General é favorito para presidência do Egito

Referendo constitucional fortalece Abdel-Fattah al-Sisi, artífice do golpe contra Morsi; eleições devem ocorrer este ano

LUIZ RAATZ, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2014 | 02h01

A aprovação do referendo constitucional no Egito na semana passada consolida o fortalecimento do general Abdel-Fattah al-Sisi à frente da retomada de poder do Exército diante do governo deposto de Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana. A expectativa, entre analistas e o público egípcio em geral, é a de que Sisi se candidate à presidência nas eleições que deverão ocorrer este ano.

Desde antes de sua ascensão a ministro da Defesa, ainda com Morsi no poder, durante o golpe de julho e ao longo do governo interino, discrição e mistério têm sido as principais características do general, que concede raras entrevistas e faz poucos discursos. Aos 59 anos, pouco se sabe sobre sua carreira no Exército, apenas que não lutou em nenhuma das grandes guerras do Egito no século 20 e galgou degraus na hierarquia castrense em tempos de paz.

Quando entrou para o serviço militar, em 1977, o filho de um comerciante do bairro de Gamalya encontraria um Exército às vésperas de uma transformação. Graças ao acordo de paz entre Israel e Egito, em 1979, militares egípcios ganharam uma linha de crédito anual de US$ 1 bilhão dos EUA.

Uma geração abaixo de Anuar Sadat e seu sucessor, Hosni Mubarak, Sisi cresceu com a transformação do Exército em principal ator da economia e da política egípcia. Turbinados pela ajuda bilionária, os militares passaram a controlar setores cruciais da economia. Estima-se que os militares controlem entre 15% e 40 % da economia.

Sisi comandou batalhões e chefiou a zona militar do norte, antes de se tornar vice-diretor do Departamento de Inteligência e Reconhecimento. Até ser nomeado ministro da Defesa por Morsi, em agosto de 2012, era desconhecido. Dizia-se, por seu comportamento de devoto ao Islã, que seria fiel à Irmandade Muçulmana, numa resposta à antiga cúpula do Supremo Comando das Forças Armadas, ligada a Mubarak.

"Sabemos muito pouco sobre Sisi, além de sua preferência por discursos de um fundo bastante emocional. Agora, como ele pensa ou como ele se sairia como líder é difícil de prever", disse ao Estado o analista político egípcio Mohamed al-Dahshan. "Sabe-se que ele nunca lutou numa guerra, o que é uma característica distinta da figura típica do comandante militar que assume o poder."

Encarregado de fazer seu perfil para a revista americana Newsweek, o repórter Mike Giglio tentou conversar com seus parentes em Gamalya. Na loja da família todos foram instruídos a não falar. Sabe-se que ele é um dos três filhos de Hassan al-Sisi e a família é religiosa. "A grande vantagem de Sisi é que os egípcios adoram uma figura de poder paterna. Se ele vai saber liderar o país, ninguém sabe, mas o mistério e a discrição têm sido seu grande trunfo."

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