Gaza vê surgimento de grupo híbrido entre Fatah e Hamas

Fatah al-Yasser terá programa político próximo ao do Fatah, com tradições islâmicas

Agencia Estado

21 Junho 2007 | 13h08

Os moradores de Gaza ainda nem se acostumaram com as bandeiras do Hamas hasteadas nos escritórios do governo e nas bases militares onde antes tremulavam as bandeiras palestinas. E uma nova bandeira surgiu nesta quarta-feira, 20, para aturdi-los ainda mais. No meio da tarde nas principais avenidas da cidade, homens vestidos de preto, alguns armados com fuzis, penduraram nos postes e no Centro Cultural de Gaza uma bandeira até então desconhecida. Trata-se do novíssimo Fatah al-Yasser. Com a imagem do líder histórico dos palestinos, Yasser Arafat, totalmente verde, a bandeira é um híbrido de duas simbologias palestinas violentamente separadas na ofensiva militar do Hamas contra o Fatah, que deixou mais de cem mortos na semana passada. Arafat, fundador do Fatah no fim dos anos 50, é o ícone do nacionalismo secular palestino; o verde, a cor do profeta Maomé, colore a bandeira do movimento fundamentalismo islâmico. "Estamos criando um novo movimento, que terá um programa político próximo ao do Fatah, mas adepto às tradições islâmicas, sem ser tão radical quanto o Hamas", explicou ao Estado o porta-voz do grupo, Nael al-Sharif. Segundo ele, o novo grupo, que começa com 5 mil homens armados, não reconhece o governo de emergência formado há uma semana pelo presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, que destituiu o primeiro-ministro Ismail Haniyeh, líder do Hamas. "Só existe um governo palestino, aprovado pelo Parlamento palestino, e que inclui todas as facções", disse o porta-voz, repetindo as visões do Hamas. A situação foi clareando quando o líder do novo movimento estacionou em frente ao Centro Cultural: Khaled Abu Hilal, um dissidente do Fatah inimigo de morte de seu líder máximo em Gaza, Mohamed Dahlan, chegou no vistoso Ssangyong Chairman preto que pertencia ao ex-ministro Nabil Shaath, um dos líderes do Fatah na faixa costeira. O veículo foi confiscado pelo Hamas durante a tomada do território. Às vezes um carro diz mais que uma bandeira. Desconfiança Segundo analistas, o Hamas quer provar sua tese de que só livrou Gaza da "banda podre" do Fatah, e não está impondo um regime de partido único. Mas há várias garantias do Hamas que os moradores de Gaza parecem olhar com desconfiança. Por exemplo, o movimento diz que não pretende impor o código de comportamento estrito do Islã. Ainda assim, mulheres sem véus na cabeça ou com roupas ocidentais praticamente desapareceram nas ruas e muitos homens pararam de se barbear. Na praia de Gaza na quarta-feira, numa tarde de verão particularmente tórrida, o Estado só encontrou mulheres com o corpo inteiramente coberto. A maioria trajava chador, a vestimenta preta. O repórter do Estado estarreceu um funcionário do hotel ao pedir uma cerveja - bebida comum nos hotéis da Cisjordânia. "Cerveja? Você está em Gaza, sob o Hamas", situou o funcionário.

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