General golpista será candidato no Egito

Sisi é nomeado marechal e confirmado na disputa presidencial, antecipada para abril

AP, REUTERS e AFP, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2014 | 02h03

CAIRO - Logo após ser promovido de general a marechal, Abdel-Fattah al-Sisi, militar que liderou o golpe que derrubou o presidente Mohamed Morsi do cargo em julho passado, recebeu o apoio da cúpula das Forças Armadas ontem para se candidatar à presidência do Egito. O anúncio oficial deve ser feito nos próximos dias.

Sisi obteve o respaldo do Conselho Supremo das Forças Armadas (SCAF, na sigla em inglês) horas depois de ter sido promovido ao cargo de marechal de campo pelo presidente interino Adli Mansour. "A cúpula das Forças Armadas aprovou a candidatura", disse uma fonte do governo. "A decisão era esperada e é o primeiro passo antes da renúncia dele ao cargo e a confirmação da candidatura, o que deve ocorrer em breve."

A candidatura consolida a ascensão de Sisi. Logo após a derrubada de Morsi, que o nomeara meses antes ministro da Defesa, Sisi liderou uma onda de repressão contra a Irmandade Muçulmana, o grupo político do presidente, que deixou cerca de mil mortos. Com discursos emotivos, o militar viu sua popularidade aumentar. Apoiadores o veem como uma figura capaz de lidar com a instabilidade política associada a uma crise econômica.

Ainda ontem, Sisi foi promovido de general para marechal pelo presidente interino Adli Mansour, em uma medida que, segundo analistas, tem o objetivo de fazê-lo deixar o Exército no cargo mais alto da carreira para concorrer na eleição prevista para abril.

De acordo com o analista Karim Bitar, a promoção de Sisi é uma etapa nova na construção política e midiática de um personagem. "Faz parte do mito do salvador da pátria, do herói", disse. "Geralmente, essa é uma honra outorgada depois de uma grande vitória militar. Para o regime, a repressão atual e a 'guerra contra o terrorismo' equivalem a uma vitória no campo de batalha."

No fim de semana, as eleições presidenciais, que deveriam ocorrer no fim do ano, foram antecipadas para antes da votação que definirá o novo Parlamento do país. A votação deve ocorrer na segunda quinzena de abril. As legislativas tendem a ser feitas até julho.

Em um discurso televisionado à nação, Mansour disse que pedirá para a comissão abrir as portas para candidatos se registrarem, conforme estipulado pela nova Constituição, adotada no início de janeiro. Mansour falou que o aumento de ataques terroristas não irá deter a transição do país para a democracia.

O fim de semana foi marcado por uma onda de violência que deixou 49 mortos, 250 feridos e mais de 1 mil detidos em confrontos entre a polícia, opositores e partidários de Morsi.

Mistério. Antes de sua ascensão ao cargo de ministro da Defesa, ainda com Morsi no poder, durante o golpe de julho do ano passado e ao longo do governo interino, a discrição e o mistério têm sido as principais característica do general, que concede raras entrevistas e faz poucos discursos ao público.

Aos 59 anos, pouco se sabe de detalhes de sua carreira no Exército, apenas que não lutou em nenhuma das grandes guerras do Egito no século passado (em Suez, em 1956, e contra Israel, em 1967 e 1973) e galgou degraus na hierarquia castrense em tempos de paz.

Ao ser promovido para a cúpula do Exército, ainda na época dos protestos da Praça Tahrir, Sisi manteve-se à margem da turbulenta transição entre a junta militar que convocaria novas eleições e a vitória da Irmandade Muçulmana, com Morsi à frente da chapa, em 2012.

Em 2012, chegou ao comando do Ministério da Defesa, para meses depois, comandar a derrubada de Morsi em julho do ano passado.

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