AP/Jeff Chiu
AP/Jeff Chiu

Generais fazem contrapeso a Trump

Presença de militares da reserva equilibra ações intempestivas do presidente dos EUA

Lúcia Guimarães  CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2017 | 05h00

O vídeo, capturado discretamente num smartphone, foi postado sem alarde no Facebook, mas, em poucos dias, se tornou viral. O secretário de Defesa dos EUA, James Mattis, condecorado general da reserva, fazia um “pep talk”, o costumeiro discurso improvisado para levantar o moral de tropas americanas numa base militar no exterior. Mattis disse aos soldados: “Aguentem firmes até o nosso país voltar a ter compreensão e respeito de uns pelos outros e demonstrar isso.” 

Imediatamente, o comentário voltado para Washington eclodiu no debate sobre o caráter excepcionalmente político das palavras de Mattis. Seria o presidente o alvo da crítica do general? E ele disse mais. Lembrou o que considera os dois grandes poderes dos EUA – o de intimidar e o de inspirar. “O de intimidar,” ele diz no vídeo aos soldados, “são vocês.” E concluiu: “O poder da inspiração... nós ainda vamos recuperar nosso poder de inspiração.”

Não ficou claro o local da conversa, mas Mattis acaba de voltar de uma viagem à Jordânia, Turquia e Ucrânia. No contexto do furor provocado pelas declarações de Trump após o atropelamento de manifestantes antirracismo no dia 12 em Charlottesville, quando ele comparou neonazistas e membros da Ku Klux Klan aos que protestavam contra esses grupos, é difícil não especular sobre a mensagem do poderoso integrante do gabinete.

Os gestos de independência da autoridade do chefe do Executivo continuaram. Na manhã de terça-feira, Trump tuitou: “Os EUA conversaram com a Coreia do Norte e pagaram extorsão a eles durante 25 anos. Conversar não é a resposta!” Em duas horas, o general Mattis disse, resoluto, para as câmeras: “Não, nunca esgotamos as soluções diplomáticas.”

 

Na manhã seguinte, Mattis anunciou que não porá em prática no momento qualquer mudança sobre militares transgêneros e encomendou um longo estudo sobre o tema. No dia 25, Trump assinou ordem determinando que o Pentágono tratasse da iniciativa de banir transgêneros das Forças Armadas. 

Impacto. “O que Mattis tem feito está de acordo com o papel dele no governo Trump,” disse ao Estado o sociólogo James Burk, especialista na história do relacionamento entre civis e militares nos EUA. “Seria melhor não termos três generais neste governo? Sim” avaliou, numa referência ao chefe de gabinete John Kelly e ao assessor de segurança nacional, H.R. McMaster. “Mas o fato é que eles estão sendo forças estabilizadoras.” Mais um ineditismo desta presidência: liberais, que tanto denunciaram o militarismo aventureiro na invasão do Iraque, andam torcendo por generais. E a base direitista do presidente tem criticado os militares.

Mas há quem não encontre alento neste suposto protagonismo benigno de generais da reserva. O Problema de Insubordinação de Trump, foi a manchete de um artigo de Rich Lowrey, editor-chefe de uma das mais tradicionais revistas conservadoras do país, a National Review. Além de Mattis, Trump foi desafiado em público pelo secretário de Estado, Rex Tillerson, respondendo na TV sobre a reação a Charlottesville. Quando questionado sobre valores morais americanos, Tillerson disse que ninguém duvida do direito à igualdade. “E o presidente?”, insistiu o entrevistador. “O presidente responde por si mesmo.” Outro alto assessor que também criticou Trump sobre Charlottesville, mas é visto como blindado, é Gary Cohn, principal conselheiro econômico da Casa Branca. 

Controle. Recém-saído da direção do Departamento de Sociologia da Universidade Texas A&M, Burk alertou para comparações que têm sido feitas com as semanas finais do governo de Richard Nixon, que renunciou em 1974 para não sofrer impeachment. Nixon bebia muito e passava horas esbravejando contra inimigos reais e imaginários. Seu secretário de Defesa, James Schlesinger, convocou o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Michael Brown, e determinou que nenhuma ordem militar de Nixon fosse cumprida sem que ele fosse consultado. 

“Aqueles foram tempos excepcionais e não devemos fazer comparações triviais,” avaliou Burk. O acadêmico acredita que críticos do crescente poder de militares no gabinete exageram no alarmismo, por argumentar que o controle civil dos militares, sacramentado na Constituição, estaria sendo erodido. “É outro fenômeno,” diz. “É uma erosão de décadas da confiança dos cidadãos nas instituições do governo. Só os militares e, em menor grau, a Suprema Corte mantêm a confiança. Enquanto eles não abusarem desta confiança, estamos bem. Mas temos de ser vigilantes”, conclui.

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