Gaza: uma distopia moderna

Ficar em silêncio diante da injustiça faz a comunidade global não ser melhor que a multidão na arena de 'Jogos Vorazes'

RANIA, AL-ABDULLAH, GLOBAL VIEWPOINT, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2014 | 02h01

Distopia: substantivo, um lugar imaginário onde pessoas são infelizes e geralmente têm medo, porque não são tratadas com justiça; um futuro desagradável em que pessoas são desumanizadas; um mundo de pesadelo caracterizado por miséria humana, sordidez, opressão, doença e superpopulação.

Tipicamente, as sociedades distópicas são retratadas em romances como Jogos Vorazes e Divergente. Eles nos dão vislumbres de sociedades distorcidas onde justiça e liberdade são suprimidas, a privação é um modo de vida e vidas são dispensáveis. Eles nos pedem para imaginar uma sociedade onde as pessoas são levadas ao limite do que podem suportar - e, com frequência, mortas se não puderem. Mas é apenas ficção, certo? Depois da última página, termina. Errado.

A narrativa distópica mais perturbadora de nosso tempo não é uma ficção. É um lugar real com pessoas reais. É Gaza. O lugar mais trágico da Terra, onde as pessoas lutam contra a pobreza, a violência, o preconceito, a intimidação, a fome, a falta de assistência médica, uma vigilância constante, insegurança, privação de artigos de primeira necessidade, desesperança, educação precária, isolamento forçado, desrespeito aos direitos humanos e a dor de perder entes queridos.

Os mais de 1,8 milhão de habitantes de Gaza lutam contra tudo isso, todos os dias. Diante de uma comunidade global, em geral, indiferente. Mulheres, crianças, bebês, idosos. Os que vivem com deficiências. O inocente. Eles lutam contra todas essas injustiças todos os dias porque, nos últimos oito anos, existiram - não "viveram" - sob um cerco imposto pelos israelenses.

Um palestino de 17 anos detido numa prisão israelense descreveu a miséria cotidiana dos moradores de Gaza: "É como ser uma sombra de seu próprio corpo, presa ao chão, incapaz de se desprender dele. Você se vê ali deitado, mas não pode insuflar vida na sombra." Simples assim: uma morte lenta.

A menos que se tenha vivido dia após dia em meio ao cerco sufocante e os massacres, é impossível compreender o desespero vivido pelos moradores de Gaza. Não se esqueça: 70% da população de Gaza são refugiados. Não posso querer, apenas com palavras, fazer jus a seus sofrimentos. Tudo que posso oferecer são instantâneos de sua existência.

Imagine ser aprisionado numa lasca de terra árida, com meros 40 quilômetros de comprimento e entre 5 e 11 quilômetros de largura. Imagine que seu filho precise de assistência médica urgente, que as clínicas de Gaza não têm como oferecer. Dia após dia, você espera no posto de fronteira sem saber se esse é o dia em que você e seu filho terão permissão de cruzar para buscar a assistência de que precisam.

Imagine criar filhos sem acesso a água, com um sistema de esgoto que vaza e eletricidade apenas durante a metade do dia. Ou depender dos pacotes de comida da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA, na sigla em inglês) para manter viva sua família.

Agora, imagine, o povo de Gaza convive também com bombardeios diários. Mais de um quarto dos mortos nas duas últimas semanas eram crianças: 161. Outras centenas ficaram mutiladas e órfãs. Dezenas de milhares de famílias abaladas e desabrigadas. Imagine estar sentado à mesa de jantar com sua família e ter minutos para deixar o lugar antes de sua casa ser bombardeada. Mísseis a arrasam.

Fotos insubstituíveis de seus avós, perdidas. Fotos de seus filhos tiradas quando eles eram jovens, destruídas. Documentos de identificação, perdidos. Sua história pessoal, apagada. Ou imagine tentar salvar vidas num hospital quase sem suprimentos médicos usando apenas instrumentos enferrujados. Seus sapatos grudam no sangue espalhado pelo chão. E, depois, o hospital é bombardeado.

Gaza está traumatizada. Tudo o que os moradores de lá querem é o que cada um de nós quer. A oportunidade de uma vida normal, com dignidade e segurança, e construir um futuro em que seus filhos possam se desenvolver, sonhar e realizar seu potencial. Eles deveriam ter esse direito.

Primeiro, é preciso haver um cessar-fogo. Mas essa não é a única solução. Não podemos permitir uma volta ao status quo infernal: a batalha diária pela sobrevivência. E preciso haver, em seguida, um esforço global dedicado a devolver vida às sombras de Gaza. Infraestrutura, consertada. Laços comerciais, restaurados. Escolas, equipadas. Hospitais, renovados. As cicatrizes precisam sarar. A esperança precisa florescer. Mas isso não ocorrerá sem o esforço coletivo da comunidade global.

Ela precisa insistir numa vida digna para o povo de Gaza. Cada um de nós pode fazer um pouco. Defender. Despertar consciências. Rejeitar a violência. Doar à UNRWA.

Ficar em silêncio diante dessa injustiça interminável faz a comunidade global não ser melhor que a multidão mastigando amendoim na arena de Jogos Vorazes, se espantando, suspirando, balançando as cabeças a cada novo julgamento e a cada nova morte.

Será que vamos nos retrair e ficar como espectadores enquanto os alicerces perversos de uma distopia moderna são assentados diante de nossos olhos? Ou nossa humanidade comum nos unirá e compelirá a agir para ajudar a salvar o povo de Gaza? Ao salvá-los, salvamos a nós mesmos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É RAINHA DA JORDÂNIA

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