General que deixou governo é favorito para lugar de Assad

Por ser alauita como o ditador sírio, Ali Habib teria maior facilidade de aglutinar população; resta saber se ele está vivo

DAVID KENNER / FOREIGN POLICY , O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2013 | 02h15

Era 4 de setembro e os tambores de guerra soavam na Síria. Os EUA estavam prestes a lançar ataques contra as forças do presidente Bashar Assad. Membros das famílias pertencentes à elite política e econômica do país fugiram para Beirute, para escapar dos mísseis de cruzeiro. E correram rumores de que a oposição síria conseguira a mais importante deserção nas fileiras do regime: o ex-ministro da Defesa Ali Habib.

Habib é alauita, ramo do islamismo ao qual pertence a família Assad, e militar de carreira. Ele prestou serviços no Exército sírio durante mais de 50 anos, chegando ao posto de general. Agora, ele pode estar se preparando para uma nova função - apresentando-se como líder do governo transitório na Síria pós-Assad.

Depois da enxurrada de notícias sobre a deserção de Habib, as informações sobre seu paradeiro e atividades cessaram. A mídia estatal síria informava que ele permanecia em sua casa na cidade de Safita, área central alauita, mas não havia nenhuma prova visual de que ele estava na Síria. No entanto, aqueles que admitiam ter conhecimento da deserção de Habib davam informações confusas sobre seu destino.

Em entrevistas, ex-autoridades americanas e sírias afirmaram não ter prova de que Habib havia fugido da Síria, ao mesmo tempo que um diplomata turco também afirmava não ter informações confirmando a deserção do general. Contudo, duas fontes sírias da oposição e uma autoridade árabe - citando fontes diplomáticas ocidentais e turcas - afirmaram que Habib rompera com o regime e fugira para a Turquia, onde, acreditavam, estaria agora trabalhando com potências internacionais para estabelecer os planos para uma transição política na Síria.

Se essas notícias forem exatas, existem diversas razões para que Habib seja considerado o homem que conduzirá a Síria na transição após a queda do regime da família Assad. Oficial de alta patente, várias vezes condecorado, ele poderá preservar a união das Forças Armadas e acredita-se que não tenha tido um papel muito ativo na carnificina que arrasou o país nos dois últimos anos e meio.

Também é alauita, como os membros da família Assad, e poderá impor-se aos integrantes da comunidade alauita que, até o momento, não tiveram outra alternativa senão apoiar Assad até o terrível fim. "A comunidade está diante de um dilema: como poderemos desatrelar o nosso vagão do clã Assad-Makhlouf e ainda preservar nossa segurança?", disse o embaixador Fred Hof, pesquisador do Conselho Atlântico e ex-assessor especial do presidente Barack Obama na questão da Síria. "E parte da resposta poderia ser alguém como essa personalidade emergente que esteja disposto a dizer: 'É seguro saltar'".

A história de Habib poderia dar a muitos membros da oposição síria um motivo de reflexão. Até 2011, Habib tinha credenciais impecáveis como leal soldado do regime Assad. Sua ascensão foi constante por todos os degraus da hierarquia durante a presidência de Hafez Assad. Ele comandou as tropas sírias enviadas ao Kuwait para participar da coalizão liderada pelos EUA que escorraçou o líder iraquiano Saddam Hussein do país, em 1991. Quando Bashar Assad assumiu o poder em 2000, Habib foi um dos integrantes da velha guarda mantidos pelo novo presidente, que o promoveu a chefe do Estado-Maior do Exército em 2004 e depois a ministro da Defesa, em 2009.

No governo de Assad, o general sempre defendeu a linha oficial do regime diante do público interno e externo. Por exemplo, em outubro de 2009, a mídia estatal noticiou que Habib alertava sobre o fato de a Síria ter sido "alvo de maquinações colonialistas sionistas", mas que, "graças à prudência do presidente Assad, a Síria as frustrara". Mesmo em março de 2011, no início do levante, a mídia oficial síria referiu-se a afirmações de Habib, segundo o qual os inimigos do país "negligenciaram o fato de que o povo sírio fortaleceu a unidade nacional com o sangue".

Entretanto, à medida que a situação síria escapava do controle, fontes internas e externas afirmaram que Habib logo discordara da decisão de Assad de esmagar o levante com a força militar. Segundo um ex-oficial, Habib resistiu energicamente às tentativas de envolver o Exército na repressão do incipiente movimento de protesto. Onde estava a temida máquina da inteligência interna, ele indagava, e por que os defensores do regime se mostraram impotentes diante da crise para a qual deveriam estar preparados?

Ao mesmo tempo, membros da oposição disseram que Habib decidiu adiar os planos para lançar ataques militares contra os manifestantes sírios nas cidades de Hama e Homs. Kamal Labwani, o primeiro a informar que Habib fugira para a Turquia, afirmou que o ministro da Defesa também facilitara a viagem do embaixador americano Robert Ford para Homs, em julho de 2011.

Na época, a oposição ainda não dispunha de armas e esperava a repetição dos acontecimentos do Egito e da Tunísia, onde os militares se uniram aos revoltosos para depor os ditadores de ambos os países, depois dos protestos populares. Personalidades públicas contrárias a Assad promoveram uma campanha nacional para convencer Habib a abandonar o regime, pedindo que ele ocupasse algum cargo no governo interino que substituiria o regime de Assad.

Radwan Ziadeh, membro do Conselho Nacional Sírio, disse que a oposição optou por Habib não apenas porque era o ministro da Defesa, mas também porque tinha fortes vínculos internacionais desde a época em que liderara as forças sírias no Kuwait, durante a primeira Guerra do Golfo. Mais importante, segundo Ziadeh, é o fato de que Habib logo entrou em conflito com Assad em razão dos planos do regime de reprimir violentamente os protestos em Hama. "Houve uma discussão entre Habib e Assad, e ele acusou Assad de repetir o que acontecera anteriormente em Hama", disse Ziadeh, referindo-se ao massacre ocorrido em 1982 na cidade, no qual morreram, ao que se calcula, 20 mil pessoas. "Depois disso, não tivemos mais nenhuma notícia dele."

Alguns observadores acharam curioso que a oposição fosse a público pedindo a Habib que desertasse, sugerindo que isso só poderia aumentar a suspeita do regime de que ele pudesse representar uma ameaça. "Não é uma coisa muito inteligente do ponto de vista operacional", disse Hof. "A apólice do seguro de vida de uma pessoa entra em vigor muito rapidamente quando ela passa a atrair esse tipo de atenção."

Habib foi destituído em agosto de 2011. Na época, houve a maior reformulação do governo sírio desde o início da revolta. Ele logo desapareceu do cenário político e começaram a aparecer boatos sobre o seu destino. A imprensa oficial afirmou que ele deixara o cargo porque "estava doente há algum tempo e, recentemente, seu estado de saúde se agravara". Alguns observadores acharam que Assad preferia seu substituto, Dawoud Rajiha, porque era cristão e, portanto, útil para aumentar seu apoio na comunidade. Outros acreditaram que Habib tivesse sido assassinado: sites da oposição síria noticiaram que ele fora encontrado morto em sua casa depois de sua destituição, embora ele logo tenha aparecido na televisão para refutar os boatos.

É possível que representantes da oposição síria estivessem dispostos a acolher Habib no início da guerra contra o regime, mas após dois anos e 100 mil mortos, é provável que sua acolhida agora fosse mais fria. "Toda esta discussão sobre as pessoas que estão com Assad e poderiam ir embora - agora é tarde demais", disse Ziadeh. "A situação é muito complicada, não pode ser discutida desta maneira. As instituições precisam ser reformuladas."

Entretanto, talvez a oposição no exílio não tivesse outra escolha. Sua influência na Síria, que sempre foi modesta, sofreu outro golpe na terça-feira, quando os grupos rebeldes islamistas e os afiliados ao Exército Sírio Livre emitiram uma declaração afirmando que não reconheciam a coalizão da oposição ou seu governo interino. Eles reivindicaram um sistema político no qual a lei islâmica deve prevalecer. No caso de haver um acordo entre Moscou e Washington, tanto a oposição quanto Assad poderão também ser pressionados por seus financiadores no exterior a aceitar uma transição política o mais rapidamente possível.

Além disso, há sinais de que Obama procura uma personalidade com o currículo de Habib. Em seu discurso diante na Assembleia-Geral da ONU, na terça-feira, Obama disse que as potências internacionais que se opõem a Assad devem convencer a oposição de que "o povo sírio não pode permitir o colapso das instituições" e um acordo político deve dirimir "os temores e as preocupações legítimas dos alauitas e de outras minorias". Não são muitas as personalidades políticas sírias capazes de realizar esta façanha. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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