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Gilles Lapouge: A loucura de Marine Le Pen

Justiça francesa determina que líder do principal partido populista de direita da França passe por avaliação psiquiátrica

O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2018 | 05h00

Ontem, uma notícia surpreendente chegou aos jornais de Paris. Marine Le Pen estaria louca? Seria um erro? Uma farsa? Uma tentativa estúpida dos adversários para desacreditá-la? Não. A suspeita sobre a saúde mental da líder do Rassemblement National (antiga Frente Nacional), partido populista de direita, surgiu não de um agitador midiático, mas da instituição mais respeitada da França: a Justiça. 

O Ministério de Justiça comunicou oficialmente que Marine havia sido intimada a se submeter a uma perícia psiquiátrica. Mas por quê? Há alguns anos Marine publicou no seu site fotografias do Estado Islâmico mostrando sessões de tortura com carrascos jihadistas, imagens sangrentas, repugnantes e degradantes. Esta é a estupidez que provaria que Marine está louca.

Interpelado, o tribunal determinou que ela seja submetida a essa avaliação porque a lei proíbe a difusão de mensagens violentas, pornográficas ou contrárias à dignidade e acessíveis a menores. Assim, ela se verá entre os loucos se atender à demanda grotesca de um juiz. 

Claro que ela não vai se apresentar. Normalmente, essa gafe seria risível, mas no clima político atual, provocou um drama. As redes sociais pegaram fogo, cada um dando sua explicação. Uma hipótese foi repetida constantemente: Emmanuel Macron, em pessoa, teria fomentado o golpe. Como há dois meses se multiplicam os disparates, e ele vê seu batalhão derreter como neve ao sol, o presidente teria imaginado esse ardil maquiavélico para derrubar sua rival mais tenaz.

Mas sabemos bem que na França a regra da separação dos poderes é sacrossanta. Portanto, está fora de questão a possibilidade de Macron demandar à Justiça tal violação da Constituição. Uma hipótese inconcebível. Macron hoje é um animal ferido, em grande perigo. O período de graça passou e foi substituído pelo da desgraça. Ele “perdeu a mão” e, em casos recentes, mostrou que é capaz de agir no limite do direito. É verdade. Mas, se ele atrai as críticas, tem uma virtude que ninguém nega, a sua excepcional inteligência. 

Não vemos por que mágica essa cabeça de repente se lançaria numa aventura tão estúpida: subornar uma autoridade judiciária para insinuar que sua mais perigosa rival está louca. Macron é um jovem bem penteado, bem vestido e bem educado. Não recorreria a artimanhas tão baixas.

E essa tempestade se reduziu a uma ocorrência banal: um juiz qualquer, nada sutil, decidiu aplicar ao pé da letra uma lei inútil. Em compensação, essa história, e a maneira como avivou as paixões, os medos, os desejos, é testemunha da situação precária em que Macron, antes invulnerável, se encontra hoje. Anteriormente, ele chegou a se comparar a Júpiter. Eis que, depois de um ano de governo, ele readquire sua verdadeira dimensão: um político talentoso e esperto, mas de nenhum modo um Júpiter.

Circula também outra hipótese: teria sido a própria Marine que armou a cilada. Não acredito nisto, mesmo que esteja claro que ela se beneficiaria com o incidente. Nas últimas pesquisas eleitorais para o Parlamento Europeu, os resultados foram surpreendentes: Macron, que até agora estava na estratosfera, conseguiria 20% dos votos. O Rassemblement National, de Marine, também teria 20%. Como ela ganha a cada dia o espaço que Macron perde, podemos prever uma mudança radical – a menos que, depois deste verão infernal, ele recupere seus talentos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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