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Gigante na economia, China sofre para obter prestígio global 

De acordo com analistas, esforço do governo para expandir soft power chinês não pode ter como base apenas o poderio econômico 

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2019 | 08h00

A República Popular da China chega esta semana aos 70 anos de fundação tentando cunhar sua versão de soft power. O termo criado pelo cientista político Joseph Nye, nos anos 80, estava relacionado à atração que aspectos da sociedade, política e cultura exerciam sobre outras nações. No caso chinês, analistas dizem que apenas o desempenho econômico não será suficiente para atrair simpatia e aplacar críticas em áreas como direitos humanos e disputas territoriais. 

“Muito do que o governo chinês e o Partido Comunista da China fazem para afetar a narrativa do país tem uma dimensão mais encoberta, corrupta ou coercitiva. Alguns analistas chamam até de ‘sharp power’ (poder afiado, em tradução livre)”, afirma Sarah Cook, pesquisadora e especialista do centro de estudos Freedom House, em entrevista ao Estado

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O Partido Comunista da China tem consolidado seus esforços nos últimos anos para expandir estratégias e influenciar governos estrangeiros e instituições globais, como a ONU, explica Cook. Ainda que não sejam novos, esses esforços se aceleraram, primeiro, sob a liderança de Hu Jintao e, principalmente, com Xi Jinping

Segundo a analista, e de acordo com algumas pesquisas, o foco desses esforços têm sido os países em desenvolvimento, que têm recebido bilhões de dólares em investimentos e transações comerciais. Mas, enquanto algumas das atividades são transparentes e projetam uma visão positiva da China, outras, segundo Cook, não podem ser chamadas de soft power. 

Um exemplo do esforço diplomático da China ocorreu na semana passada, quando duas ilhas do sul do Pacífico, Ilhas Salomão e Kiribati, romperam relações diplomáticas com Taiwan e estabeleceram com a China. Com isso, Taiwan – que Pequim considera uma “província rebelde” – reduziu a apenas 15 os países com quem tem relação. 

Segundo análise do Washington Post, as duas ilhas foram as mais recentes a ceder à pressão econômica da China, que tem um plano de assistência de US$ 1,78 bilhão para o sul do Pacífico e agora está entre os três maiores doadores para a região – ao lado de EUA e Austrália. 

O professor Alexandre Ratsuo Uehara, coordenador do Centro Brasileiro de Estudos de Negócios Internacionais e Diplomacia Corporativa da ESPM, explica que, na história recente, houve duas maneiras de as nações tentarem atingir uma posição de liderança. 

De um lado, sem sucesso, há Alemanha, França e Japão. Do outro, Reino Unido e EUA. Para Uehara, não se trata apenas de projetar poder além de seu território, mas de ter aceitação na comunidade internacional. “Com relação à liderança americana, ela não só era aceita, mas desejada para que houvesse uma estabilidade internacional”, disse, em entrevista ao Estado, reconhecendo que hoje essa liderança passa por um declínio. Enquanto o governo americano se retira de vários fóruns internacionais, Pequim busca preencher o vácuo e moldá-los à sua maneira. 

O projeto transnacional de infraestrutura conhecido por Nova Rota da Seda, lançado pela China em 2013, é um exemplo de como o papel global da China não é claro. Segundo Uehara, para os idealistas, trata-se de uma ação positiva que pode levar a uma integração maior entre as economias e distribuir o desenvolvimento, hoje concentrado na Ásia, para outros continentes. Para os céticos, trata-se de simples expansionismo da influência chinesa. 

Segundo o professor, existe uma preocupação para determinar se o poderio militar que pode resultar do grande crescimento econômico chinês será pacífico, para manter a estabilidade internacional, ou se terá outros objetivos e ações unilaterais. 

No Mar do Sul da China, por exemplo, Pequim disputa territórios, recifes e ilhas com Malásia, Vietnã, Filipinas e Taiwan. Enquanto na ONU se discute quem tem direito de explorar essas regiões, explica o professor, a China já está montando suas bases militares, sob a alegação de que as áreas já foram suas no passado. 

“Soft power significa trazer os países para sua área de influencia de uma maneira amistosa. Neste momento, eu diria que esse conceito ainda é frágil, porque os países ainda têm muito mais desconfiança do que confiança na China”, afirma Uehara. 

 

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