Ashraf Shazly / AFP
Ashraf Shazly / AFP

Generais não podem ignorar antigos movimentos na África

Os desafios políticos e econômicos que virão com o sucesso são monumentais e não poderão ser resolvidos por ditaduras militares

Bobby Ghosh / BLOOMBERG, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2019 | 05h00

As juntas militares eram muito populares no Norte da África meio século atrás, e agora os generais nos três maiores países da região tentam trazê-las de volta à moda. Na Argélia e no Sudão, onde protestos derrubaram antigos tiranos, grupos militares vêm ressurgindo das sombras para reivindicar o poder. Na Líbia, depois de oito anos de instabilidade desde a queda do ditador Muamar Kadafi, outro aspirante a caudilho tenta assumir o controle pela força das armas. 

Os generais Ahmed Awad Ibn Auf, do Sudão, Ahmed Gaid Salah, da Argélia e Khalifa Haftar, da Líbia, deveriam ter cuidado com o que desejam. Os desafios políticos e econômicos que virão com o sucesso são monumentais e não poderão ser resolvidos por ditaduras militares. Se não quiserem obstruir o caminho desejado pela população, eles deveriam ponderar que é de seu interesse escapar do ônus de governar.

Se estiverem prestando atenção aos acontecimentos das últimas semanas ou da década, os generais saberão o que levou à queda de seus predecessores: populações jovens, destemidas e politicamente ativas, exigindo o fim do desgoverno e a realização das suas aspirações econômicas crescentes. Saberão, também, que os manifestantes que conseguiram a deposição de Abdelaziz Bouteflika e Omar al-Bashir não se retirarão calmamente das ruas. A geração de seus pais concedeu às juntas militares nos anos 50 e 60 o benefício da dúvida. Hoje, argelinos, sudaneses e líbios têm mais conhecimento.

Qualquer general que queira governar essa população inquieta tem de se dispor a massacrar os dissidentes com uma força brutal, ou rapidamente demonstrar sua capacidade de resolver os problemas econômicos. É improvável que os Exércitos sudanês e argelino estejam dispostos ao massacre ou que seus líderes terão capacidade de solucionar os problemas.

Nos dois países soldados algumas vezes se juntaram às manifestações e em outros momentos protegeram os manifestantes contra outras forças de segurança. Mesmo que tenham sido exemplos dispersos, os generais terão dificuldade para retratar esses movimentos pró-democracia como uma ameaça existencial que justificaria uma campanha militar prolongada.

Bashar Assad, na Síria, pintou seus opositores como fundamentalistas sunitas determinados a exterminar as outras seitas. Abdel Fattah el-Sisi, do Egito, explorou o temor dos egípcios e dos aliados do Egito, de uma supremacia islamista. A campanha de Haftar, no leste da Líbia, foi vista como um ataque às ambições expansionistas do Estado Islâmico.

Mas os manifestantes sudaneses e argelinos não podem ser considerados sectários, muito menos terroristas. Qualquer repressão a esses indivíduos acarretará uma condenação internacional e sanções econômicas. As credenciais de Haftar como antiterrorista estão se apagando. Sua campanha contra Trípoli expôs suas ambições ditatoriais.

Se os senhores de guerra da Líbia até agora não demonstraram nenhuma aptidão para administrar a economia, os apoiadores de Haftar poderão ao menos alegar que ele ainda não teve oportunidade para mostrar sua competência. Os generais na Argélia e no Sudão não têm essa desculpa: como participantes dos regimes de Bouteflika e Bashir eles compartilham a culpa pela incapacidade que caracterizou suas economias.

Mesmo que proponham uma nova maneira de agir, terão pela frente desafios que estão além da sua compreensão: reformas dolorosas, incluindo corte de subsídios, eliminação de indústrias estatais, abertura dos mercados, solicitação de empréstimos e ajuda internacionais.

Argelinos, sudaneses e líbios serão mais pacientes com governos eleitos no combate aos problemas econômicos e menos inclinados a realizar protestos em massa. Nenhuma junta terá essa consideração. Qualquer general que refletir sobre esses e outros problemas que os aguardam à frente concluirá sensatamente que o poder, se tiver acesso a ele, não justificará os problemas que terá de enfrentar. 

Resta uma motivação primordial para eles conseguirem o poder: a autoproteção. Auf e Salah e outros iguais a eles sentem que precisam se agarrar ao poder para evitar investigações sobre seus delitos passados. Mas será melhor tratar esta questão com um governo civil que estará mais disposto a negociar se os generais neste momento agirem da maneira certa. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

É JORNALISTA

 

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