General desertor tem dificuldade em virar porta-voz da oposição

Bastidores: Associated Press

O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2012 | 03h05

O desertor mais famoso da Síria ofereceu-se ontem para atuar como elo entre os vários segmentos da oposição. As declarações de Manaf Tlass, general sírio que desertou, foram publicadas em um jornal saudita por ocasião da reunião das facções da oposição no Catar. As forças que lutam contra o regime de Damasco tentam chegar a um acordo sobre a Síria pós-Assad.

"Tentarei ajudar a unir todas as pessoas honradas dentro e fora da Síria para montar um plano que nos permita sair da crise, mesmo que não haja uma função específica para mim", disse Tlass ao jornal Al-Sharq Al-Awsat.

Ex-comandante da Guarda Revolucionária e filho de um ex-ministro da Defesa, ele desertou há três semanas. Embora o regime tenha permanecido em grande parte intacto no decorrer do levante, que dura 17 meses, o ritmo das deserções aparentemente acelerou.

No entanto, alguns membros da oposição mostram-se profundamente céticos em relação a Tlass, por considerarem que ele foi excessivamente próximo ao regime. Para Mahmoud Othman, do Conselho Nacional Sírio (CNS), Tlass "traria de volta o regime sob uma nova imagem". "Os que recentemente desertaram não deveriam participar da liderança num período de transição", disse Othman. "Depois, o povo sírio escolherá quem quiser por meio das eleições."

Membros do conselho reuniram-se ontem, mas não tomaram nenhuma decisão sobre um possível candidato para ocupar o lugar de Assad, informou Burhan Ghalioun, ex-líder do grupo. O CNS age como a face internacional da revolução, mas não conseguiu unir sob uma única bandeira as dezenas de facções rebeldes.

Tlass disse que estava na Arábia Saudita - cujo apoio financeiro é fundamental para a rebelião - para avaliar o tipo de assistência que o país rico em petróleo poderá dar para a criação de uma nova Síria. Ele afirmou que não quer um futuro da Síria com Assad no comando. A última vez que ele viu o presidente foi há cerca de um ano.

O Ministério do Exterior da Turquia também anunciou uma visita surpresa de Tlass na quinta-feira, quando participou de um jantar com o chanceler Ahmet Davutoglu, que tem criticado duramente o antigo aliado sírio. O diretor da agência de inteligência da Turquia e funcionários de alto escalão da chancelaria do país também estavam no jantar.

Desde sua deserção, Tlass falou publicamente apenas duas vezes, ambas para a imprensa controlada pelo regime saudita. O general desertor, que era amigo pessoal de Assad, disse ao jornal que o regime tem muitas pessoas boas sem sangue nas mãos e as instituições do país deveriam ser preservadas. Ele contou ainda que tentou convencer o presidente a não dar ouvidos aos assessores de segurança que recomendavam uma violenta repressão do levante. Tlass falou que desertou quando percebeu que o regime não desistiria do seu objetivo de esmagar a oposição.

"Às vezes, insistimos em aconselhar um amigo e, depois, descobrimos que não obtivemos nenhum efeito. Então preferimos nos distanciar", afirmou. Tlass levava um estilo de vida extravagante - ele e a mulher eram figuras carimbadas na vida da alta sociedade síria. Diversas vezes ele falou em favor de Assad. O desertor era também um sunita poderoso no governo dominado pela seita alauita, uma ramificação do Islã xiita.

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