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Qilai Shen/The New York Times
Qilai Shen/The New York Times

Geração de jovens avessa ao trabalho duro desafia regime comunista chinês

Governo censura blogs e menções ao ‘lying flat’, termo símbolo do movimento que exalta o ‘ficar deitado’; a expressão ganhou milhares de adeptos irresignados com pressão estatal por produtividade, em país com jornada de até 12 horas, seis dias por semana

Elsie Chen, The New York Times, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2021 | 23h59

Há cinco anos, Luo Huazlong descobriu que gostava de não fazer nada. Deixou o emprego numa fábrica, fez um percurso de dois mil quilômetros de bicicleta da Província de Sichuan até o Tibete e decidiu que iria se virar com empregos temporários e US$ 60 por mês das suas economias. Ele chamou o seu novo estilo de “lying flat”, algo como “ficar deitado”.

“Estou relaxando”, disse Luo, de 31 anos, numa postagem no seu blog em abril. “Não acho que tenha algo de errado com isso”.

Ele deu o título de “Ficar deitado é justiça” para o seu post, colocando uma foto dele em sua cama num quarto escuro com as cortinas fechadas. Não demorou muito e a sua postagem começou a ser comemorada pelos millenials chineses como um manifesto de oposição ao consumismo. “O termo “lying flat” viralizou e desde então se tornou uma expressão mais ampla sobre a sociedade chinesa.

Uma geração atrás, o caminho para o sucesso na China era trabalhar duro, casar-se e ter filhos. O autoritarismo do país era visto como uma troca justa à medida que milhões saíam da pobreza. Mas com os empregados trabalhando mais horas e o custo da habitação aumentando mais rápido do que os salários, muitos jovens temem ser a primeira geração a não se sair melhor do que seus pais. E vêm contestando a narrativa de prosperidade do país, recusando-se a participar dela.

A postagem de Luo no seu blog foi removida pelos censores que a consideraram uma afronta às ambições econômicas de Pequim. Menções ao “lying flat”– ou “tangping” em mandarim – são restringidas fortemente na internet chinesa. Uma contranarrativa oficial também surgiu, incentivando os jovens a trabalhar duro para o bem do futuro do país.

“Depois de trabalhar por tanto tempo, eu me sentia anestesiado, como uma máquina”, disse Luo em uma entrevista. “E assim eu desisti”.

E “lie flat” significa renunciar ao casamento, não ter filhos, ficar desempregado e se abster de bens materiais como uma casa ou um carro. É o oposto do que os líderes da China têm pedido a sua população. Mas isso não tem preocupado Leon Ding.

O jovem de 22 anos já está sem fazer nada há quase três meses e considera seu ato uma “resistência silenciosa”. Ele abandonou a universidade no último ano, em março, porque não gostou do curso de ciência da computação que seus pais escolheram para ele.

Depois de deixar a faculdade, usou suas economias para alugar um quarto em Shenzhen. Tentou achar um emprego em um escritório, mas viu que a maior parte dos cargos exigia que trabalhasse longas horas. “Quero um emprego estável que me permita algum tempo para relaxar, mas onde encontrar?”, perguntou.

Ding acha que os jovens devem trabalhar duro no que gostam, mas não das 9h às 21h durante seis dias na semana – como exigem muitos empregadores na China. Frustrado com a busca por emprego, decidiu que ficar deitado, ou “lying flat”, era o caminho a seguir.

Embora muitos millennials chineses continuem fiéis à ética de trabalho tradicional do país, o chamado “lying flat” reflete um movimento nascente de contracultura e uma reação ao ambiente de trabalho hipercompetitivo na China.

Xiang Bao, professor de antropologia social na Universidade de Oxford, que concentra seus estudos na sociedade chinesa, qualifica essa cultura como um ponto de inflexão no caso da China. “Os jovens sentem uma espécie de pressão que não conseguem explicar e acham que as promessas foram quebradas”, disse ele. “As pessoas percebem que as melhorias do ponto de vista material não são mais a fonte mais importante do significado da vida”.

O Partido Comunista, receoso de qualquer forma de instabilidade social, considera a ideia do “lying flat” uma ameaça à estabilidade da China. Os censores deletaram um grupo “tangping” com mais de nove mil membros no popular fórum de internet Douban. As autoridades também barraram postagens em um outro fórum com mais de 200 mil membros.

Em maio, o órgão regulador ordenou às plataformas on-line “restringir rigorosamente” novas postagens sobre o “tangping”. E uma segunda diretiva estabelece que as plataformas de e-commerce deixem de vender roupas, capas de celulares e outros artigos que contenham a expressão “tangping”.

A mídia oficial de notícias qualificou o tangping “uma vergonha” e um jornal alertou contra a ideia de “relaxar antes de enriquecer”. Yu Minhong, conhecido bilionário, insistiu para os jovens não seguirem o movimento. “Do contrário, de quem vamos depender para o futuro do nosso país?”, disse ele.

Origem

Luo decidiu escrever sobre o tangping depois de ver pessoas discutindo acaloradamente os últimos resultados do censo na China, em abril, e os apelos para o país resolver uma iminente crise demográfica com o nascimento de mais crianças. Ele descreveu sua postagem original como “um monólogo interior de um homem vivendo na camada mais baixa da sociedade”.

“Essas pessoas que afirmam que ficar deitado e não fazer nada é uma vergonha são descaradas”, ele disse. “Eu tenho o direito de escolher um estilo de vida mais lento. Eu não faço nada destrutivo para a sociedade. Nós temos que trabalhar 12 horas por dia numa fábrica, e isso é justiça?”.

Luo nasceu em Jiande, zona rural, a leste da província de Zhejiang. Em 2007, abandonou a escola secundária e começou a trabalhar em fábricas, e num dos empregos, uma fábrica de pneus, tinha de cumprir turnos de 12 horas. No final do dia tinha bolhas nos pés, disse.

Em 2014 encontrou um trabalho como inspetor de produtos numa fábrica, mas não gostou. Deixou o emprego depois de dois anos e começou a fazer serviços temporários para sobreviver (em 2018, fez o papel de um cadáver num filme chinês.)

Hoje ele vive com sua família e passa os dias lendo filosofia, notícias e se exercitando. Disse que é o estilo de vida ideal, que permite que ele viva minimamente e “pense e se expresse livremente”. E encoraja seus seguidores, que o chamam de “o Mestre do Lying Down”, a fazer o mesmo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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