Gates promete ampla reforma no Pentágono

Único secretário da era Bush a permanecer com Obama quer adaptar força à nova realidade de guerra irregular

Roberto Simon, O Estadao de S.Paulo

24 de janeiro de 2009 | 00h00

O secretário da Defesa, Robert Gates, é o único membro do primeiro escalão do governo George W. Bush que permanecerá sob a presidência de Barack Obama. Numa mostra de que já aderiu ao slogan de campanha de seu novo chefe - "mudança" -, Gates anunciou que irá promover um amplo redirecionamento em seu departamento. Em artigo publicado na edição de janeiro da revista Foreign Affairs, Gates defendeu a adaptação das instituições militares dos EUA - cunhadas para lutar guerras convencionais, contra Estados - às novas realidades dos chamados "conflitos assimétricos", contra atores não-estatais.A mudança, escreveu o secretário, não deve se resumir à adaptação da máquina de guerra e da burocracia do Departamento de Defesa (Pentágono) aos desafios da guerra ao terror, descrita por Gates como "um conflito irregular de escala global". Para enfrentar senhores da guerra afegãos, terroristas no Iraque ou militantes financiados pelo Irã, os EUA devem promover uma mudança drástica em sua cultura militar, no American way of war, argumenta.Sem descartar a hipótese de um conflito contra potências - Gates cita a Rússia e a China -, os EUA estariam prestes a investir pesado em novas tecnologias direcionadas à luta assimétrica e a institucionalizar a contrainsurgência na carreira militar. No plano estratégico, a ideia é borrar as linhas divisórias entre os aspectos militar e político, aumentando a participação de diplomatas, agências de desenvolvimento e acadêmicos em guerras."Gates quer dar ?o próximo passo? e estabelecer novas prioridades. Mas não acredito que veremos uma ruptura com a tradição militar, será mais uma adaptação", disse por telefone ao Estado William Hartung, do centro de pesquisa New American Foundation, de Nova York. Mas o especialista questiona se o principal motivo por trás da escolha de Obama de manter o chefe da Defesa foi, de fato, promover uma reestruturação. Para Hartung, Gates teria sido designado por ser uma figura de consenso entre democratas e republicanos, capaz de orquestrar a retirada do Iraque mantendo a unidade nacional.À época em que concordou em chefiar o Departamento de Defesa, em novembro de 2006, Gates era percebido em Washington como o exato oposto de seu antecessor, Donald Rumsfeld. Arquiteto da invasão do Iraque, Rumsfeld era tido como ideológico e combativo. Gates, seria técnico, conhecedor dos meandros da burocracia, e discreto."O secretário serviu numa presidência republicana, mas nunca foi percebido como uma pessoa partidária. Sua maior preocupação parece ser os soldados americanos", afirmou Henry Cuellar, deputado democrata e membro do comitê de Segurança Nacional do Congresso.PASSADO DE ESPIÃONão será a primeira vez que Gates participa de uma transição presidencial. Em 1993, então como diretor da CIA do governo George W. H. Bush, ele foi incumbido de informar o recém-eleito Bill Clinton sobre o status da comunidade de inteligência. Clinton, porém, dias depois trocou a chefia da CIA, preocupado em desvencilhar-se dos remanescentes da Guerra Fria, entre eles Gates, na agência desde 1967.Mas seu passado como espião costuma ser elogiado. "Conhecedor do aparato de inteligência, Gates é um realista. Ele sabe que ameaças podem ser infladas - dos soviéticos às armas de destruição em massa de Saddam Hussein", diz Hartung. O envolvimento do secretário no escândalo Irã-Contras, episódio que impediu em 1987 sua nova confirmação como chefe da CIA, no governo Ronald Reagan é a principal mancha em seu currículo. Apesar de ter sido inocentado, Gates supostamente sabia do financiamento, coma vendas de armas ao Irã, da luta contra os sandinistas na Nicarágua.Outro ponto polêmico é a falta de envolvimento pessoal do secretário no fechamento da prisão de Guantánamo, promessa de campanha de Obama oficializada na quinta-feira. Gates havia se limitado a solicitar um estudo sobre a prisão, mas quis manter distância do tema, "chave para entender o novo caminho de Obama", segundo Daniel Gorevan, da Anistia Internacional. O secretário também por vezes defendeu um novo investimento em armas nucleares. Seu novo chefe, porém, diz ser favorável a novos acordos, sobretudo com a Rússia, para limitar os arsenais.

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