Cláudia Trevisan / Estadao
Cláudia Trevisan / Estadao

Gays pedem direito de doar sangue nos EUA

Atentado em Orlando promove grande mobilização da comunidade LGBT e de moradores da Flórida

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Orlando, EUA, O Estado de S. Paulo

16 Junho 2016 | 05h00

Ao lado do namorado, Salvatore Iadicicco, o designer Benjamin Garcia aguardava nesta quarta-feira (15) na sala de espera do banco de sangue Oneblood para fazer sua contribuição às vítimas do massacre do clube gay Pulse, no qual perdeu dois amigos. Mas sua determinação seria logo frustrada pelas regras que impedem a doação de sangue por homens que tiveram sexo com outros homens no ano anterior.

A exigência excluiu virtualmente toda a comunidade gay de Orlando da mobilização que tomou conta da cidade nos últimos quatro dias para atender a demanda por sangue nos hospitais que tratam os 53 feridos no maior ataque a tiros da história dos EUA. “Nosso sangue é tão bom quanto o de qualquer pessoa”, disse Garcia ao Estado, ressaltando que faz exames regulares de HIV.

“Essa é uma discriminação absurda contra a comunidade LGBT”, afirmou o diretor-executivo do Centro LGBT para Flórida Central, Terry DeCarlo. “Os bancos de sangue possuem protocolos suficientes hoje para checar se há doenças no sangue. O que eles estão dizendo é que todo homem LGBT tem HIV, o que não é verdade.”

Durante a epidemia de aids, no início dos anos 80, as autoridades de saúde dos EUA adotaram regulamentações que proibiam a doação de sangue durante toda a vida por homens que tivessem tido relações sexuais com outros homens. 

No ano passado, a orientação foi modificada, com a adoção do período de um ano. A menos para doadores celibatários, a alteração teve pouco efeito prático.

"O que é isso? Estão tentando me agradar dizendo que vão me deixar doar sangue, mas que não posso ter tido sexo com ninguém por um ano? Como isso não é discriminação?”, perguntou DeCarlo.

A frustração dos gays diante da impossibilidade de doar sangue foi acentuada com a revelação de que o atirador que matou 49 pessoas na Pulse, Omar Mateen, doou sangue em uma unidade móvel da Oneblood em 29 de maio. A informação foi divulgada pela rede ABC. O banco de sangue não informou se o material foi usado no tratamento de vítimas do ataque. Normalmente, as doações podem ser usadas em um período de até 42 dias.

O brasileiro Eder Curiel trabalha no Oneblood desde 2013 e disse não ter visto nada semelhante à mobilização dos últimos dias. “Como os gays não podem doar sangue, fiquei comovido em ver tantos heterossexuais dispostos a ajudar”, disse Curiel, que frequentava a Pulse e perdeu dois amigos no massacre. 

Na noite do ataque, o brasileiro preferiu ir a outro clube gay de Orlando, Parliament House. Curiel dormiu por volta das 2 horas, quando o ataque começava, e foi acordado no dia seguinte com uma chamada de emergência do banco de sangue. Ele chegou no local às 9 horas do domingo e só saiu às 4h30 da segunda-feira. 

Michael Rogers, vice-presidente regional da Oneblood, disse que nos três dias seguintes ao ataque cerca de 20 mil pessoas doaram sangue nos 20 centros e 170 unidades móveis em todo o Estado da Flórida. Normalmente, cerca de 6 mil doações são registradas em período semelhante. Segundo ele, a mobilização só é comparável à que ocorreu após os atentados de 11 de setembro de 2001.


Mais conteúdo sobre:
sanguedoaçãoLGBTgaysOrlando

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.