General temia 'um Vietnã na América Latina'

Figueiredo disse a Reagan que os argentinos tinham agido de forma errada ao ocupar as Ilhas Malvinas

BRASÍLIA, / M.M., O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2012 | 03h03

A presidente Dilma Rousseff vai se encontrar pela primeira vez, na próxima semana, em solo americano com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, para discutir uma agenda bilateral entre os dois países. O encontro ocorrerá há exatos 30 anos da conversa entre os presidentes das duas nações que teve como pauta central o conflito armado no Cone Sul. Em 12 de maio de 1982, o general João Baptista Figueiredo foi recebido na Casa Branca pelo presidente Ronald Reagan e manifestou toda sua preocupação com os efeitos da Guerra das Malvinas.

Para Figueiredo, existia o risco de que o acirramento do conflito fizesse com que a Argentina pudesse virar o "Vietnã da América Latina". "Na realidade, a única a ganhar seria a União Soviética", declarou o general brasileiro a Reagan.

Papéis secretos do governo militar brasileiro mostram toda a franqueza que caracterizava o estilo do presidente Figueiredo. Para Reagan, ele reconheceu que os argentinos tinham agido de forma errada ao ocupar as Ilhas Malvinas, mas não queria acirrar ainda mais os ânimos tornando pública essa posição.

Segundo arquivo do acervo do Conselho de Segurança Nacional, classificado como ultrassecreto, Figueiredo afirmou a Reagan: "Não posso dizer aos argentinos que eles foram violentos". Ele reconheceu que "os argentinos podem ser difíceis", acrescentando, em seguida, que "os argentinos são particularmente difíceis quando confrontados".

Segundo o documento, Figueiredo disse a Reagan que "os argentinos sabem que não aprovamos o ataque às Malvinas". "Nada nos pediram, mas fizemos com que vissem o perigo da situação", disse. "Dissemos aos argentinos, em várias ocasiões, que não usassem a força, mas não nos consultaram quando fizeram. Dissemos a eles que não fizessem isso, pois no recurso à força não teriam o apoio brasileiro", acrescentou.

Só que o general brasileiro disse a Reagan que considerava desproporcional o tamanho da força militar utilizada como reação pelos ingleses e estava levando a opinião pública a simpatizar com a causa argentina. Nessa ocasião, o navio argentino General Belgrano já tinha sido afundado pelos ingleses no conflito.

"Começa a surgir daí uma aversão aos Estados Unidos e aos ingleses por representarem uma força muito maior contra uma Argentina inferiorizada", disse o general brasileiro.

Reagan concordou e afirmou que "várias vezes pedira aos ingleses que não exagerassem no uso da força". "Dissemos isso a eles e vamos continuar a lhes dizer", garantiu.

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