General da guerra fria acredita que EUA sempre têm razão

Ainda é cedo demais para entrevistar o general Vernon A. Walters e, lamentavelmente, não estou muito bem preparado para enfrentá-lo. Na noite anterior, ele travou uma dura luta em dez assaltos com Tim Sebastian no programa World´s Hard Talk, da BBC - ele afirma ter sido "emboscado", atacado de surpresa - e agora deve pensar que esta é uma simples luta de "peso-livre". Como certas pessoas, com 84 anos e em cadeiras de rodas, ele dá murros pesados... Walters, ex-vice-diretor da CIA, ex-embaixador dos Estados Unidos na Alemanha, ex-adido militar em quase toda parte e o homem que supostamente organizou golpes no Irã em 1952, no Brasil em 1964 e no Chile em 1973, é o último dos combatentes da guerra fria, um direitista americano convencido de que sempre teve razão. Walters está em Londres para divulgar seu livro The Mighty and the Meek (Os Poderosos e os Obedientes), uma série de retratos, às vezes comprometedores, de pessoas com as quais ele se familiarizou em 50 anos de guerra e diplomacia: Roosevelt, Reagan, Bush - o mais velho -, Thatcher e, acima de todos, Richard Nixon e Henry Kissinger. Os outros, na verdade ele conhecia pouco, mas a década de 70 foi o apogeu de seu poder e ele conheceu intimamente estes dois últimos homens . As lembranças de Kissinger são as melhores do livro. Particularmente interessante é a maneira como ele explica porque o ex-secretário de Estado, nascido na Alemanha, falava inglês com sotaque pesado, enquanto seu irmão, que fugira para os Estados Unidos com ele na década de 1930, não tinha nenhum sotaque estrangeiro: "Henry nunca ouve ninguém." Walters é extremamente amável com todos os que constituem o objeto de suas memórias - até mesmo Nixon é retratado como um herói -, mas ele achava duro engolir a arrogância de Kissinger. E Walters sintetiza isso com a frase de dois gumes: "Na realidade, ele era quase tão bom quanto pensava ser." Walters, que entrou no Exército americano como soldado raso em 1941 e, meio século depois, tornou-se general, tem um modo de falar incisivo e inteligente, uma voz estridente, e o que poderíamos chamar de uma visão clara do mundo: a América é grande e o mundo deveria ser grato por isso. Walters não tem nenhum escrúpulo em relação à intervenção americana no Afeganistão ou em qualquer outra parte do mundo: "Não quero que os Estados Unidos sejam um policial global, mas não quero também viver num mundo onde não haja polícia nenhuma. Esta é a vantagem da ONU. Nós não saímos por aí fazendo isso por nossa própria conta. Para surpresa dos europeus, não reagimos como crianças zangadas. Consultamos nossos aliados, conversamos com todos os outros. E depois fizemos algo e o fizemos de acordo com um plano muito rigoroso." Será que Walters entende esse temor do poderio americano? "Sim, eu entendo tudo isso que acontece pelo mundo", afirma ele. "É o mesmo temor do poderio britânico que existia no século 19. Desde Waterloo até a explosão da 2.ª Guerra Mundial, a Inglaterra tinha exatamente o mesmo tipo de poder. Vocês não se lembram, mas eu me lembro." Walters, cujos pais eram ingleses, foi educado pelos jesuítas no Stonyhurst College em Lancahire, no nordeste da Inglaterra e passou quase toda a vida fazendo algo. Ele nunca se casou - "Namorei duas mulheres, mas elas casaram-se com outros" -, por isso ele desposou o ideal de vencer na guerra e na paz. Walters fala fluentemente meia dúzia de línguas, incluindo o português. Passou os primeiros anos de sua vida em Paris e com 12 anos já sabia falar quatro línguas. Isso o transformou num assessor, intérprete e diplomata de valor incalculável, facilitando sua rápida ascensão na Otan e, mais tarde, na CIA. Depois dos períodos que passou no Irã e no Brasil (ele nega ter tido qualquer envolvimento na derrubada de presidentes) mudou-se para Paris como adido militar. Mas insistiu em ir primeiro para o Vietnã: "Eu disse: se for para Paris depois de festas e coquetéis no Rio de Janeiro, enquanto todo o Exército americano está envolvido no Vietnã, serei objeto de riso e zombaria." Realizou 139 missões aéreas em helicópteros no Vietnã e depois foi para Paris. Em relação ao Vietnã, Walters foi mais eufórico do que propriamente um linha-dura: "Achava que poderíamos ganhar a guerra desembarcando duas divisões em Hy-Phong, para ir até Hanói e dizer ao vietcongue: ´Ok, nós temos Saigon. Hanói, você quer fazer seu jogo no mato, então vá jogar no mato....´ Eu estive em cinco guerras e sempre acreditei que a vitória é fruto da máxima aplicação de força no mínimo espaço de tempo. Nós deveríamos ter ido ao coração e não à ponta dos dedos." Mas se a política de Walters tivesse sido seguida, será que a guerra ainda não estaria continuando? "Não, nós teríamos agora um Vietnã democrático, provavelmente tão próspero quanto Cingapura ou Malásia, em vez de um asilo de indigentes do Sudeste Asiático. Nós entregamos 39 milhões de vietnamitas à ditadura totalitária, enquanto as pessoas estavam apertando as mãos e comemorando com alegria a saída de Pinochet, que voluntariamente renunciou ao governo do Chile." Walters acredita que Pinochet foi injustamente aviltado por ter derrubado Salvador Allende. "Antes que Pinochet tomasse a decisão, a Câmara dos Deputados, o Senado e o Supremo Tribunal do Chile pediram às Forças Armadas que fizessem alguma coisa para acabar com as repetidas violações da Constituição por parte de Allende." Dez anos mais tarde, Walters, então embaixador nas Nações Unidas, foi enviado ao Chile para dizer a Pinochet que estava na hora de renunciar. Pinochet se recusou. "Ele me disse: ´Walters, você foi enviado aqui para me dizer que eu entregue o Chile a uma democracia. Vou fazer isso quando o país estiver pronto para apoiar uma democracia, mas, francamente, sou um juiz melhor para avaliar isso do que qualquer pessoa do Departamento de Estado.´ E, quando chegou a hora, ele entregou o poder." Apesar de toda sua dureza, Walters pode ser muito capaz de compreender e perdoar. Ele se sente feliz em perdoar Nixon por seus julgamentos errados em relação a Watergate. "Nixon foi o presidente mais inteligente dos Estados Unidos, mas cometeu um erro fatal. Ele me consultou a respeito de Watergate e eu lhe disse: ´Senhor presidente, todas as pesquisas mostraram que o senhor ganharia uma eleição em todos os Estados, com exceção de um, então o que estes lunáticos estiveram fazendo, ao invadirem o comitê nacional democrata? O que eles esperavam encontrar ali? Existem 150 mil documentos arquivados. Senhor presidente, se o senhor tivesse convocado a imprensa e dito que dois de seus subordinados, levados por uma lealdade mal orientada, haviam realizado atos incompatíveis com suas funções, então o senhor teria pedido e obtido suas renúncias, e isso teria encerrado o caso.´ Walters, como vice-diretor da CIA durante a crise, quase foi sugado para dentro das águas sujas que envolveram o governo. "Eu estava aqui havia seis semanas quando o advogado legal da Casa Branca (John Dean) me telefonou e disse: ´Gostaríamos que você pagasse os arrombadores do prédio Watergate com fundos secretos da CIA´. Eu disse que a CIA não tinha nada a ver com isso e não iria implicar a agência nisso. Ele me pressionou por três vezes. Então eu disse: ´Senhor Dean, se o senhor me telefonar de novo irei ao presidente para apresentar minha renúncia e dizer-lhe porque vou convocar uma entrevista coletiva.´ Ele nunca mais falou comigo. Mas recebi uma medalha da CIA por tê-la salvo." Mas então porque Walter não conseguiu o cargo mais alto dessa organização? "O Congresso mantinha então uma atitude muito antimilitar por causa do Vietnã. Eles não teriam confirmado um oficial militar para esse cargo." Walters traz em sua companhia seu sobrinho Peter, um homem muito alto, ex-membro do Exército. Durante a entrevista, ele ficou lendo o jornal The Telegraph e ficou horrorizado com os ataques à liberdade de imprensa no Zimbábue. "Talvez devêssemos intervir também ali", Peter arriscou-se a dizer. Pensei que ele estivesse brincando, mas depois percebi que não. A cavalaria global está pronta para agir...

Agencia Estado,

05 Janeiro 2002 | 20h58

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