Gênova mostra divisão entre manifestantes

No decorrer da história, os movimentos de protesto socialbem-sucedidos tiveram uma coisa em comum - uma mensagem nítida, simples e objetiva. Quer tenha sido o movimento em defesa dos direitos femininos, quer tenha sido o movimento contrário à guerra do Vietnã, a mera pronúncia do nome imediatamente trazia à mente quem eram os manifestantes e qual era seu objetivo. O que chama a atenção em relação aos manifestantes presentes àsreuniões desde o encontro da Organização Mundial de Comércio em Seattle de 1999 à reunião de cúpula do G8, esta semana em Gênova, é que eles tendem a ser chamados apenas de "os manifestantes" ou "os manifestantes antiglobalização", o que, em nenhum dos casos, evoca muita coisa. Ser contra à globalização é ser contra tanta coisa - deste os telefones celulares aos Big Macs passando pelo comércio global - que isso acaba não tendo nenhuma conotação específica. Esse é o motivo pelo qual os manifestantes contra a globalização têm feito muito barulho mas nada que tenha melhorado a vida de alguém.O que intriga em relação à conferência de cúpula de Gênova, é quemuitos dos grupos ativistas sérios que participaram de protestosanteriores chegaram à conclusão que quebrar janelas do McDonald´s ou apenas dizer "não" não compõe a estrutura de um movimento de protesto.Eles acabaram reconhecendo que, se eles têm algum esperança de colher os frutos da atenção que atraíram para os problema da globalização, precisam decidir exatamente contra o que estão protestando, porque, na realidade, os ativistas se encaixam em duas amplas categorias: aqueles que pensam que a questão é "se globalizarmos" e querem paralisar a globalização no ponto em que está imediatamente e aqueles que entendem, como eu sustentaria, que a globalização é, em grande parte, movida pela tecnologia -a Internet aos satélites, do telefone celular aos PCs - qual está encolhendo o mundo de uma tamanho médio para um tamanho pequeno, quer gostemos ou não, e, consequentemente, a questão é"como globalizamos".Até agora, esses dois grupos têm se misturado: anarquistas eresquícios de marxistas que simplesmente estão buscando maneiras de destruir gradualmente o capitalismo de uma forma nova e sindicatos protecionistas que se aproveitam de estudantes universitários bem-intencionados para parar com o livre comércio são lançados nas ruas juntamente com ambientalistas que acreditam que o comércio, o crescimento e o verde podem andar juntos; grupos de combate à pobreza que compreendem que a globalização adequadamente administrada pode ser a melhor escada para os pobres saírem da miséria; e grupos sérios que lutam pelo bem-estar social e têm idéias úteis sobre o perdão da dívida e a legislação trabalhista em um mundo globalizante. Como os grupos "se globalizarmos" tendem a ser mais ruidosos eviolentos, cada vez mais eles vêm encobrindo a voz dos grupos "como globalizamos". Ao fazer isso, criaram a falsa impressão de que "o povo" acredita que a globalização é totalmente ruim e nunca poderá funcionar para os pobres, quando, na realidade, ela tem tantoelementos de capacitação e enriquecimento como elementos deincapacitação e empobrecimento, e tudo depende como é administrada.Se você acha que a globalização é totalmente boa ou totalmente má, não entendeu nada. Felizmente, muitos dos grupos sérios e líderes governamentais dacorrente "como globalizamos" não estão mais dispostos a cedersupremacia moral aos grupos "se globalizamos" mais insensatos, e você viu em Gênova, pela primeira vez, uma divisão entre os dois. Alguns grupos sérios, tais como Amigos da Terra, Ajuda Cristã, Jubileu 2000 e Oxfam, vêm se distanciando dos protestos violentos e insistindo em códigos de conduta. "O espaço político em torno das grandes conferências internacionais vem sendo seqüestrado por aqueles que querem praticar a violência", disse ao The Finacial Times, Justin Forsyth, diretor de política da Oxfam. "É contraproducente. Eles estão roubando o espaço dos que querem uma mudança positiva".O primeiro-ministro Tony Blair, da Grã-Bretanha, disse que as pessoas tinham sido "condescendentes demais" em relação aos manifestantes violentos": "Se a população conhecesse os pontos de vista deles, discordaria". E o presidente Bush declarou, justificadamente que "aqueles que protestam contra o livre comércio querem negar (aos pobres) sua grande esperança de escapar da pobreza".Esta divisão entre as forças "se globalizamos" e as forças "comoglobalizamos" é um momento estratégico importante que deve seralimentado - não pelo que representa em si mas realmente para se fazer algum progresso. Os ativistas sérios conseguiram mostrar que importa a forma como glolizarmos, mas eles podem fazer uma diferença somente se projetarem soluções em parceria com grandes empresas e governos. O momento é propício para um líder mundial que possa juntá-los.

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