Ahmad Shafie Bilal|AFP
Ahmad Shafie Bilal|AFP
Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Gilles Lapouge: A medalha de Bashar Assad

Chirac deu a Bashar Assad a Legião de Honra da França, mas não contou para ninguém. Agora, Emmanuel Macron abriu um processo para tirar, do mesmo Assad, a Grande Cruz da Legião de Honra

O Estado de S.Paulo

21 Abril 2018 | 05h00

Americanos, britânicos e franceses atacaram a Síria do presidente Bashar Assad para puni-lo por usar gases mortais contra seus oponentes. Agora, ficamos sabendo que o presidente Emmanuel Macron já havia iniciado um processo para tirar, do mesmo Assad, a Grande Cruz da Legião de Honra.

+ Estado Islâmico desiste de seu último reduto na capital síria

Para os franceses, a notícia é incrível. Em primeiro lugar, ninguém sabia que o tirano de Damasco tinha esse privilégio. Portar a mais alta distinção francesa, criada em 1810 pelo imperador Napoleão Bonaparte. Se, de uma parte, a lista de franceses condecorados é publicada normalmente, de outra, o público não sabe quais estrangeiros foram merecedores de tal honra. O que cria situações absurdas. Homens como o italiano Benito Mussolini, o ditador romeno Nicolae Ceausescu e o déspota africano Omar Bongo também foram titulares da Grande Cruz.

Como poderia Assad ser condecorado sem que o fato fosse divulgado? A história remonta a 2001. Na França, o presidente é Jacques Chirac, um bravo sujeito. Em Damasco, a Síria mal emerge do reinado do pai de Bashar, Hafez Assad, que morreu no ano anterior, depois de ter instalado na Síria o regime do medo. 

+ Avanço de Assad aumenta risco de conflitos regionais 

Na época, Bashar parecia um bom rapaz. Aos 36 anos, ele não tinha experiência, mas tinha ideias liberais e até humanísticas. Ele era tão gentil quanto seu pai era mau. Foi então que, na mente engenhosa de Chirac, nasceu uma bela ideia: ele faria desse bom jovem seu protegido, garantiria um apadrinhamento internacional que poderia, assim, beneficiar a Síria com reformas liberais, descanso e alegria.

Para começar, Chirac condecorou Bashar com a Legião de Honra. Mas a entrega da condecoração foi feita rapidamente e sem publicidade. Em um canto obscuro do suntuoso Palácio do Eliseu, Chirac discretamente colocou o grande colar em volta do pescoço do bom jovem. Um feito. A França, que sempre teve grandes interesses na Síria, “colocou em seu bolso” o líder sírio. Chirac fizera uma jogada hábil. 

+ Estados Unidos avaliam novas sanções aos aliados de Assad na Rússia

Em Damasco, porém, a abertura política foi um fechamento. Nem reformas liberais, nem liberalização da economia. Em vez disso, renovou um sistema “mafioso” e a Síria cedeu ao seu prazer oculto: assumir o controle do vizinho Líbano. De fato, em 2005, o primeiro ministro libanês, Rafic Hariri, foi assassinado em Beirute. Todas as atenções voltam-se para Damasco.

Chirac ficou furioso. Seu protegido simplesmente estava no comando. Além disso, Hariri era seu amigo. O bom Chirac estava indignado. Sua cólera o consumia. Entre França e Síria, a ruptura – que não duraria muito, porque Chirac deixaria o cargo.

Chega ao Eliseu outro gênio, Nicolas Sarkozy, que “fuma o cachimbo da paz” e faz de Assad convidado de honra na parada de 14 de julho de 2008. Isso quer dizer que Sarkozy tinha na cabeça uma grande ideia: a França assumiria a liderança na criação de uma união para o Mediterrâneo. Naturalmente, tudo dá errado rapidamente.

Em 2012, chega um novo presidente, François Hollande, mais informado que os outros. Então, veio Macron, que gosta de conversar com todos, até mesmo com o Diabo, para tentar convertê-lo. “É preciso falar com Bashar”, disse Macron, em dezembro. Três meses depois, nada. Enviamos bombas.

Essa visão geral prova que a “diplomacia da Legião de Honra” pode ter seu charme, mas que seus encantos são voláteis. É por isso que o Estado não faz publicidade dos estrangeiros que condecora. Eles têm a maior aparência de honestidade, mas matam oponentes e jogam outros na cadeia. 

Por exemplo, antigamente, o general Franco foi condecorado. Então, um grupo foi formado na França para que a Legião de Honra fosse retirada dele. Impossível. A condecoração pode ser confiscada de alguém “vivo”, não de uma “pessoa morta”.

Além dos ditadores mais conhecidos, há outros dos quais ninguém fala, porque reina o sigilo. Não parece, porém, que a medalha de Napoleão tenha sido oferecida a Stalin ou Hitler. Ufa! Escapamos. Caro Harvey Weinstein, produtor de Hollywood que tanto ama as meninas, sua Legião de Honra está por um fio. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.