Gaúcho nos EUA se diz pronto para a guerra

O sotaque norte-americano de quem passou metade da vida morando nos Estados Unidos desaparece sob a emoção e dá lugar ao de gaúcho na voz do brasileiro Marcelo Suardi Ávila quando, quase chorando, ele conta como é duro ver a tragédia tão de perto e todos os dias.Aos 26 anos, ele é o único brasileiro engajado na Guarda Costeira e baseado em Nova York. Há uma semana, ajudou a carregar os primeiros corpos destroçados que foram retirados dos escombros do World Trade Center.Transportados no barco em que ele estava, os cadáveres de oito bombeiros foram levados para outro ponto da cidade e, de lá, encaminhados de ambulância para um necrotério.Apesar de tudo o que já viu, o rapaz não vacila em dizer que está pronto para a guerra, respondendo à convocação do presidente George W. Bush a "todos que usam uniforme"."Vou sem pensar", diz Ávila. "Tenho família e amigos norte-americanos, mas não vou lutar só por eles e sim pelo mundo todo, por todas as pessoas que morreram e estão morrendo aqui e pelas que eu não quero que morram desse jeito."Todas as noites, depois de passar 12 horas no barco, Ávila chora no telefone ao falar com a mãe, Míriam, que mora no mesmo bairro que ele, mas que ele não tem tido tempo de ver. Ela consola o rapaz de quase 1,90m de altura e cem quilos, dividindo com ele a mesma disposição de lutar contra o terrorismo que chegou tão perto de sua família."Não gostaria que ele fosse para a frente de guerra", diz Míriam. "Mas se eu pudesse iria junto, porque tenho nora e genros norte-americanos, vou ter netos e não quero que eles vivam o horror que nós estamos vivendo agora."A família de Ávila mudou-se do Rio Grande do Sul para os Estados Unidos em 1989. Newton, seu pai, encontrou uma vida melhor para o filho, as duas filhas e a mulher trabalhando como construtor.Ávila deixou o curso universitário de geologia no terceiro ano para realizar o sonho que tinha desde criança, ainda no Brasil."Sempre quis ser militar ou fazer alguma coisa para ajudar as pessoas, como trabalhar na polícia ou ser bombeiro; por isso me alistei na Guarda Costeira", diz ele.Como tem green card, o documento norte-americano para estrangeiros legalizados, Ávila apenas não pode exercer alguns trabalhos classificados na instituição, como serviços de informações.Entre os colegas de farda, ele conheceu a californiana Katie, com quem se casou há três anos. Ela já cumpriu os quatro anos de serviço militar, mas o período de Ávila só acaba em janeiro. Depois disso, ele gostaria de continuar a carreira em outra das forças militares norte-americanas."Mas quero ficar em terra firme, mudar para a Califórnia, ter filhos numa cidade sossegada e fazer churrasco no quintal como meu pai me ensinou", planeja.Esses planos estão ameaçados pela atual situação dos Estados Unidos. Por enquanto, todos os dias, Ávila fica de manhã à noite num barco de 14 pés, circulando em torno da ilha de Manhattan.O trabalho principal dos que estão com ele na embarcação é o transporte, desde comida para as equipes que operam na área do World Trade Center até corpos que são retirados de lá."Não dá para acreditar no que vejo e, por isso, faço tudo sem pensar; só penso à noite, quando chego em casa", diz o guarda costeiro. É à noite que ele telefona para a mãe e chora.

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