REUTERS/Enrique de la Osa
REUTERS/Enrique de la Osa

Gerações cubanas se dividem na reação à morte de Fidel

Apatia marca comportamento dos mais jovens na despedida do líder da Revolução Cubana enquanto mais velhos exaltam seu legado

O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2016 | 16h33

HAVANA - Os clubes noturnos fecharam mais cedo e os jovens, vestidos para se divertir, tomaram as ruas escuras de Havana. Alguns, ao saber da notícia, telefonaram para seus parentes que assistiam, em casa, à TV estatal. Quando descobriram o que aconteciam, absorviam lentamente o impacto do que acontecera: Fidel Castro está morto. 

Do lado de fora do Salón Rojo, uma das atrações noturnas mais populares de Havana, conhecida pelos shows de reggaeton, a música parou de maneira abrupta. A polícia orientava o público - as mulheres de minissaias e os homens de moicano - a sair de maneira ordenada. 

Ninguém chorava e ninguém cantava. Uma voz na multidão disse que o país estaria melhor ou mais livre sem ele, mas o fez em vez baixa, com medo de que fosse ouvida. Um táxi estava a postos em busca de clientes bêbados e sorridentes para levá-los de volta para casa. 

A alguns metros da festa, três vizinhos já entrados nos 50 anos consolavam uns aos outros em um prédio de apartamentos que fica diante do icônico Hotel Nacional. Concepción Garcia, de 55, olhava com desapontamento para os jovens. 

“Tivemos uma experiência muito rica de viver dois períodos da histórica cubana: o capitalismo e o socialismo”, disse. “Eu tenho de agradecer à Revolução e a Fidel pela minha cirurgia de catarata. Foi grátis.”

Concepción disse também que, graças a Fidel, Cuba está no cenário internacional. “O mundo reconhece isso”, acrescentou. 

Vizinho dela, Josué Carmón Arramo, concorda. “A vida dele acabou, mas sua obra sobrevive”, afirmou. “A história não morre. Somos seguidores de seus ideais de nacionalismo solidariedade. É assim que somos.”

Para Elaine Díaz, uma blogueira independente em cuba, a divisão etária em Cuba não é uma surpresa. É difícil para os cubanos mais velhos dissociar o país do legado do ex-líder comunista. Mas com Fidel afastado há dez anos da vida pública os mais jovens tiveram menos exposição a ele no dia a dia.

“A geração dos meus avós se beneficiou muito com ele e sente muito a sua morte. A dos meus pais ainda há muita lealdade. Mas da minha em diante já há difeenças”, disse. “Você vê a apatia em muitos jovens.”

Lideranças. Ainda de acordo com a blogueira, a morte de Fidel deve levar a mais divisões na rígida burocracia que controla Cuba. Apesar da aparência monolítica, é sabido que há facções mais liberais e mais conservadoras dentro do governo chefiado por Raúl Castro. “Isso se tornará cada vez mais público”, disse. 

A televisão estatal interrompeu sua programação normal para exibir uma série de vídeos históricos de Fidel, entre eles a reunião do menino Elián González - que no ano 2000 foi devolvido dos EUA para Cuba - com sua família. 

No Malecon, o passeio à beira-mar onde muitos jovens se reúnem no fim de semana para beber rum e ouvir música, o silêncio era dominante na madrugada de sábado. O local é um dos pontos de internet gratuita da cidade e muitos jovens buscavam notícias no celular, sob os olhares atentos da polícia. Ninguém falava nem se reunia em grupo. Muitos pareciam querer ir para casa. 

Controle. Para Miriam Leiva, uma ativista anticastrista de longa data, Raúl manteve o controle absoluto do governo na última década e há poucas chances de uma reviravolta política. Quando muito, elas diz, podem haver mais mudanças econômicas impulsionadas pela reaproximação com os Estados Unidos. 

“O aparato político pode aliviar o freio nas mudanças”, disse.

Apesar da idade avançada de Fidel, muitos viram sua morte com surpresa. A blogueira Yoani Sánchez, conhecida pelo seu ativismo nas redes sociais, lembrou que pela primeira vez em sua vida, terá um dia sem Fidel Castro no país. “ Um novo dia está amanhecendo”, escreveu no Twitter. 

Francisco Rodríguez Cruz, outro blogueiro e ativista, mas alinhado ao governo, disse que seu sentimento era similar ao da perda de um familiar. “Com a morte dele, parece que sua vida toda se espalha diante de você”, afirmou. “É um sentimento muito estranho. / THE NEW YORK TIMES

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