diz que a ampliação do ADH, que chega a um em cada sete equatorianos, retrata o sucesso da política de combate à pobreza, que, vinculada à uma estratégia de hegemonia comunicacional, rende dividendos políticos. "Desde 2007, o investimento social é reverberado por uma propaganda midiática como nunca houve na história do Equador", afirma.

Só entre janeiro e setembro do ano passado, o governo gastou US$ 71 milhões em propaganda oficial. Um dos anúncios da campanha de Correa mostra o presidente andando de bicicleta em uma estrada moderna, com imagens de suas obras.

O economista Spurrier concorda com a importância do aparato de comunicação estatal para o projeto de poder de Correa. "A quantidade e a qualidade da publicidade é impressionante", critica. "Todas as obras são vistas de maneira positiva, assim como os resultados econômicos."

A maioria das pesquisas indica um amplo favoritismo de Correa, que enfrenta outros oito candidatos, entre eles o ex-presidente Lucio Gutiérrez e o magnata da banana Alvaro Noboa. Segundo o instituto CMS, o presidente tem 48% das intenções de voto. O segundo colocado, Guillermo Lasso, é o preferido de 8% do eleitorado. O número de indecisos chega a 31%.

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