National Archives of Slovenia via The New York Times
National Archives of Slovenia via The New York Times

General da Gestapo trabalhou para a inteligência da Alemanha Ocidental, revelam documentos

Registros de inteligência dos EUA e da Alemanha obtidos pela emissora pública alemã ARD e compartilhados com o 'New York Times' revelam os esforços para ocultar o papel de Franz Josef Huber nos crimes do Terceiro Reich

Ronen Bergman / The New York Times, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2021 | 19h19

BERLIM - Um alto comandante da polícia secreta de Hitler, responsável pela deportação de dezenas de milhares de judeus, foi protegido pelas autoridades dos Estados Unidos e da Alemanha após a 2ª Guerra e, mais tarde, ingressou no serviço de inteligência externa da Alemanha Ocidental, que sabia sobre seu papel durante a guerra, revelam registros recém-divulgados.

No fim da guerra, o oficial Franz Josef Huber - que também ocupava um posto de nível geral na SS, a organização paramilitar nazista - liderava uma das maiores seções da Gestapo, estendendo-se pela Áustria e com funções no leste. Em Viena, após a conquista nazista, suas forças trabalharam em estreita colaboração com Adolf Eichmann nas deportações para campos de concentração e extermínio.

Eichmann acabaria sendo executado por seu papel na coordenação do assassinato de milhões de judeus. No próximo domingo é o 60º aniversário da abertura de seu julgamento em Jerusalém. Mas Huber nunca teve de se esconder ou fugir para o exterior, como muitos outros comandantes importantes do Terceiro Reich fizeram.

Ele passou as últimas décadas de sua vida morando em sua cidade natal, Munique, com sua família, sob seu próprio nome. E a explicação para essa estranha imunidade parece estar em sua utilidade nos conflitos de espionagem da Guerra Fria.

Documentos de inteligência dos Estados Unidos mostram que havia um grande interesse em recorrer à rede de Huber durante a guerra para recrutar agentes no bloco soviético, mesmo quando a Áustria estava tentando julgá-lo por crimes de guerra.

“Embora não estejamos de forma alguma esquecidos dos perigos envolvidos em brincar com um general da Gestapo”, afirmou um memorando da CIA de 1953, “também acreditamos, com base nas informações que agora temos, que Huber pode ser usado com lucro por esta organização". 

Os registros de inteligência dos EUA e da Alemanha recentemente divulgados revelam que ambos os países fizeram esforços para ocultar o papel de Huber nos crimes do Terceiro Reich e para impedi-lo de ser julgado. A emissora pública alemã ARD obteve os registros e os compartilhou com The New York Times. Eles foram apresentados em um documentário investigativo Munich Report, transmitido na Alemanha nesta terça-feira, 6.

O serviço de inteligência alemão, conhecido pelas iniciais BND, empregou Huber em tempo integral por quase uma década, dando a ele um disfarce que o fez parecer trabalhar para uma empresa privada. Passaram-se quase 20 anos após a guerra antes que os chefes da agência decidissem que não podiam mais tolerar a conexão. Um memorando de dezembro de 1964 advertia que a divulgação do segredo "frustraria os esforços da liderança do serviço para construir a confiança do governo federal e do público".

Esta não foi a primeira vez que Huber se adaptou a novos mestres.

Nos anos 1920 e no início dos anos 1930, como um jovem e talentoso policial em Munique, ele participou da vigilância de partidos políticos, incluindo os nazistas. Depois que Hitler assumiu o poder, em 1933, ele se tornou um zeloso nazista e, logo depois, uma figura importante da Gestapo, a temida força policial secreta da Alemanha nazista.

Os líderes nazistas que construíram essa força precisavam de policiais experientes, disse Michael Holzmann, filho de um nazista austríaco que por muitos anos pesquisou as atividades da Gestapo naquele país. “Huber aproveitou esta oportunidade e deixou de ser um pequeno investigador para se tornar um líder bem-sucedido do regime de terror da Gestapo na antiga Áustria”, disse ele.

Em março de 1938, depois que a Alemanha anexou a Áustria, Huber foi nomeado chefe da Gestapo da parte mais importante do país, incluindo Viena, a capital. Pouco depois, a Gestapo iniciou uma extensa caça aos dissidentes na Áustria, e Huber deu ordens "para prender judeus indesejáveis imediatamente, particularmente aqueles acusados de crimes, e transferi-los para o campo de concentração de Dachau". Poucos dias depois, os dois primeiros transportes de judeus deixavam Viena para o campo, com muitos mais a seguir.

Huber permaneceu em seu posto até o fim da guerra, recebendo cada vez mais autoridade. Durante esse tempo, 70 mil judeus austríacos que não puderam deixar o país foram assassinados, cerca de 40% da comunidade original, enquanto suas propriedades foram saqueadas pelos nazistas.

Eichmann confirmou em seu julgamento que estava envolvido na deportação de judeus, mas rejeitou se declarar culpado de genocídio, dizendo: "Não tive outra opção a não ser seguir as ordens que recebi".

Huber adotou uma abordagem diferente. Falando a um oficial do tribunal de crimes de guerra de Nuremberg em 1948 - que o entrevistou como testemunha, não como suspeito - ele disse que não sabia nada sobre o extermínio até o fim de 1944, quando seu vice lhe disse algo vago.

“Mas a evidência histórica pinta um quadro completamente diferente”, diz o professor Moshe Zimmerman, historiador e estudioso do Holocausto na Universidade Hebraica de Jerusalém. “Eichmann pode ter sido um rosto mais familiar para a comunidade judaica, mas aquele que compartilhava a responsabilidade de cometer o terror contra os judeus, realizar sua coleta, seu embarque forçado e sua deportação para os campos, foi a polícia e a Gestapo sob Huber.”

Huber também foi fotografado acompanhando o chefe das SS e da Gestapo, Heinrich Himmler, em uma visita ao campo de concentração de Mauthausen, na Alta Áustria, onde pelo menos 90 mil internos foram assassinados.

Criminoso de guerra sênior

Perto do final da guerra, Huber foi marcado como um criminoso de guerra sênior procurado pela inteligência dos EUA e parece ter antecipado o que poderia acontecer. Ele dedicou muito de seu tempo a lidar com agentes do Oriente, uma mercadoria que logo seria ainda mais valiosa.

As forças dos EUA prenderam Huber em maio de 1945.

Não há registros disponíveis sobre suas interações com a inteligência militar dos EUA durante os dois anos em que esteve sob custódia, mas em maio de 1947, apesar da abundância de evidências contraditórias, um investigador americano escreveu que Huber era “um policial justo e imparcial que executava suas funções sem preconceito partidário ou racial e político”. O documento prossegue afirmando que o general da SS "não era um adepto das ideologias do partido nazista" e o chama de "totalmente confiável".

Um mês depois, o comandante do campo de detenção dos EUA afirmou que a "diligência e cooperação de Huber foram muito apreciadas". Ele foi libertado em março de 1948.

Em dezembro de 1955, Huber alistou-se na Organização Gehlen, da qual nasceu o BND pouco depois.

“O BND recrutou muitos nazistas, mas quase ninguém tinha uma posição de destaque”, disse Stefan Meining, historiador e editor da televisão pública alemã que criou o documentário sobre Huber. “Eles sabiam exatamente que Huber não era um mesquinho assassino da Gestapo, mas um general da SS que se movia nos meios mais fechados do aparato terrorista nazista e era responsável pela morte de dezenas de milhares de judeus e opositores do regime.”

Bodo Hechelhammer, o historiador-chefe do BND, entrevistado no documentário, confirmou que Huber era um funcionário da agência e explicou que a busca por pessoal de inteligência qualificado com uma clara inclinação anticomunista levou ao recrutamento “com muita frequência de ex-nazistas". A agência não respondeu a um pedido de comentários adicionais. A CIA também não quis comentar.

No início de 1964, temendo a divulgação, o BND concluiu que “não era mais concebível” manter Huber, para que seu papel “não colocasse o serviço em risco”, e decidiu demiti-lo.

Mas, como Huber não mentiu para seus chefes sobre seu passado, “nenhuma falha pôde ser provada” para justificar sua demissão, então ele foi dispensado em licença remunerada.

Ele se aposentou três anos depois, aos 65 anos, e recebeu uma pensão do serviço público alemão até sua morte, aos 73 anos.

 

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